O LAVRADOR THOMAS MARTIN E LOUIS XVIII

 

 

 

As revelações feitas a Louis XVIII, por um lavrador da Beauce, pouco tempo depois da segunda reentrada dos Bourbons, tiveram no tempo uma muito grande ressonância, e ainda hoje a sua lembrança não está apagada; mas poucas pessoas conhecem os detalhes desse incidente do qual só o Espiritismo agora pode dar a chave como de todos os fatos deste gênero. É um assunto de estudo tanto mais interessante quanto os fatos, quase contemporâneos, são de uma perfeita autenticidade, tendo em vista que são constatados por documentos oficiais. Iremos deles dar um resumo sucinto, mas suficiente para fazê-los apreciar.

 

Thomas-lgnace Martin era um pequeno lavrador do burgo de Gallardon, situado a quatro léguas de Chartres. Nascido em 1783, tinha, conseqüentemente, trinta e três anos quando tiveram lugar os acontecimentos que vamos narrar. Ele morreu a 8 de maio de 1834. Era casado, pai de 4 filhos de pouca idade, e gozando em sua comuna da reputação de um perfeito homem honesto. Os relatórios oficiais o pintam como um homem de bom senso, embora de uma grande ingenuidade em conseqüência de sua ignorância das coisas mais vulgares; de um caráter brando e pacífico, e não se misturando em nenhuma intriga; de uma retidão perfeita em todas as coisas e de um completo desinteresse, assim que dele deu provas numerosas, o que exclui toda idéia de ambição de sua parte.

 

Também, quando retomou à sua aldeia, depois de sua visita ao rei, retomou as suas ocupações habituais como se nada tivesse se passado, evitando mesmo falar daquilo que lhe tinha ocorrido. Na sua partida de Paris, o diretor da casa de Charenton teve todas as dificuldades do mundo para fazê-lo aceitar 25 francos para as suas despesas de viagem. No ano seguinte, sua mulher estando grávida de um quinto filho, uma pessoa distinguida por sua posição, e que conhecia a mediocridade de sua fortuna, lhe fez propor, por um terceiro, 150 francos para subvencionar as necessidades desta circunstância. Martin recusou, dizendo: "Não pode ser senão por causadas coisas que me acontecem que se me oferece dinheiro, porque, sem isto, não se falaria de mim; não se me conheceria mesmo. Mas como a coisa não vem de mim, não devo nada receber por isto. Assim, agradecei muito essa pessoa, porque, embora não seja rico, não quero nada receber."Em outras circunstâncias ele recusou somas mais consideráveis, que teriam podido colocá-lo à vontade.

 

Martim era simples, mas nem crédulo, nem supersticioso praticava seus deveres religiosos exatamente, mas sem exagero nem ostentação, e muito justo no limite do estritamente necessário, visitando seu cura pelo menos uma vez por ano. Não havia, conseqüentemente, nele, nem beatice, nem superexcitação religiosa. Nada em seus hábitos, nem em seu caráter, era de natureza a exaltar-lhe a imaginação. Tinha visto com prazer o retorno dos Bourbons, mas sem se ocupar de política de nenhum modo, e sem se misturar em algum partido. Inteiramente no trabalho dos campos, desde a sua infância, não lia nem livros, nem jornais.

 

Compreende-se facilmente a importância destas informações sobre o caráter de Martin no caso do qual se trata. Desde o instante que um homem não é movido nem pelo interesse, nem pela ambição, nem pelo fanatismo, nem pela credulidade supersticiosa, adquire títulos sérios à confiança. Ora, eis sumariamente como se passaram os acontecimentos que lhe ocorreram. 

 

Em 15 de janeiro de 1816, pelas duas horas e meia depois do meio dia, ele estava somente ocupado em espalhar estéreo num campo, a três quartos de légua de Gallardon, num cantão muito deserto, quando, de repente, se apresenta a ele um homem em torno de cinco pés e uma ou duas polegadas, delgado, rosto magro, delicado e muito branco, vestido de uma sobrecasaca ou sobretudo de cor bronze, totalmente fechada e pendente até os pés, tendo os sapatos amarrados com cordões e na cabeça um chapéu redondo de forma alta. Este homem disse a Martin:

 

"É preciso que vades encontrar o rei, e dizer-lhe que a sua pessoa está em perigo, assim como a dos príncipes, que pessoas más tentam ainda derrubar o governo; que vários escritos ou cartas já circularam em algumas províncias de seus Estados a esse respeito; que é preciso que ele faça uma polícia exata e geral em todos os seus Estados, e sobretudo na capital; que é preciso também que ele restabeleça o dia do Senhor, a fim de que se o santifique; que esse santo dia é desconhecido por uma grande parte de seu povo; e é preciso que ele faça cessar os trabalhos públicos nesse dia; que faça ordenar preces públicas para a conversão do povo; que ele excite à penitência: que sejam abolidas e aniquiladas todas as desordens que se cometem nos dias que precedem a santa quarentena: senão todas estas coisas, a França tombará em novas infelicidades."

