Opinião em Tópicos - Temos, realmente, dia e hora para morrer ? Novembro 2013

A hora de cada um

 Reinaldo di Lucia falava sobre livre-arbítrio, no Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita. Contrapunha-se à tese de que a morte da gente está rigorosamente predeterminada e que de nada adianta querer protelá-la. Foi quando, em aparte, Roberto Rufo contou: a humorista brasileira Dercy Gonçalves não viajava de avião nem amarrada. Tinha medo de morrer. Alguém tentou demovê-la disso sob o argumento de que ela não morreria antes de chegar sua hora. “Está bem” – disse a comediante – “Mas quem vai me garantir que não será a hora do piloto?”.

Para quem crê num Deus onisciente, é até razoável sustentar que ele saiba o momento em que cada um vai morrer. Mas, presciência não é fatalismo. Como cantava Vinicius de Moraes, “são demais os perigos desta vida”, e nada recomenda nos submetermos a eles de forma temerária e inconsequente. Cada vez melhor, o ser humano tem condições de administrar sua vida e prolongá-la. A propósito, Dercy deve tê-la administrado bem. Morreu com 101 anos, em 2008.

O projeto Tikker

Lembrei-me desse tema, ao ler, dias atrás, sobre a existência de um relógio de pulso no site de financiamento coletivo Kicstarter que promete mostrar quantos anos, meses, dias, horas, minutos e segundos faltam para seu usuário morrer. O projeto “Tikker”, aguardando financiamento, não explicita a forma como chegará a essa fantástica previsão a ser feita para cada um dos compradores do tal relógio.  Imagina-se que, antes da compra, eles deverão se submeter a entrevistas, exames e preenchimento de detalhados formulários sobre seus hábitos, heranças genéticas, doenças já enfrentadas, etc. Com base nisso, há de ser feita uma estimativa do tempo de vida restante. Agora, com certeza, o aparelho não poderá prever a queda de um avião em eventual viagem do usuário ou a irresponsabilidade de um terceiro que, na estrada, jogue o carro por cima do portador do relógio. A chamada “hora de cada um” não pode estar carregada de tanto fatalismo, a ponto de interferir na liberdade e na responsabilidade pessoal de todos os atores desse drama chamado vida.

 Previsão do futuro

 Prever o futuro, em certas circunstâncias, é relativamente fácil. Todos nós, em alguma medida, exercitamos essa faculdade. A partir de determinados hábitos e comportamentos, podemos prever, com razoável possibilidade de acerto, que alguém enriquecerá ou se tornará pobre, viverá bastante e com saúde ou morrerá de câncer de pulmão, conquistará um bom emprego ou ninguém lhe ofertará trabalho. Tudo de acordo com o jeito de viver de cada um. Médicos que acompanham o estado de saúde de seus pacientes, muitas vezes, prognosticam o tempo que lhes resta viver.

Se supusermos a existência de espíritos que conheçam muito mais sobre a vida de algum encarnado, até admitiremos que eles possam fazer essa previsão com maior grau de acerto. Mas, isso não é fatalismo. É conhecimento baseado em leis de causa e efeito.

Livre-arbítrio e espiritismo

Mesmo com algumas passagens capazes de levar a uma interpretação determinista sobre nossa vida como encarnados, a doutrina espírita merece ser analisada, acima de tudo, como defensora da prevalência do livre arbítrio na vida humana. Como muito bem salientou Reinaldo, em seu trabalho no SBPE, paira acima dessas interpretações fatalistas uma frase lapidar na obra de Allan Kardec, segundo a qual “sem o livre arbítrio, o homem seria uma máquina”. (Questão 843 de O Livro dos Espíritos).

 (Coluna publicada nos jornais "Opinião", do Centro Cultural Espírita de Porto  Alegre e "Abertura", do Instituto Cultural Kardecista de Santos, edições de novembro)

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Comentário de Simone Armond em 23 dezembro 2013 às 10:46

