O Lavrador Thomas Martin e o rei Luís XVIII - Revista Espírita de 1866


O Lavrador Thomas Martin e Luís XVIII
As revelações feitas a Luís XVIII por um lavrador da Beauce, pouco depois da segunda entrada dos Bourbons, tiveram no tempo uma grande repercussão e, ainda hoje, a sua lembrança não se apagou. Mas poucas pessoas conhecem os detalhes deste incidente, cuja chave agora só o Espiritismo pode dar, como de todos os fatos deste gênero. É um assunto de estudo muito interessante, porque os fatos, quase contemporâneos, são de perfeita autenticidade, já que são constatados por documentos oficiais. Dar-lhe-emos um resumo sucinto, mas suficiente para que sejam apreciados.

Thomas-Ignace Martin era um pequeno lavrador do burgo de Gallardon, situado a quatro léguas de Chartres. Nascido em 1783, tinha, por conseguinte, trinta e três anos quando se deram os acontecimentos que vamos relatar. Morreu no dia 8 de maio de 1834. Era casado, pai de quatro filhos menores e gozava em sua comuna da reputação de um homem perfeitamente honesto. Os relatórios oficiais o descrevem como um homem de bom-senso, embora de grande ingenuidade, por conta de sua ignorância das coisas mais vulgares; de caráter brando e pacífico, não se metia em nenhuma intriga; de perfeita retidão em todas as coisas e de completo desinteresse, de que deu numerosas provas, o que exclui toda idéia de ambição de sua parte. Assim, quando voltou à sua cidade após a visita ao rei, retomou suas ocupações habituais como se nada tivesse acontecido, evitando mesmo falar do que lhe havia sucedido.

Ao partir para Paris, o diretor do hospício de Charenton teve o maior trabalho do mundo para fazê-lo aceitar 25 francos para as despesas de viagem. No ano seguinte, estando sua mulher grávida do quinto filho, uma pessoa distinta por sua posição e que conhecia a mediocridade de sua fortuna, mandou propor por um terceiro, 150 francos para cobrir as necessidades nessa circunstância. Martin recusou, dizendo: “Só pode ser por causa destas coisas que me acontecem que me oferecem dinheiro, porque, sem isto, não falariam de mim, nem mesmo me conheceriam. Mas como a coisa não vem de mim, nada devo receber por isto. Assim, agradecei a essa pessoa porque, embora eu não seja rico, nada quero receber.” Em outras circunstâncias recusou somas mais consideráveis, que o teriam deixado à vontade.

Martin era simples, mas nem crédulo, nem supersticioso; praticava seus deveres religiosos escrupulosamente, mas sem exagero ou ostentação e sempre justo no estrito limite do necessário, visitando seu cura no máximo uma vez por ano. Por conseguinte, nele não havia nem falsa devoção, nem superexcitação religiosa. Nada em seus hábitos e em seu caráter era susceptível de exaltarlhe a imaginação. Tinha visto com prazer a volta dos Bourbons, mas sem se ocupar de política de modo algum e sem se envolver com qualquer partido. Dedicado inteiramente ao trabalho dos campos, desde a infância, não lia livros nem jornais.

Compreende-se facilmente a importância dessas informações sobre o caráter de Martin no caso de que se trata. Desde que um homem não é movido nem pelo interesse, nem pela ambição, nem pelo fanatismo, nem pela credulidade supersticiosa, conquista sérios títulos à confiança. Ora, eis de modo sumário como se passaram os acontecimentos que lhe sucederam.

No dia 15 de janeiro de 1816, por volta das duas e meia da tarde, ele estava só, ocupado em adubar um campo a três quartos de légua de Gallardon, num cantão muito deserto, quando, de repente, se lhe apresentou um homem de cerca de cinco pés e uma ou duas polegadas, corpo delgado, rosto afilado, delicado e muito branco, vestindo uma levita ou redingote dourado, totalmente abotoado e caindo até os pés, com os sapatos amarrados com cordões e com um chapéu redondo de copa alta. Esse homem disse a Martin:

“Deveis ir ao encontro do rei e lhe dizer que sua pessoa corre perigo, bem como a dos príncipes; que gente má ainda tenta derrubar o governo; que vários escritos ou cartas já circulam em algumas províncias de seus Estados a esse respeito; que é preciso que exerça uma polícia rigorosa e geral em todos os seus Estados e, sobretudo, na capital; que também é preciso que reabilite o dia do Senhor, a fim de que o santifiquem, pois esse dia santo é desconhecido por grande parte de seu povo; que mande interromper os trabalhos públicos nesses dias; que faça ordenar
preces públicas pela conversão do povo; que o estimule à penitência; que mande abolir e aniquilar todas as desordens que se cometem nos dias que antecedem a quaresma; a não ser assim, a França cairá em novas desgraças.”

Um pouco surpreso pela súbita aparição, Martin lhe respondeu: “Mas bem podeis ir encontrar outros, que não eu, para uma incumbência como esta. Não é com mãos assim (sujas de esterco) que vou falar ao rei!”