 

Martin, um pouco surpreso de uma aparição tão súbita, respondeu-lhe:

 

“Mas podeis bem ir encontrar outros do que eu para fazer uma comissão como esta. Eis que, com mãos como estas(marcadas de fumaça) irei falar ao rei!”

 

“Não, replicou o desconhecido, vós é que ireis. - Mas, retomou Martin, uma vez que sois tão instruído, podeis bem ir encontrar o rei vós mesmo e lhe dizer tudo isso; porque vos dirigis a um pobre homem como eu, que não sabe se explicar? - Não serei eu que irei, disse-lhe o desconhecido, será vós; prestai atenção naquilo que vos disse, e fareis tudo o que vos mando.”

 

Depois destas palavras, Martin o viu desaparecer quase desta maneira: seus pés pareciam se elevar da terra, sua cabeça se abaixar e seu corpo diminuir, acabando por se desvanecer à altura do cinto, como se tivesse fundido no ar. Martin mais assustado por esta maneira de desaparecer, do que da aparição súbita, quis sair dali, mas não o pôde; permaneceu apesar de si, tendo retornado à obra, a sua tarefa, que deveria durar duas horas e meia, não durou senão uma hora e mela, o que redobrou a sua admiração.

 

Achar-se-ão, talvez, pueris certas recomendações que Martin devia fazer ao rei, sobretudo no tocante à observação do domingo, com respeito ao meio, em aparência sobrenatural, empregado para lha transmitir, e às dificuldades que tal diligência deveria encontrar. Mas é provável que não estava ali senão uma espécie de passaporte para chegar a ele, porque o objeto principal da revelação, que era de um bem da mais alta seriedade, não deveria ser conhecido, como se verá mais tarde, senão no momento da entrevista. O essencial era que Martin pudesse chegar até o rei, e, para isto, a intervenção de alguns membros do alto clero era necessária; ora, sabe-se a importância que o clero liga à observação do domingo; como o soberano não acederia quando a voz do céu ia se fazer ouvir por um milagre? Convinha, pois, favorecer Martin em lugar de desencorajá-lo. No entanto, foi preciso que as coisas caminhassem sozinhas.

 

Martin apressou-se de contar ao seu irmão o que lhe tinha ocorrido, e ambos foram disto dar parte ao cura da paróquia, Sr. Laperruque, que se esforçou por dissuadir Martin e colocar a coisa na conta de sua imaginação.

 

No dia 18, às seis horas da tarde, Martin, tendo descido à adega para procurar maçãs, o mesmo indivíduo lhe apareceu de pé, ao lado dele, enquanto estava de joelhos, ocupado em apanhá-las; espantado, deixa lá sua vela e foge. No dia 18, nova aparição à entrada de uma oficina de apisoar (lagar), e Martin ainda foge.

 

No domingo, 21 de janeiro, Martin entrou na igreja à hora das vésperas; como pegava água benta, percebeu o desconhecido que a pegava também e que o seguia até a entrada de seu banco; durante toda a duração do ofício ficou muito recolhido, e Martin notou que não tinha chapéu nem na cabeça nem nas mãos. Ao sair da igreja, segui-o até a sua casa, caminhando ao seu lado, o chapéu na cabeça. Chegados sob a porta carreteira, encontrou-se, de repente, diante dele, face a face, e lhe disse: "Desempenhai a vossa incumbência, e fazei o que vos digo; não estareis tranqüilo enquanto a vossa incumbência não for feita." Apenas pronunciou estas palavras, e desapareceu, sem que nem nesta vez, nem nas aparições seguintes, Martin o tenha visto desvanecer-se gradualmente, como na primeira vez. No dia 24 de janeiro, nova aparição no celeiro, seguida destas palavras: "Faça o que mando, é tempo."

 

Notemos esses dois modos de desaparecimento: o primeiro, que não poderia ser o fato de um ser corpóreo em carne e osso, sem dúvida, tinha por objetivo provar que era um ser fluídico, estranho à humanidade material, circunstância que deveria ser revelada 50 anos mais tarde e explicada pelo Espiritismo, do qual ela confirma as doutrinas, ao mesmo tempo que deveria fornecer um objeto de estudo.

 

Sabe-se que, nestes últimos tempos, a incredulidade procurou explicar as aparições por efeitos de ótica, e que, quando apareceram alguns fenômenos artificiais deste gênero, produzidos por uma combinação de vidros e de luzes, foi um grito geral na imprensa para dizer: "Eis, enfim, o segredo de todas as aparições descoberto! Foi com ajuda de semelhantes meios que esta crença absurda se difundiu em todos os tempos e que pessoas crédulas foram vítimas de subterfúgios!"