Não me vejo pedindo para nascer, sinceramente em sã consciencia não pediria para nascer aqui ou em qualquer lugar, ou mesmo para ser criada.
Diante  de minha insignificancia ao pó quero voltar a ser o pó que sempre fui.
Acho o mundo uma loucura, e dificilimo viver quando se propõe a seguir os passos do Mestre..."Ser perfeito" .Como é estreita a porta!!!
Apegar a superficialidade da materialidade , para fugir do que mais importa, muitos o fazem, e com certeza ja o fiz...deu me uma ilusão superficial e momentanea , mas um vazio existencial.
Digo isso pelos erros que eu  ja tive em minha vida e sinceramente preferia a não existencia...porque causei sofrimentos e sofri muito  por isso , aprendi muito ,mas nada justifica esse tipo de masoquismo e sadismo, e não percebo contribuição efetiva minha em nada nesse mundo.
O sofrimento que vejo ao redor  me abala muito mais do que já sofri com certeza.. Nisso aprendi a compreender muito:  a dor do outro, desde as dores fisicas até as morais.
 Vivemos em meio as ilusões tão efemeras e muitas vezes nos perdemos nelas...Se tivesse escolhido , nao teria nem sido criada em minha essencia..
Não condeno nimguém que também errou ou erra, aprendi a ter uma visão diferente da vida .Sempre falo que a minha Não existencia seria uma forma maior de glorificar o criador.
O único sentido que vejo na vida para ser feliz é fazer o outro feliz,e é nisso que me apego, mas percebo que tambem o faço mal , então tento ensinar o desapego para que sofram menos .os que estão ao meu redor...o mal esta muito nisso ...È tanta violencia, doença, distenções, desentendimentos, materialidade, valores falsos , entre povos, pessoas, nações por diversos temas,desde religiosos até materiais, tanta mesquinharia que cada dia mais creio que não deveria estar aqui.
Me pergunte o que vale a pena:....a natureza, a criação as belezas silenciosas onde se percebe a presença de Deus,o bem que percebemos atraves de certas pessoas , reflexo do criador  ..sua marca .
Mas mesmo em pântanos há flores e perfume ....mesmo no lôdo nasce flor ...ainda bem
Um dia seguirei meu caminho ...espero que sem retorno a essa loucura toda, tento fazer por onde ....passar pela porta....aonde só há Luz

Comentário de Isaura Nascimento Silva em 7 dezembro 2013 às 16:31

Acho que esta marcado sim mais isso quem sabe não somos nós e sim nosso pai maior, que é Deus.

Porisso precisamos fazer o nosso melhor enquanto estamos aqui neste planeta terra, porque a hora que desencarnarmos vamos ter que prestar contas de tudo o que fizemos.

É isso que acho.

Comentário de elisabete santiago em 25 novembro 2013 às 7:11

Amei a opinião da Marilu Salete Xavier Bernardes em relação ao texto...

Comentário de Roberto d Avila em 22 novembro 2013 às 10:12

 E muito difícil, você prever quando vai desencarnar, pois quando se esta em plena paz, aparece um inimigo de vidas passadas, que inferniza sua vida, e você precisa do auxilio, do astral superior, para se livrar, mais eu pergunto, e o desgaste, enfim é a luta do bem contra o mal, que só a fé resolve. 

Comentário de marilu salete xavier bernardes em 21 novembro 2013 às 23:48

Diz o livro dos espiritos,que as nossas provas na terra somos nós mesmos que as escolhemos,antes de reencarnar,,,e quantas vezes temos de reencarnar?   nem mesmo isso é nos dado saber, pois o véu do esquecimento,( e bendito véu! ), apaga por assim dizer, todas as lembranças pretéritas, ficando tão somente,a sensação,a energia sutil que nos envolve ,dizendo que tal pessoa é fulano, que já o conheçemos de algum lugar.....Assim é a chegada de nossa hora, todos sabemos que iremos, quando, como, onde,não sabemos,eis a questão.......DEUS,é perfeito,assim como perfeitos são suas decisões para com todos nós,que seja feito sua vontade. Belo texto,ótimo conteúdo,obrigada por compartilhar, Marilu.   

Comentário de José Siqueira Souza em 21 novembro 2013 às 21:47

Gostei muito do texto. Obrigada, e compartilhei... <3

Comentário de Wagner em 21 novembro 2013 às 19:29
Muito interessante !
Comentário de Vera Gonçalves Bueno de Freitas em 21 novembro 2013 às 19:27

Gostei muito do texto. Obrigada por compartilhar.

Abraços fraternos

Comentário de Nicéas Ferreira Brito Filho em 21 novembro 2013 às 17:17

REFLEXÃO !!!

Comentário de Luciano Cordeiro em 21 novembro 2013 às 16:30

Sim! Mas nem sempre o cronograma elaborado por nós mesmos, juntamente com os nossos irmãos mais  elevados, quando estamos na erraticidade é cumprido. Pois acabamos por comprometer nossa existência , incorrendo em erros ,outrora, cometidos em existências pretéritas e que, acabamos por repeti - los novamente e ,muitas vezes , ainda aumentamos nossa dívida perante a vida. Quando não procuramos progredir , não muito raro, antecipamos o nosso desencarne ;isso se chama falhar perante um compromisso, assumido na erraticidade. E evidentemente , teremos uma nova existência, com mais provas e expiações, até aprendermos..é a lei da vida!

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