– Não, replicou o desconhecido, sois vós que ireis. – Mas, replicou Martin, já que sabeis tanto, bem podeis ir vós mesmo procurar o rei e lhe dizer tudo isto. Por que vos dirigis a um pobre homem como eu, que nem sabe explicar-se? – Não serei eu a ir, disse o desconhecido, sereis vós; prestai atenção no que digo e fazei
tudo o que vos ordeno.

Depois destas palavras Martin o viu desaparecer mais ou menos assim: seus pés pareceram elevar-se do solo, a cabeça baixar e o corpo, se encolhendo, acabou por desaparecer à altura da cintura, como se se tivesse evaporado no ar. Mais espantado por esta maneira de desaparecer do que pela aparição súbita, Martin quis ir-se embora, mas não pôde; ficou, mau grado seu, e voltou à sua tarefa que, devendo durar duas horas e meia, não durou senão hora e meia, o que redobrou o seu espanto.

Talvez achem pueris certas recomendações que Martin deveria fazer ao rei, sobretudo no que concerne à observação do domingo, em relação ao meio, aparentemente sobrenatural, empregado em lhas transmitir, e às dificuldades que tal providência deveria encontrar. Mas é provável que não fosse senão uma espécie de passaporte para chegar a ele, porque o objetivo principal da revelação, que era muito mais grave, não devia ser conhecido, como se verá mais tarde, senão no momento da entrevista. O essencial era que Martin pudesse chegar até o rei, e para isso a intervenção de alguns membros do alto clero era necessária. Ora, sabe-se a importância que o clero atribui à observação do domingo; como o soberano não haveria de sensibilizar-se, quando a voz do céu ia fazer-se ouvir por um milagre? Convinha, pois, favorecer Martin, em vez de o desanimar. Todavia, era preciso que as coisas marchassem por si mesmas.

Martin apressou-se em contar ao seu irmão o que lhe tinha acontecido e ambos foram comunicá-lo ao cura da paróquia, o Sr. Laperruque, que se esforçou por dissuadir Martin a levar a coisa à conta de sua imaginação.

No dia 18, às seis horas da tarde, tendo Martin descido ao porão para apanhar batatas, o mesmo indivíduo lhe apareceu de pé, ao seu lado, enquanto estava ajoelhado, ocupado em as recolher. Apavorado, lá deixa a candeia e foge. No 18, nova aparição à entrada de um lagar e Martin ainda foge.

No domingo, 21 de janeiro, Martin entrava na igreja à hora das vésperas; quando tomava água benta, percebeu o desconhecido, que também a tomava e que o seguiu até a entrada de seu banco. Durante toda o desenrolar do ofício esteve muito recolhido e Martin notou que ele não tinha o chapéu na cabeça nem nas mãos. Ao sair da igreja o seguiu até sua casa, caminhando ao seu lado, com o chapéu na cabeça. Chegados ao portão largo, achou-se de repente diante dele, face a face, e lhe disse: “Desobrigai-vos de vosso encargo e fazei o que vos disse; não vos deixarei em paz enquanto vossa obrigação não for cumprida.” Mal pronunciou estas palavras, desapareceu, sem que desta vez, nem das aparições seguintes, Martin o tivesse visto desaparecer gradualmente, como da primeira vez. Em 24 de janeiro, nova aparição no celeiro, seguida destas palavras: “Fazei o que vos ordeno; é tempo.”

Notemos estes dois modos de desaparecimento: o primeiro, que não poderia ser o caso de um ser corporal em carne e osso, sem dúvida tinha por objetivo provar que era um ser fluídico, estranho à humanidade material, circunstância que deveria
ser realçada 50 anos mais tarde e explicada pelo Espiritismo, cujas doutrinas confirmava, ao mesmo tempo que devia fornecer um assunto de estudo.

Sabe-se que nestes últimos tempos a incredulidade procurou explicar as aparições por efeitos de óptica e que, quando apareceram em alguns teatros fenômenos artificiais deste gênero, produzidos por uma combinação de espelhos e luzes, houve uma grita geral na imprensa, para dizer: “Eis, enfim, descoberto o segredo de todas as aparições! É com o auxílio de tais meios que essa crença absurda se espalhou em todos os tempos e que pessoas crédulas se deixaram iludir por subterfúgios!”

Nós refutamos, como não podia deixar de ser (Revista, julho de 1863), essa estranha explicação, digna contrapartida do famoso músculo estalante, do doutor Jobert de Lamballe, que acusava todos os espíritas de loucos e que ele mesmo, infelizmente, mofou vários anos num hospício de alienados. Mas perguntaremos, no caso de que aqui se trata, por que e como os aparelhos desta natureza, necessariamente complicados e volumosos, poderiam ter sido dispostos e manobrados num campo isolado de qualquer habitação, e onde Martin se achava absolutamente só, sem que nada tivesse percebido? Como esses mesmos aparelhos, que funcionam na obscuridade com o auxílio de luzes artificiais, poderiam ter produzido uma imagem em pleno sol? Como poderiam ter sido instantaneamente transportados para o porão e para o celeiro, locais que pouco se prestam a maquinações, para a igreja e daí seguir Martin até sua casa, sem que ninguém tivesse notado algo? Essas espécies de imagens artificiais são vistas por todos os espectadores. Como é que na igreja, e ao sair da igreja, somente Martin viu o indivíduo? Dirão que nada viu, mas que, de boa-fé, foi vítima de uma alucinação? Este explicação é desmentida pelo fato material das revelações feitas ao rei e que, como se verá, não podiam ser conhecidas previamente por Martin. Há nisso um resultado positivo, material, que não é peculiar às ilusões.