 

Refutamos, como deveria sê-lo, (Revista, julho de 1863, página 204) essa estranha explicação, igualmente digna do famoso músculo estalante, do doutor Jobert de Lamballe, que acusava todos os Espíritas de loucos, e que, ele mesmo, ai! definhou por vários anos numa casa de alienados; mas nos perguntaremos, no caso que aqui se trata, por quem e como os aparelhos dessa natureza, necessariamente complicados e volumosos, teriam podido ser manobrados num campo isolado de qualquer habitação e onde Martin se achava absolutamente só, sem que fosse percebido de nada? Como esses mesmos aparelhos, que funcionam na obscuridade com ajuda de luzes artificiais, teriam podido produzir uma imagem em pleno sol? Como poderiam ser transportados instantaneamente na adega, no celeiro, lugares geralmente com poucas máquinas, numa igreja, e da igreja seguir Martin até a sua casa, sem que ninguém tivesse nada notado? Esses efeitos de imagens artificiais são vistos por todos os espectadores; como se daria que na igreja, e ao sair da igreja, só Martin haja visto o indivíduo? Dir-se-á que ele nada viu, mas que, de boa fé, foi o joguete de uma alucinação? Esta explicação é desmentida pelo fato material das revelações feitas ao rei, e que, como se verá, não podiam ser conhecidas antecipadamente por Martin. Há aí um resultado positivo, material, que não é próprio das ilusões.

 

O cura de Gallardon, a quem Martin dava fielmente conta de suas aparições, e que delas tomava uma nota exata, acreditou dever dirigi-lo ao seu bispo, em Versailles, para o qual lhe deu uma carta de recomendação circunstanciada. Lá, Martin repetiu tudo o que tinha visto, e, depois de diversas perguntas, o bispo encarregou-o de perguntar ao desconhecido, de sua parte, se se representasse, seu nome, quem era, e por quem foi enviado, recomendando-lhe dizer tudo ao seu cura.

 

Alguns dias depois do retorno de Martin, o Sr. cura recebeu uma carta de seu bispo pela qual lhe testemunhava que o homem que lhe tinha enviado parecia ter grandes luzes sobre o objeto importante do qual era questão. Desde este momento estabeleceu-se uma correspondência contínua entre o bispo e o cura de Gallardon. De seu lado, Monsenhor, por causa da gravidade da primeira aparição, acreditou dela dever fazer, pouco tempo depois, um assunto ministerial e de polícia; em conseqüência, enviava cada narração que recebia do Sr. cura ao Sr. Decazes, ministro da polícia geral.

 

Na terça-feira, 30 de janeiro, o desconhecido apareceu de novo a Martin e lhe disse: "Vossa incumbência está bem começada, mas aqueles que a têm em mãos dela não se ocupam; eu estava presente, embora invisível, quando fizestes a vossa declaração; foi-vos dito de perguntar meu nome e de que parte eu vinha; meu nome permanecerá desconhecido, e aquele que me enviou (mostrando o céu) está acima de mim.

 

- Como vos dirigis sempre a mim, replicou Martin, para uma incumbência como esta, eu que não sou senão um camponês? Há tantas pessoas de espírito.

 

 - É para abater o orgulho, disse o desconhecido, mostrando a terra; por vós, não é preciso se orgulhar daquilo que vistes e ouvistes, porque o orgulho descontenta soberanamente a Deus; praticai a virtude; assisti aos ofícios que se fazem em vossa paróquia nos domingos e nas festas; evitai os cabarés e as más companhias onde se cometem todas as espécies de impurezas, e onde se prendem todas as espécies de maus discursos. Não façais nenhum carreto nos dias de domingo e de festas."

 

Durante o mês de fevereiro, o desconhecido apareceu ainda diferentes vezes a Martin, e lhe disse, entre outras, estas palavras: "Persisti, ó meu amigo, e alcançareis. Aparecereis diante da incredulidade, e a confundireis; tenho ainda outra coisa a vos dizer que os convencerá, e não terão nada a responder. - Apressai vossa incumbência, não se faz nada de tudo o que vos disse; aqueles que têm o negócios nas mãos estão embriagados de orgulho; a Franca está num estado de delírio; ela será entregue a todas as espécies de infelicidades. -Tereis de procurar o rei; dir-lhe-eis o que vos anunciei; poderá admitir com ele seu irmão e seus sobrinhos. Quando estiverdes diante do rei eu vos descobrirei as coisas secretas do tempo de seu exílio, cujo conhecimento não vos será dado senão no momento em que sereis introduzido em sua presença." Nesses momentos, o Sr. conde de Breteuil, prefeito de Chartres, recebeu uma carta do ministro da polícia geral que o convidava a verificar "se essas aparições, dadas como miraculosas, não eram antes um jogo da imaginação de Martin, uma verdadeira ilusão de seu espírito exaltado, ou, enfim, se o pretenso enviado desconhecido, e talvez o próprio Martin, não deveria ser severamente examinados pela polícia, em seguida entregues aos tribunais."

