Em 2016 uma jovem estudante, então com 14 anos, começou a pensar em desaparecer para sempre. Era uma dor interna, uma solidão que não sabia explicar como havia iniciado. Quando tentava comentar com o pai e a mãe sobre a tristeza profunda que sentia, a garota ouvia que "isso era frescura da adolescência".

        TERAPIA E MUTILAÇÕES

        A garota queria fazer terapia mas não teve o consentimento dos pais. A saída encontrada foi ingressar num grupo de WhatsApp em que adolescentes de diferentes partes do Brasil compartilhavam as mesmas angústias, como a falta de espaço, o isolamento e a ausência de alguém em casa com quem conversar. Mas a garota acredita ter recebido influência negativa: acabou tornando rotina as automutilações. Achava que cortando o próprio corpo reduziria o sofrimento. O vazio se tornou maior quando, em menos de 12 meses, 22 dos 50 jovens que faziam parte do grupo de Whats se suicidaram. A garota pensou em fazer o mesmo, mas desistiu quando se lembrou da irmã mais nova.

        ANO DE 2018

        No início de 2018, já cursando o ensino médio a jovem procurou a orientadora educacional de sua escola e pediu ajuda dela. A orientadora, uma professora e mais uma psicóloga desenvolveram um projeto ainda inédito no R.G. do Sul. Em março deste ano convidaram mais de 500 alunos para participarem, com a permissão dos responsáveis, de grupos de conversa sobre depressão, automutilação e suicídio. Por meio dos próprios alunos, com idade entre 11 e 17 anos as professoras souberam que a maioria dos pais se surpreendeu com as solicitações dos filhos.

        "O nosso grupo da escola me salvou. Percebi que havia muitos na mesma situação. Guardar o que sentimos é muito ruim, uma tortura psicológica.  Meu pai tem dificuldades de me aceitar. Ele fala que é frescura minha. Na escola, sou acolhida. Para quem enfrenta o que enfrentei, digo que procurem ajuda, porque sofrer sozinho não é bom".

        FILHOS FANTASMAS

        Os alunos da escola foram divididos em grupos por faixa etária e situações específicas. Cada encontro começa com a mesma pergunta: como foi a tua semana? 

As profe. também reúnem no WhatsApp os estudantes que fazem parte das rodas de conversa: muitos deles não conseguem esperar a semana para exprimir o que sentem.

        - "A questão afetiva é muito séria. O relato deles é de sentirem filhos fantasmas dentro de casa. Lamentam jamais terem recebido um abraço do pai ou da mãe, ou nunca terem ouvido uma palavra de incentivo. Trabalhamos para que os filhos dêm o primeiro passo, aquele abraço que está guardado a muito tempo. E o resultado é que temos recebido relatos muito lindos de reencontros dentro de casa" - comemoram as professoras e a psicóloga.

        ALERTA DOS PSIQUIATRAS

        Psiquiatras apontam a importância dos pais estarem atentos a mudanças de comportamento que possam indicar depressão. Eles frizam que os pais estão sendo excluidos pelos filhos ao serem trocados por aparelhos digitais. Sem sucesso na conversa, deixam de tentar contato, tornando o ciclo vicioso. Há também o problema da transferência de responsabilidade da criação dos filhos para as "babás eletrônicas" (celulares, tablets, TVs). O mais importante não é o tempo dos pais para os filhos, mas a qualidade. É necessário conversar prestando atenção no que eles têm a dizer. -"Quando estiverem com os filhos, estejam com eles de fato".

        CIPAVE

        Histórias como a da garota mencionada motivaram o Projeto Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e Violência Escolar (CIPAVE), da Secretaria Estadual da Educação -RS, a realizar um levantamento nas escolas estaduais do R.G. SUL. No mapeamento as direções foram questionadas sobre a quantidade de casos confirmados de automutilação e de suicídio entre os estudantes.

        DADOS DO LEVANTAMENTO

        Das 2,5 mil escolas, 1.622 responderam ao questionamento da CIPAVE.

        Das 1.622 escolas, 357 relataram 1.015 casos de automutilação;

        - 101 escolas confirmaram 169 tentativas de suicídio e, 06 mortes por suicídio somente entre janeiro e junho de 2018.

        

         FIQUE ATENTO AOS SINTOMAS DE DEPRESSÃO

        - Alteração do padrão de sono: dorme demais;

        - Alteração do apetite;

        - Alteração de humor, pode ser choro frequente ou apenas demonstrar a alteração de atitudes impulsivas;

        - Sentimentos de desesperança, desamparo e desespero;

         - Desânimo, queda no rendimento escolar;

         - Isolamento, tédio (não ter nada para fazer);

        -  Uso contínuo de roupas compridas em períodos de calor;

         - Uso de pulseiras para esconder os braços.

        CAUSAS QUE PODEM DESENCADEAR A DEPRESSÃO

        - Abuso de substâncias; abuso físico e sexual na infância;

        - Desemprego, perda recente de emprego ou endividamento dos pais;

        - Dificuldade em relação a identidade e orientação sexual;

        - Rejeição familiar, situações de luto, situações de assédio moral, trabalho infantil, violência familiar.

        DICAS PARA OS PAIS

        - Dialogue com o filho e tenha um espaço para a convivência. É preciso tirar um tempo para a familia.

        - Não deixe o filho isolado, tenha contato com ele.

        - Uma criança ou adolescente muito isolado que mude seu comportamento de base, que altera sua dinâmica, pode estar em sofrimento. Nesse momento, o ideal é conversar com o filho, dizendo que você se preocupa e que percebeu que ele está diferente.

        NOTA: Os conteúdos desta matéria  (adapatados para este espaço) foram extraídos do Jornal Diário Gaúcho (RBS), edição de 1º e 2 de setembro de 2018.

   

      

        

        

      

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