O cura de Gallardon, a quem Martin dava fiel conta das aparições, e que lhes tomava nota exata, julgou por bem se dirigir ao seu bispo, em Versalhes, para o qual lhe deu uma carta de recomendação circunstanciada. Lá, Martin repetiu tudo quanto havia visto e, depois de diversas perguntas, o bispo o encarregou de perguntar ao desconhecido, de sua parte, se ele se apresentaria, seu nome, quem era e quem o enviara, recomendando-lhe que dissesse tudo ao seu cura.

Alguns dias depois do regresso de Martin, o sr. cura recebeu uma carta de seu bispo, pela qual lhe testemunhava que o homem que lhe tinha enviado parecia ter grandes luzes sobre o objetivo importante de que tratava. A partir daí estabeleceu-se uma correspondência contínua entre o bispo e o cura de Gallardon. O monsenhor, por seu lado, em face da gravidade da primeira aparição, julgou por bem fazer desta um caso ministerial e de polícia; em conseqüência, enviava todo relatório que recebia do sr. cura ao Sr. Decazes, ministro da polícia geral.

Terça-feira, 30 de janeiro, o desconhecido apareceu novamente a Martin e lhe disse: “Vossa incumbência está bem começada, mas os que a têm nas mãos, dela não se ocupam; eu estava presente, embora invisível, quando fizestes vossa declaração; foi-vos dito para perguntar meu nome e da parte de quem eu vinha; meu nome ficará ignorado, e aquele que me enviou (mostrando o Céu) está acima de mim. – Por que vos dirigis sempre a mim, replicou Martin, para uma missão como esta, logo eu que sou apenas um camponês? Há tanta gente de espírito! – É para abater o orgulho, disse o desconhecido, mostrando a terra; não deveis vos orgulhar do que vistes e ouvistes, porque o orgulho desagrada soberanamente a Deus; praticai a virtude; assisti aos ofícios que se fazem em vossa paróquia aos domingos e dias de festa; evitai os cabarés e as más companhias, onde se cometem toda sorte de impurezas e onde imperam as más conversas. Não façais nenhum carreto aos domingos e feriados.”

Durante o mês de fevereiro, o desconhecido ainda apareceu várias vezes a Martin, dizendo-lhe, entre outras coisas: “Persisti, ó meu amigo, e conseguireis. Aparecereis diante da incredulidade e a confundireis; tenho ainda outra coisa a vos dizer que os convencerá e nada terão a responder. – Apressai vossa missão; não fazem nada do que vos tenho dito; os que têm o caso nas mãos estão inebriados de orgulho; a França está num estado de delírio; será entregue a toda sorte de desgraças. – Ireis encontrar o rei; dir-lhe-eis o que anunciei; ele poderá admitir consigo seu irmão e seus sobrinhos. Quando estiverdes diante do rei eu vos descobrirei coisas secretas do tempo de seu exílio, mas cujo conhecimento só vos será dado no momento em que fordes levado à sua presença.”

Entrementes, o Sr. conde de Breteuil, prefeito de Chartres, recebeu uma carta do ministro da polícia geral, que o convidava a verificar “se essas aparições dadas como miraculosasnão eram antes um jogo da imaginação de Martin, verdadeira ilusão de seu espírito exaltado, ou, enfim, se o pretenso enviado desconhecido e, talvez, o próprio Martin, não deveriam ser severamente examinados pela polícia e em seguida entregues aos tribunais.”

No dia 5 de março Martin recebeu a visita de seu desconhecido, que lhe disse: “Em breve comparecereis perante o primeiro magistrado de vosso Departamento; é preciso que relateis as coisas como vos são anunciadas; não deveis levar em consideração nem a qualidade nem a dignidade.”

Martin não tinha sido informado de que devia ir ao prefeito; aqui, portanto, não se trata de simples comunicação sobre uma coisa vaga: é a previsão de um fato que vai realizar-se. Isto é constantemente repetido durante a série desses acontecimentos; Martin sempre foi informado por seu desconhecido do que lhe aconteceria, das pessoas em presença das quais iria encontrar-se, dos lugares onde seria conduzido. Ora, isto não é o resultado da ilusão e das coisas quiméricas. Desde que o indivíduo diz a Martin: amanhã vereis tal pessoa, ou sereis conduzido a tal lugar e a coisa se realiza, é um fato positivo que não pode resultar da imaginação.

