Sidney Fernandes – 1948@uol.com.br

Incomensurável dor

Somente quem passou pela hora difícil da partida de um ente querido poderá dar o testemunho da sua incomensurável dor. A situação se agrava, sobremaneira, quando essa tragédia nos surpreende despreparados.

— Estou só em São Paulo, no primeiro mês após o falecimento de Cynira. Basta escrever “falecimento” e um frio me atravessa. Mas é melhor escrever “falecimento” do que “morte”, pois lembra desfalecimento, saída de cena temporária, pois Cynira é figura vital e não se compatibiliza com a ideia de extinção.

Quem escreveu essas palavras foi o notável historiador, professor e cientista político Boris Fausto, que jamais cogitara do tema morte. A imensa obra que ele produziu, e que o tornou referência na história e na política brasileira, não o vacinou contra o esmagamento da dor da morte de sua esposa Cynira, que o pegou desprevenido ou, como diriam os antigos, de calças curtas.

— Um amigo meu, professor da Universidade, passou pela dor de perder a filha, o que lhe reavivou o problema da imortalidade. Dirigiu-se aos colegas, professores de filosofia, esperando achar consolações em suas respostas. Amarga decepção: pedira um pão, ofereciam-lhe umas pedras; procurava uma afirmação, respondiam-lhe com um talvez.

Essas palavras são de Léon Denis, sobre o despreparo de uma pessoa culta para o problema da morte. Acrescentou ainda que as instituições podem desvendar os caminhos da ciência, mas não se preocupam com temas fundamentais como a empatia, o amor e a dedicação ao semelhante, argumentando que isso é assunto para templos e casas de oração.

Uma estudante perguntou à antropóloga Margaret Mead sobre o que ela considerava como o primeiro sinal de civilização de uma cultura. Esperava-se que a cientista falasse em anzóis, utensílios de barro ou mesmo fragmentos de armas feitas com pedras amoladas. Apresentou um fêmur — osso da coxa — que havia sofrido quebradura e havia sido curado.

— No reino animal — explicou Mead — quebrar uma perna significava a morte.

Um fêmur recuperado significa que alguém teve tempo e disposição para ficar com o ferido e cuidar dele. O primeiro sinal evidente de civilização surgiu com a constatação de que alguém teve amor e consideração pelo outro.

***

Filósofos de todas as épocas são concordes ao afirmar que a evolução do indivíduo deve abranger tanto a asa do conhecimento, como a asa do sentimento.

Somente a partir daí ele terá condições de saber de onde veio, porque está na Terra e para onde irá depois de sua morte. De posse dessas informações, não mais se desesperará com a passagem para o outro lado da vida, passando a considerá-la tão somente uma mudança de residência, dentro de sua jornada evolutiva.

Não há situação desagradável que não possa ser debitada ao nosso descaso, às ações negativas que provocamos ou à rejeição do conhecimento. Jamais poderemos reclamar daquilo que permitimos que acontecesse.

Queremos ter melhor qualidade de vida? Desejamos estar preparados para enfrentar as situações de infelicidade? Queremos entender melhor as doenças e, eventualmente, até a própria morte e a de entes queridos?

— A cura jamais chegará sem o reajustamento íntimo necessário — diz Emmanuel.

Naturalmente ou forçado pela dor, o homem tomará consciência de que somente o conhecimento científico não será suficiente para lhe trazer equilíbrio e competência a fim de enfrentar os mistérios da vida e além da vida.

Nesse estratégico momento, o sol voltará a brilhar e espantará de vez as trevas da alma, conduzindo-a seguramente pelas veredas do progresso espiritual.

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