Opinião em Tópicos

Milton R. Medran Moreira

Carlos Ayres Britto        

Com a aposentadoria compulsória do ministro Carlos Ayres Britto, ao completar 70 anos de idade, o Supremo Tribunal Federal perde uma das figuras mais extrordinárias que já passou por aquela Corte. Comecei a admirar esse jurista, poeta e humanista, há alguns anos atrás quando ele foi relator de uma ação em que se pedia a declaração de insconstitucionalidade da lei autorizando pesquisas com células-tronco embrionárias. Opondo-se, com altivez e independência, a organismos religiosos contrários à pesquisa, Ayres Brito chancelou a constitucionalidade da lei, em voto brilhante onde prioriza fatores como o interesse público e o compromisso estatal com a felicidade humana e com o desenvolvimento da ciência, sempre que estes conflitam com questões de fé.

Almas congeladas

Na oportunidade, publiquei no jornal Zero Hora (edição de 9.4.08) o artigo “Almas Congeladas”, apoiando a decisão do ministro. Afirmei ali, acerca da crença de que num aglomerado de células humanas, descartadas e guardadas em congelador, pudessem estar presentes espíritos: “Almas congeladas só podem povoar o mundo mítico de seres que preferem também congelar a fé, mas que não têm o direito de obstaculizar o avanço da ciência. Mormente quando esta contribui para a felicidade humana”.

Recebi, na oportunidade, atencioso telefonema pessoal do ministro, cumprimentando-me pelo artigo e revelando que se sentia confortado diante da posição de um espiritualista em favor da pesquisa. Disse-me que talvez eu não pudesse imaginar o quanto de pressões e de hostilidades estava sofrendo, vindas de religiosos, por conta de sua posição.

Espiritualista

Em seu telefonema, Ayres Britto nada me referiu sobre suas convicções filosóficas, mas suspeitei que estava falando com um homem com fortes inclinações espiritualistas. Agora, quando de sua aposentadoria, o jurista, em entrevista à Folha de São Paulo (caderno Ilustríssima de 14/11/12), falou amplamente sobre esses aspectos de sua vida. Revelou ser vegetariano e dedicar-se à prática de meditações diárias, “que infundem uma dose de espiritualismo na rigidez habitual da ciência jurídica”.  Prega ideias de que “é preciso expulsar de si o ego para que o espaço dentro de você seja preenchido pelo universo, pelo Cosmos, pela existência, que outros preferem dizer por Deus”. Sobre física quântica, área que também tem estudado, revelou, na entrevista, que esta, segundo lhe parece, “confirma tudo o que os espiritualistas afirmam”.

Espiritualismo e religiões

Perguntado se tinha religião, o entrevistado respondeu: “católica, só que, de 20 anos para cá, me tornei um espiritualista”.

A resposta é emblemática. Hoje, há uma clara oposição entre espiritualidade e religião. As religiões abandonaram a ideia do espírito. Sucumbiram ante o desprezo que a cultura materialista vota à hipótese da existência do espírito como identidade fundamental do ser consciente. Teoricamente, toda a religião deveria ser espiritualista. Na prática isso não ocorre. Como escreveu John A. Sanford, os teólogos modernos “falam muito sobre salvação e pouco sobre alma”, Isso dá a sensação de que o que deve ser salvo é “o ego com todos os seus desejos e esforços egoísticos”.

Só um espiritualismo humanista e laico, aberto aos avanços da ciência, pode resgatar a ideia fundamental do espírito, em um novo paradigma que não é nem o da teologia nem o do materialismo. Ayres Britto está claramente inserido nesse paradigma dos tempos que amanhecem.

 

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