No dia seguinte, 6 de março, acompanhado pelo sr. cura, Martin foi à casa do prefeito, em Chartres. Inicialmente este se entreteve longamente em particular com o sr. cura; depois, mandando entrar Martin, perguntou: “Mas se eu o algemasse e prendesse por anunciar semelhantes coisas, continuaríeis a dizer o que enunciais? – Como quiserdes, respondeu Martin sem se intimidar; não posso dizer senão a verdade. – Mas, prosseguiu o sr. prefeito, se aparecêsseis diante de uma autoridade superior à minha, por exemplo, perante o ministro, sustentaríeis o que acabais de dizer-me? – Sim, senhor, replicou Martin, e diante do próprio rei.”

Surpreendido por tanta segurança, aliada a tamanha simplicidade, e mais ainda pelos estranhos relatos que lhe havia feito o cura, o prefeito decidiu-se a enviar Martin ao ministro. No dia seguinte, 7 de março, Martin partia com destino a Paris,
escoltado pelo Sr. André, tenente de polícia, que tinha ordem de vigiar todos os seus passos e de não o deixar nem de dia, nem de noite. Hospedaram-se na Rua Montmartre, “hôtel de Calais”, num quarto de dois leitos. Na sexta-feira, 8 de março, o Sr. André conduziu Martin ao quartel-general da polícia. Ao entrar no pátio do hotel, o desconhecido se lhe apresentou e disse: “Ireis ser interrogado de várias maneiras; não vos amedronteis nem vos inquieteis, mas dizei as coisas como elas são.” Depois destas palavras, desapareceu.

Não relataremos aqui todos os interrogatórios a que foi submetido Martin, pelo ministro e seus secretários, sem que ele se deixasse intimidar pelas ameaças, nem se desconcertar pelas armadilhas que lhe estendiam, para fazê-lo cair em contradição, confundindo seus interrogadores por suas respostas cheias de senso e de sangue-frio. Tendo Martin descrito seu desconhecido, o ministro lhe disse: “Pois bem! não o vereis mais, porque acabo de o prender. – Eh! Como pudeste prendê-lo, redargüiu Martin, já que ele desaparece como um relâmpago? – Se desaparece para vós, retomou o ministro, não desaparece para todo o mundo. E dirigindo-se a um de seus secretários: Ide ver se esse homem que mandei prender ainda está na prisão.”

Alguns instantes depois o secretário voltou e respondeu: “Senhor, ele está sempre lá. – Pois bem! disse Martin, se o prendestes e mo mostrardes, eu o reconhecerei; eu o vi muitas vezes para isto.”

A seguir veio um homem que examinou cuidadosamente a cabeça de Martin, afastando seus cabelos à direita e à esquerda; o ministro também fez o mesmo, sem dúvida para verificar se não tinha qualquer sinal indicador de loucura, ao que Martin se contentava em dizer: “Olhai quanto quiserdes, jamais adoeci em minha vida.”

Voltando ao hotel, à noite Martin disse ao Sr. André: “Mas o ministro me tinha dito que havia posto na prisão o homem que me aparecia. Então o soltou, pois me apareceu depois e me disse: Fostes interrogado hoje, mas não querem fazer o que eu disse. Aquele que vistes esta manhã quis que acreditásseis que me haviam detido; dizei-lhe que ele não tem nenhum poder sobre mim e que já é tempo para o rei ser avisado.” No mesmo instante o Sr. André foi fazer o seu relatório à polícia, enquanto Martin, sem se inquietar, deitou e dormiu sossegadamente.

No dia seguinte, 9, tendo Martin descido para pedir as botas do tenente, o desconhecido se apresentou no meio da escada e lhe disse: “Sereis visitado por um médico que vem constatar se tendes a imaginação impressionável ou se perdestes a cabeça; mas os que o enviam são mais loucos do que vós.” Com efeito, no mesmo dia o célebre alienista, Sr. Pinel, veio visitá-lo e o submeteu a um interrogatório apropriado a esse gênero de informação. “A despeito de sua habilidade – diz o relatório – foi incapaz de obter qualquer indicação, por menor que fosse, de provável alienação. Suas pesquisas não levaram senão a uma simples conjectura da possibilidade de alucinação e de mania intermitente.”

Para certas pessoas, parece que nada mais é preciso para ser tachado de loucura: basta não pensar como eles. Eis por que os que crêem em alguma coisa do outro mundo passam por loucos aos olhos dos que em nada acreditam.

Depois da visita do doutor Pinel, o desconhecido apresentou-se a Martin e lhe disse. “É preciso que vades falar ao rei. Quando estiverdes em sua presença eu vos inspirarei sobre o que devereis dizer-lhe. Sirvo-me de vós para abater o orgulho e a incredulidade. Tratam de afastar o caso, mas se não conseguirdes o vosso intento, ele será desvendado por outra via.”

