A INQUISIÇÃO e os LIVRE-PENSADORES - OPINIÃO EM TÓPICOS - Abril de 2016

Livres pensadores espíritas

Às tardes de sextas-feiras, no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, costumamos reunir um grupo de livres pensadores espíritas para analisar criticamente, O Livro dos Espíritos. É uma atividade muito gostosa. Buscamos, ali, nos libertar de nossas amarras fideístas e politicamente corretas, com a releitura dos conceitos de Kardec e seus interlocutores espirituais, tendo presente seu contexto cultural e temporal. O resultado, mesmo que sobrem debates, divergências e algumas críticas, é, via de regra, o de admirar ainda mais Allan Kardec. Admitimos que algumas de suas propostas, hoje, já não constariam da obra. Muitas outras seriam somadas ao livro, caso fosse ele escrito agora. Mas, por trás de cada questão analisada, é sempre possível vislumbrar um claro direcionamento no sentido da quebra dos paradigmas então vigentes, avançando em conceitos, alguns dos quais só seriam socialmente aceitos ou institucionalizados décadas depois.

 

Giordano Bruno

Nos meses de janeiro e fevereiro, aquela atividade do CCEPA foi transferida para as quartas-feiras, a fim de não interferir na programação de férias dos gaúchos, em seu curto verão. A temática, então, passou a ser livre, reservando para março, com o retorno da maioria dos frequentadores, a retomada do exame sistemático de O Livro dos Espíritos.

O dia 17 de fevereiro caiu numa quarta. Bela oportunidade para que Maurice Herbert Jones, estudioso e admirador da vida e da obra de Giordano Bruno - e provocador-mor do grupo -, recordasse alguns aspectos do pensamento fecundo desse italiano, executado pela Inquisição justamente num 17 de fevereiro (1.600). Bruno talvez possa ser considerado o mais altivo, corajoso e determinado dos livres pensadores da História.

 

A Inquisição

No Século XVI, a Igreja, acossada pelas ideias renovadoras do Renascimento e da Reforma Protestante, decidiu, autorizada pelo Concílio de Trento, combater ferozmente qualquer tentativa, de dentro e de fora, que contrariasse sua doutrina oficial. Foi o período mais duro da Inquisição. Justamente nesse cenário, Giordano Bruno, que era frade dominicano, pregava princípios revolucionários, como a infinitude do universo, o heliocentrismo copernicano, a existência de muitos mundos habitados e a não divindade de Jesus: Deus não era pessoal, mas a “alma do universo”. Também criticava vigorosamente a intolerância e o sectarismo religioso, por contrariarem “a lei divina do amor universal”. Para Bruno, a negação da liberdade espiritual implicaria na supressão da dignidade humana.  Escreveu: “Só os espíritos fracos pensam com a multidão, por ser ela multidão”. Era o bom senso prevalecendo sobre o senso comum.

 

O santo e o livre pensador

O cardeal encarregado do processo contra Bruno no Santo Ofício foi Roberto Bellarmino, tido como homem muito bom, caridoso para com os pobres. Tanto que, depois de morto, foi canonizado. Mas, em matéria de fé, era inflexível. Com Bruno, quis mostrar-se “tolerante”. Concedeu-lhe vários prazos para que abjurasse de suas “heresias”, tidas pelo cardeal como “tolices”. Diferentemente do que faria Galileu Galilei, anos depois, Giordano Bruno, mesmo preso e torturado, reafirmou, sempre, suas teses. Perante o Tribunal da Inquisição, ao ser sentenciado à morte, disse: “Talvez vocês, meus juízes, pronunciem essa sentença contra mim com maior medo que o meu em recebê-la”. Colocaram-lhe na boca uma mordaça. E foi dessa maneira que o levaram ao Campo dei Fiori, naquele 17 de fevereiro, para ser queimado vivo.

O episódio foi marcante no histórico conflito entre fé e liberdade de pensamento. Dois séculos e meio após, Allan Kardec buscaria conciliar esses valores, ao escrever: “Fé inabalável só é aquela capaz de encarar a razão, face a face, em qualquer fase da Humanidade”.

 

 (Coluna publicada nas edições de março/2016, nos jornais CCEPA OPINIÃO, do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, e ABERTURA, do Instituto Cultural Kardecista de Santos)

Exibições: 216

Tags: -, 2016, Abril, EM, LIVRE-PENSADORES, OPINIÃO, Os, TÓPICOS, de

Comentar

Você precisa ser um membro de Espirit book para adicionar comentários!

Entrar em Espirit book

© 2020   Criado por Henrique.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Política de privacidade  |  Termos de serviço

Free counters!