Você CONFIA no PRÓXIMO ? OPINIÃO EM TÓPICOS - Janeiro 2017

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                Confiança

                Costumo, quando estou no centro, em Porto Alegre, almoçar em um determinado restaurante natural. E, lá, sempre vejo um sujeito cuja atitude me chama bastante atenção. Cada vez que ele levanta de seu lugar para se servir, deixa ali, sobre a mesa, sua carteira e seu celular. Sai despreocupadamente, demonstrando plena confiança de que ninguém vai furtar seus objetos pessoais. Acho que ele pensa assim: as pessoas que frequentam este local são gente boa, ninguém aqui seria capaz de cometer um furto ou algo que prejudicasse alguém.

            Restaurante universitário

                Pela década de 60 do século passado, em meus tempos de estudante, na capital gaúcha, eu tinha por hábito almoçar no velho restaurante universitário da Avenida João Pessoa. Lá, quem quisesse tomar um suco ou refrigerante, para acompanhar a refeição, não precisava pagar antecipadamente no caixa. Simplesmente se servia e deixava o valor correspondente numa caixinha ali ao lado.

 Vigorava o tácito entendimento de que um estudante universitário jamais iria deixar de pagar o que consumiu. Funcionava.

            O sonho de todos

                Todos sonhamos viver numa sociedade onde tudo funcionasse assim, não é mesmo? Com certeza, isso há de acontecer um dia, quando todos tivermos um mínimo de educação. Falo daquela educação básica, fundada nas razões primárias da vida individual e social, aquela que nos dá a certeza de que o correto agir, os hábitos saudáveis, a honestidade, enfim, produzem harmonia e felicidade. A espiritualidade racional, que tenha como suporte a lei de causa e efeito, com bases e fins pedagógicos, é um excelente caminho para a aquisição e vivência desses valores que um dia hão de ser por todos cultivados.

                Thiago de Mello, em famoso poema, fala de tempos onde “o homem não precisará nunca mais duvidar do homem”. “O homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu”. Ou, simplesmente, “o homem confiará no homem como um menino confia em outro menino”.

            A aspiração de Kardec

                Talvez se possa interpretar todo o descalabro ético que se abateu sobre nossa sociedade como uma imensa crise de confiança. É como se atravessássemos um deserto, felizmente entrecortado de pequenos oásis onde ainda vicejam valores tidos como autenticamente humanos. Mas, lá fora, esses valores parecem ter sido levados de roldão pela tormentosa complexidade das relações políticas e sociais de um país movido por trapaças e injustiças. E com isso, o menino de ontem deixou de confiar no outro menino.

                Será possível resgatar essa confiança? Por que não? O sujeito que deixa a carteira sobre a mesa e o velho restaurante universitário são o indivíduo e a sociedade que todos sonhamos. Essa ânsia grita dentro de nós pedindo passagem

                “A aspiração por uma ordem superior das coisas é indício da possibilidade de atingi-la”, escreveu Kardec. Ou: se somos capazes, como consciência coletiva, de sonhar com um mundo justo e fraterno, e se já podemos intuir que o agir de um tem força para modificar o todo, é indício de que um dia chegaremos lá!

                 Seja 2017 o início dessa virada!  

(Coluna publicada nas edições de janeiro e fevereiro/2017, dos jornais OPINIÃO, do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, e ABERTURA, do Instituto Cultural Kardecista, de Santos.)

                

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Comentário de Ariana bentes maruoka em 13 janeiro 2017 às 21:11

Que assim seja.

Minhas orações são constante e incansáveis pelo sucesso dessa reforma.

Acredito tenho fé.

Comentário de Nizomar Sampaio Barros em 11 janeiro 2017 às 21:05

Bem arrazoado, mas, infelizmente, não há indicação de que uma simples mudança de calendário possa trazer, também, mudança no comportamento humano.

Ao me tornar espírita, esposei certo grau de confiança nos seres humanos, mas cedo as experiências que se seguiram me revelaram que deveria aprender a reconhecer a diferença dentro da igualdade. 

Perdi um guarda-chuva italiano de boa qualidade ao esquecer de retirá-lo do carro numa revisão programada. Quando dei pela falta, voltei à oficina, mas a concessionária que fez o serviço negou que o tivesse deixado lá. Eu tinha absoluta certeza, entretanto, que o havia esquecido na bolsa atrás do banco do carona.  

Em outra ocasião, deixei um guarda chuva (nacional) e um óculos ray-ban em cima da mesa de um restaurante enquanto fui para pagar a despesa. Quando voltei, o óculos havia desaparecido, e ninguém soube informar.  Eu supunha que o restaurante, de classe média, prestasse um bom serviço, mas me enganei.

Os 'amigos do alheio' estão em todo lugar. Já levei cano de revólver na têmpora, por ter atraído a atenção do marginal simplesmente por estar usando um 'blazer'. Já perdi celular num assalto e tive um óculos surrupiado enquanto operava um terminal bancário. Não acredito mais em balconista de loja varejista e nem em propaganda comercial. E sempre que abasteço, tenho de pedir o cupom fiscal, senão não me dão...  

De modo que a minha confiança no ser humano atualmente encontra-se tão fortemente abalada que, se por acaso, fosse viver numa sociedade isenta dessas perturbações, eu continuaria vivendo assustado. Síndrome de final de ciclo. Isto é, quando as qualidades opostas ao Bem se sobrepõem às boas ações.

Pessoas simples ou incautas que, pela fé, imaginam poder viver atualmente numa sociedade fraterna, candidatam-se indubitavelmente a pagar um alto preço pela falta de discernimento. O mundo do futuro, porém, trará as mudanças que os espíritos tendentes ao Bem aspiram ansiosamente, enquanto aproxima-se, inexorável, a  explosão do raio.  

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