No dia 10 de março, estando Martin em seu quarto, o desconhecido lhe apareceu e disse: “Eu havia dito que meu nome ficaria ignorado, mas, já que a incredulidade é tão grande, é preciso que vos revele o meu nome. Sou o anjo Rafael, anjo muito famoso junto a Deus. Tenho o poder de ferir a França com toda a sorte de flagelos.” A estas palavras, Martin foi tomado de pavor e sentiu uma espécie de crispação.

Outro dia, tendo saído com Martin o Sr. André encontrou um oficial amigo seu, com o qual conversou durante uma hora, em inglês, língua que naturalmente Martin não entendia. No dia seguinte o desconhecido, que ele agora chama anjo, lhe disse: “Os que ontem estavam convosco falaram a vosso respeito, mas não entendíeis sua linguagem; disseram que vínheis para falar ao rei e um disse que quando voltasse à sua terra o outro lhe daria notícias, para saber como a coisa se teria passado.” O Sr. André, a quem Martin dava conta de todas as suas conversas com o desconhecido, ficou muito surpreendido por ver que o que tinha dito em inglês, para não ser compreendido pelo camponês, estava descoberto.

Embora o relatório do doutor Pinel não concluísse pela loucura, mas apenas por uma possibilidade de alucinação, Martin não deixou de ser levado ao hospício de Charenton, onde ficou de 13 de março a 2 de abril. Lá foi objeto de minuciosa vigilância e submetido ao estudo especial dos especialistas. Igualmente fizeram inquéritos em sua terra, sobre os seus antecedentes e os de sua família, sem que, a despeito de todas as investigações, tivessem constatado a menor aparência ou causa predeterminante de loucura. Para render homenagem à verdade, deve-se dizer que ali foi sempre tratado com muita atenção da parte do Sr. Royer-Collard, diretor-chefe da casa, e por outros médicos, e que não o submeteram a nenhum desses tratamentos em uso nesses tipos de estabelecimentos. Se ali foi colocado, era bem menos por medida de seqüestro do que para ter mais facilidade de observar o seu real estado de espírito.

Durante sua estada em Charenton, teve visitas muito freqüentes de seu desconhecido, as quais não apresentaram nenhuma particularidade notável, a não ser esta em que lhe disse: “Haverá discussões: uns dirão que é imaginação; outros, que é um anjo de luz; outros, ainda, que é um anjo das trevas. Eu vos permito que me toqueis.” Então, contou Martin, ele me tomou a mão direita e a apertou; depois abriu o redingote pela frente e, quando este estava aberto, pareceu-me mais brilhante que os raios do Sol. Não pude encará-lo; fui obrigado a pôr a mão em frente aos olhos. Quando ele fechou o redingote, nada mais vi brilhando; ele me pareceu como antes. Esse abrir e fechar se operaram sem nenhum movimento de sua parte.

Outra vez, quando escrevia ao seu irmão, viu ao seu lado o desconhecido, que lhe ditou uma parte da carta, lembrando as predições que havia feito sobre as desgraças de que a França estava ameaçada. Eis, pois, Martin ao mesmo tempo médium vidente e escrevente.

Por mais cuidado que tivessem tomado para que o caso não se espalhasse, este não deixou de causar certa sensação nas altas rodas oficiais. Entretanto, é provável que tivesse dado em nada, se o arcebispo de Reims, grande capelão de França, depois arcebispo de Paris e cardeal Périgord, nele não se tivesse interessado. Falou a Luís XVIII e lhe propôs receber Martin. O rei lhe declarou que ainda não tinha ouvido falar do caso, tanto é certo que, muitas vezes, os soberanos são os últimos a saber o que se passa em seu redor e mais lhes interessa. Em conseqüência, ordenou que Martin lhe fosse apresentado.

Em 2 de abril Martin foi conduzido de Charenton à casa do ministro da polícia-geral. Enquanto esperava o momento de ser recebido, seu desconhecido lhe apareceu e disse: “Ireis falar ao rei e estareis só com ele; não temais aparecer diante dele; quanto ao que tereis a lhe dizer, as palavras vos virão à boca.” Foi a última vez que o viu. O ministro o acolheu com muita benevolência e disse que o mandaria levar ao Palácio das Tulherias.

Geralmente acredita-se que Martin veio por si mesmo a Paris, apresentou-se no palácio, insistindo em falar ao rei; que, repelido, voltou à carga com tanta persistência que Luís XVIII, tendo sido informado, ordenou que o fizessem entrar. Como se vê, as coisas se passaram de outro modo. Não foi senão em 1828, quatro anos depois da morte do rei, que ele deu a conhecer as particularidades secretas que lhe revelou e que lhe causaram profunda impressão, pois tal era o objetivo essencial dessa visita; os outros motivos alegados, como dissemos, não passaram de um meio de chegar a ele. Seu desconhecido lhe deixou ignorar essas coisas até o último momento, temendo que uma indiscrição arrancada pelo artifício dos interrogatórios fizesse o projeto fracassar, o que inevitavelmente teria ocorrido. Depois de sua visita ao rei, Martin foi despedir-se do diretor de Charenton e partiu imediatamente para sua terra, onde retomou o curso habitual de seus trabalhos, sem jamais se atribuir qualquer mérito pelo que lhe tinha acontecido.

O objetivo a que nos propúnhamos neste relato era mostrar os pontos pelos quais ele se liga ao Espiritismo. Sendo as particularidades reveladas a Luís XVIII estranhas ao nosso assunto, abster-nos-emos de as mencionar. Diremos apenas que elas se referiam a coisas de família da maior intimidade; comoveram o rei a ponto de o fazer chorar muito, declarando este mais tarde que as coisas que lhe tinham sido reveladas só eram conhecidas por Deus e por ele. Elas tiveram por conseqüência fazê-lo renunciar à sagração, cujos preparativos já haviam sido ordenados.25

Não reportaremos dessa entrevista senão algumas passagens da ata escrita em 1828, ditada pelo próprio Martin, onde se descreve o caráter e a simplicidade do homem.

“Chegamos às Tulherias pelas três horas e sem que ninguém houvesse dito algo. Chegamos até o primeiro oficial de Luís XVIII, a quem foi entregue uma carta e que, depois de a ter lido, me disse: Segui-me. Paramos por alguns momentos, porque o Sr. Decazes estava com o rei. Quando o ministro saiu eu entrei e, antes que eu dissesse uma palavra o rei ordenou ao oficial que se retirasse e fechasse as portas.

O rei estava sentado à sua mesa, diante da porta. Havia penas, papéis e livros. Saudei o rei, dizendo: “Senhor, eu vos saúdo.” O rei me disse: “Bom-dia, Martin.” Então falei com meus botões: Ele sabe o meu nome. “Certamente, senhor, sabeis por que venho”. – “Sim; sei que tendes algo a me dizer e disseram-me que era algo que só podeis dizer a mim. Sentai.” Então eu me sentei numa poltrona em frente ao rei, de modo que só havia a mesa entre nós. Perguntei-lhe como passava. – O rei me disse: “Passo um 25 Os detalhes circunstanciados e as provas em apoio se acham numa obra intitulada: O passado e o futuro explicados pelos acontecimentos extraordinários ocorridos a Thomas Martin, lavrador da Beauce. – Paris, 1832, Casa BRICON livreiro, rue du Vieux-Colombier, 19; Marselha, mesma casa, rue du Saint-Sépulcre, 17. – Esta obra, hoje esgotada, é muito rara. pouco melhor do que nestes dias passados; e vós, como passais? – Eu passo bem. – Qual o objetivo de vossa viagem? – E eu lhe disse: Podeis mandar chamar, se quiserdes, vosso irmão e seus filhos. O rei me interrompeu, dizendo: É inútil; eu lhes direi o que me tiverdes dito.” Depois disto, contei ao rei todas as aparições que eu tinha tido e que estão na ata.

“Eu sei tudo isto; o arcebispo de Reims já mo havia dito tudo. Mas parece que tendes algo a me dizer em particular e em segredo.” Então senti virem à minha boca as palavras que o anjo me havia prometido, e disse ao rei: “O segredo que tenho a vos dizer é que...” (Seguem detalhes sobre certas medidas a tomar e a maneira de governar, que, como as instruções dadas na continuação da conversa, não podiam ser inspiradas senão naquele momento, pois estão fora do alcance do grau de cultura de Martin).

“Foi a este relato que o rei, tocado de espanto e profundamente emocionado, disse: ‘Ó meu Deus! ó meu Deus! isto é bem certo; só eu, vós e Deus sabemos isto; prometei guardar o maior segredo sobre estas comunicações.’ E eu lhe prometi. Depois disto eu lhe disse: ‘Evitai fazer-vos sagrar; se o tentásseis, seríeis
ferido de morte na cerimônia da sagração.’ Desde esse momento até o fim da conversa o rei chorava sempre.” 

Quando terminei, ele me disse que o anjo que me havia aparecido era o que conduzia o jovem Tobias a Rages e que o fez casar. Depois perguntou qual de minhas mãos o anjo havia apertado. Eu respondi: “Esta”, mostrando a direita. O rei ma tomou, dizendo: “Que eu toque a mão que o anjo apertou. Orai sempre por mim. – Claro, senhor; eu e minha família, assim como o sr. cura de Gallardon, temos sempre orado para que o caso tivesse bom termo.”

Saudei o rei, dizendo-lhe: “Eu vos desejo boa saúde. Senhor, foi-me dito, uma vez cumprida minha missão junto a vós, que vos pedisse permissão para voltar à minha família; que não o recusaríeis e que nada me sucederia de mal. – Nada sofrereis. Dei ordens para que vos despachassem. O ministro vai providenciar jantar e leito, e papéis para que possais voltar amanhã. – Mas eu ficaria contente se voltasse a Charenton para me despedir e apanhar uma camisa que lá deixei. – Não vos causa desgosto ficar em Charenton? Estáveis bem lá? – Nenhum desgosto; e se não tivesse certeza de lá ter estado bem, não pediria para voltar. – Pois bem! já que o desejais, o ministro vos conduzirá de minha parte.”

Voltei a encontrar o meu condutor, que me esperava, e fomos juntos à casa do ministro.

Feito em Gallardon, em 9 de março de 1828.

Assinado: Thomas Martin

A conversa de Martin com o rei durou pelo menos 55 minutos.

Se, depois de sua visita ao rei, Martin não mais viu seu desconhecido, as manifestações não deixaram de continuar sob outra forma; de médium vidente, tornou-se médium auditivo. Eis alguns fragmentos de cartas que ele escrevia ao antigo cura de Gallardon:

28 de janeiro de 1821

“Sr. cura, escrevo para vos dar conhecimento de uma coisa que me aconteceu. Terça-feira passada, 23 de janeiro, estando à charrua e sem ter visto ninguém, ouvi uma voz que me falou, dizendo: ‘Filho de Japhet! pára e presta atenção nas palavras que te são dirigidas.’ No mesmo instante os meus cavalos pararam, sem que eu nada tivesse dito, pois estava muito admirado. Eis o que me disseram: “Nesta grande região uma grande árvore será plantada e, na mesma cepa, será plantada outra que é inferior à primeira; a segunda árvore tem dois galhos, dos quais um se quebrou e logo depois secou por um vento furioso e esse vento não cessou de soprar. No lugar desse galho surgiu outro, novo, tenro, que o substituiu; mas esse vento, que é sempre agitado, elevar-se-á um dia com tais abalos que... e depois desta catástrofe espantosa, os povos estarão na última desolação. Ora, meu filho, para que esses dias sejam abreviados; invoca o céu para que o vento fatal, saindo do noroeste, seja barrado por barreiras poderosas, e que seus progressos nada tenham de repugnante. Estas coisas são obscuras para ti, mas outros as compreenderão facilmente.”

“Eis, senhor, o que me aconteceu terça-feira, cerca de uma hora da tarde. Não compreendo nada disto. Vós me direis, se compreenderdes alguma coisa. A ninguém falei de tudo isto, nem mesmo à minha mulher, pois o mundo é mau. Eu estava resolvido a guardar tudo isto em silêncio, mas me decidi a vos escrever hoje, porque esta noite não pude dormir e tenho tido sempre estas palavras na memória; rogo que as guardeis em segredo, porque o mundo zombaria delas. Senhor, trataram-me de filho de Japhet. Não conheço ninguém em nossa família com este nome. Talvez se tenham enganado ou me tomaram por outro.”

8 de fevereiro de 1821

“Eu vos tinha proibido de falar do que vos contei; errei, porque isto não pode ficar oculto. Necessariamente é preciso que isto passe diante dos grandes e dos primeiros do Estado, para que se veja o perigo de que estão ameaçados, pois o vento de que vos falei antes vai provocar terríveis desastres, porque o vento sopra sempre em torno da árvore. Se não prestarem atenção a isto, em pouco esta estará derrubada. No mesmo momento outra árvore, com o que dela sai, experimentará a mesma sorte. Ontem a mesma voz me veio falar, e nada vi.”

21 de fevereiro de 1821

“Senhor, esta manhã tive um grande pavor. Eram nove horas. Ouvi um grande barulho junto a mim e nada vi, mas ouvi falar, depois que o ruído cessou, e me disseram: Por que tivestes medo? não temais; não venho fazer mal algum. Estais surpreendido de ouvir falar e nada ver; não vos admireis; é preciso que as coisas sejam descobertas; sirvo-me de vós para vos enviar, como sou enviado. Os filósofos, os incrédulos, os ímpios não crêem que suas manobras sejam vistas, mas é preciso que sejam confundidos... Ficai tranqüilo, continuai a ser o que tendes sido; vossos dias estão contados e não vos escapará um só. Proíbo que vos prosterneis diante de mim, porque sou apenas um servo como vós.”

“Senhor, eis o que me foi dito; não sei qual a pessoa que me fala; tem a voz bastante forte e muito clara. Tive a idéia de falar, mas não ousei, pois não vejo ninguém.”

Resta saber qual é a individualidade do Espírito que se manifestou. Era, realmente, o anjo Rafael? Há fortes razões para o duvidar e haveria muitas coisas a dizer contra tal opinião. Mas, em nossa opinião, esta é uma questão secundária. O fato capital é o da manifestação, da qual não se poderia duvidar, cujos incidentes têm sua razão de ser pelo resultado proposto, e hoje têm o seu lado instrutivo.

Um fato que, sem dúvida, não terá escapado a ninguém, é o das palavras de Martin, a respeito de uma soma que lhe ofereceram: “Como a coisa não vem de mim, dizia ele, nada devo receber por isto.” Eis, pois, um simples camponês, médium inconsciente que, há cinqüenta anos, época na qual se estava longe de pensar no Espiritismo, tem, por si mesmo, a intuição dos deveres impostos pela mediunidade, da santidade deste mandato. Seu bom-senso, sua lealdade natural lhe fazem compreender que o que vem de uma fonte celeste, e não dele mesmo, não deve ser pago.

Talvez se admirem das dificuldades que encontrou Martin para desempenhar a missão de que estava encarregado. Por que, dirão, os Espíritos não o fizeram chegar diretamente ao rei? Como vimos, essas dificuldades, essa lentidão tiveram sua utilidade. Era preciso que ele passasse por Charenton, onde sua razão foi submetida às investigações mais rigorosas da ciência oficial e pouco crédula, a fim de que fosse constatado que não era louco, nem exaltado. Como se viu, os Espíritos triunfaram dos obstáculos interpostos pelos homens, mas como estes têm o seu livre-arbítrio, não os podiam impedir de pôr entraves.

Notemos, a propósito, que Martin não fez, a bem dizer, nenhum esforço para chegar ao rei. As circunstâncias a isso o conduziram, quase que à sua revelia, e sem que tivesse sido necessário insistir muito. Ora, essas circunstâncias evidentemente foram conduzidas pelos Espíritos, agindo sobre o pensamento dos encarnados, porque a missão de Martin era séria e devia realizar-se.

Dá-se o mesmo em todos os casos análogos. Além da questão da prudência, é evidente que, sem as dificuldades que há de chegar a eles, os soberanos seriam assaltados por pretensos reveladores. Nestes últimos tempos, quanta gente se julgou chamada a semelhantes missões, que era apenas o resultado de obsessões, em que o seu orgulho era posto em jogo, mau grado seu, e não podia resultar senão em mistificações! A todos os que julgaram dever consultar-nos em semelhantes casos, sempre dissemos, demonstrando os sinais evidentes pelos quais se traem os Espíritos mentirosos: “Guardai-vos de qualquer manobra que, infalivelmente, vos levaria à confusão. Ficai certos de que se vossa missão for real, sereis postos em condições de realizá-la; que, num dado momento, se tiverdes de vos encontrar num certo lugar, a ele sereis conduzido, mau grado vosso, por circunstâncias que terão a aparência de ser um efeito do acaso. Além disso, assegurai-vos de que uma coisa, quando estiver nos desígnios de Deus, haverá de
realizar-se, e que ele não subordina tal realização à boa ou à má vontade dos homens. Desconfiai das missões fixadas e pregadas por antecipação, porque não passam de excitantes para o orgulho; as missões se revelam por fatos. Desconfiai também das predições em dia e hora certos, porque os Espíritos sérios jamais agem assim.” Temos sido bastante felizes para deter algumas delas, a quem os acontecimentos puderam provar a prudência destes conselhos.

Como se vê, há mais de uma similitude entre estes fatos e os de Joana d’Arc, não que haja qualquer comparação a estabelecer quanto à importância dos resultados realizados, mas quanto à causa do fenômeno, que é exatamente a mesma e, até certo ponto, quanto ao objetivo. Como Joana d’Arc, Martin foi advertido por um ser do mundo espiritual para ir falar ao rei para salvar a França de um perigo e, também como ela, não foi sem dificuldade que chegou até ele. Há, todavia, entre as duas manifestações, esta diferença: Joana d’Arc apenas ouvia as vozes que a aconselhavam, ao passo que Martin via constantemente o indivíduo que lhe falava, não em sonho ou em sono extático, mas sob a aparência de um ser vivo, como o seria um agênere.

Mas de outro ponto de vista, os fatos acontecidos a Martin, embora menos retumbantes, nem por isso tiveram menor alcance, como prova da existência do mundo espiritual e de suas relações com o mundo corporal, e porque, sendo contemporâneos e de incontestável notoriedade, não podem ser postos no rol das
histórias lendárias. Por sua repercussão, serviram de balizas ao Espiritismo, que devia, poucos anos depois, confirmar a sua possibilidade por uma explicação racional e, pela lei em virtude da qual se produzem, fazê-los passar do domínio do maravilhoso para o dos fenômenos naturais. Graças ao Espiritismo, não há uma só das fases apresentadas pelas revelações de Martin, das quais não se possa dar conta perfeitamente.

Martin era médium inconsciente, dotado de uma aptidão de que se serviram os Espíritos, como de um instrumento, para chegar a um resultado determinado, e esse resultado estava longe de estar inteiro na revelação feita a Luís XVIII. O Espírito que se manifestou a Martin o caracteriza perfeitamente, dizendo; “Eu me sirvo de vós para abater o orgulho e a incredulidade.” Esta é a missão de todos os médiuns destinados a provar, por fatos de todos os gêneros, a existência do mundo espiritual e de uma força superior à Humanidade, porque tal é o objetivo providencial das manifestações. Acrescentaremos que o próprio rei foi instrumento nesta circunstância. Era preciso uma posição tão elevada quanto a sua, a própria dificuldade de ale chegar, para que o caso tivesse repercussão, e a autoridade de uma coisa oficial. As minuciosas investigações a que Martin foi submetido só podiam aumentar a autenticidade dos fatos, porque não teriam tomado todas estas precauções para um simples particular. A coisa teria passado quase despercebida, ao passo que ainda hoje a recordam e ela fornece uma prova autêntica em apoio dos fenômenos espíritas.

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