 

Em 5 de março Martin recebeu a visita de seu desconhecido, que lhe disse: "Ireis logo aparecer diante do primeiro magistrado de vosso departamento; é preciso que relateis as coisas como elas vos são anunciadas; não é preciso considerar nem a qualidade nem a dignidade."

 

Martin não foi informado que deveria ir à prefeitura; não foi, pois, mais aqui uma simples comunicação sobre uma coisa vaga, é a previsão de um fato que vai se realizar. Isto é constantemente reproduzido durante a seqüência desses acontecimentos; Martin sempre foi informado, por seu desconhecido, do que lhe aconteceria, das pessoas em presença das quais iria se achar, dos lugares onde seria conduzido. Ora, tal não é o resultado da ilusão e de idéias quiméricas. Desde que o indivíduo disse a Martin: amanhã vereis tal personagem, ou sereis conduzido a tal lugar, e que a coisa se realiza, é um fato positivo que não pode vir da imaginação.

 

No dia seguinte, 6 de março, Martin acompanhado do Sr. cura, foi a Chartres à casa do prefeito. Este último conversou primeiro longamente em particular com o cura, depois, tendo feito introduzir Martin, lhe disse:

 

"Se eu vos colocasse embaraços e na prisão perfazer semelhantes anúncios, continuaríeis a dizer o que dizeis?”

 

“Como quereis, respondeu Martin sem estar assustado; não posso senão dizer a verdade.”

 

“Mas, prosseguiu o Sr. prefeito, se aparecesses diante de uma autoridade superior à minha, por exemplo, diante do ministro, sustentaríeis o que acabais de me dizer? - Sim, senhor, respondeu Martin, e diante do próprio rei.”

 

O prefeito surpreso com tanta segurança, unida a tanta simplicidade, e mais ainda com os estranhos relatos que lhe fizeram o cura, decidiu enviar Martin ao ministro. Desde o dia seguinte, 7 de março, Martin partia para Paris escoltado pelo Sr. André, tenente da gerdamaria, que tinha ordem de vigiar todas as suas diligências e não deixá-lo nem de dia nem de noite. Alojaram-se na rua Montmartre, hotel de Calais, num quarto de duas camas. Na sexta-feira, 8 de março, o Sr. André conduziu Martin ao edifício da polícia geral. Entrando no corredor do edifício, o desconhecido se apresentou e lhe disse:"Ireis ser interrogado de várias maneiras; não tenhais nem medo nem inquietação, mas dizei as coisas como elas são."Depois destas palavras, desapareceu.

 

Não relataremos aqui todos os interrogatórios que fizeram Martin sofrer, o ministro e seus secretários, sem que se deixasse intimidar pelas ameaças, nem desconcertar pelas armadilhas que se lhe estendia para pô-lo em contradição consigo mesmo, confundindo seus interrogadores por suas respostas cheias de sentido e de sangue frio. Tendo Martin descrito o desconhecido, o ministro lhe disse:

 

"Pois bem! não o vereis mais, porque acabo de fazê-lo deter.”

 

“Oh! como, redargüiu Martin, pudestes fazê-lo deter, uma vez que desaparece em seguida como relâmpago?”

 

“Se ele desaparece para vós, retomou o ministro, não desaparece para todo o mundo.”

 

E, dirigindo-se a um de seus secretários:

 

"Ide ver se esse homem que eu disse para coltícar na prisão está ali ainda."

 

Alguns instantes depois o secretário retorna e dá esta resposta:

 

"Monsenhor, ali está sempre.”

 

“Pois bem! disse então Martin, se o fizestes colocar na prisão, no-lo mostrareis, e eu o reconhecerei bem; eu o vi bastante vezes para isto.”

 

Veio em seguida um homem que examina com cuidado a cabeça de Martin, afastando os cabelos à direita e à esquerda; o ministro os vira e revira do mesmo modo, sem dúvida para examinar se trazia algum sinal indicativo de loucura, ao que Martin se contentou em dizer:

 

"Olhai tanto quanto quiserdes, jamais fiz mal em minha vida."

 

De volta ao hotel, à tarde, Martin disse ao Sr. André:

 

"Mas o ministro me disse que tinha feito prender o homem que me aparecia. Ele a relaxou, pois, uma vez que me apareceu depois e que me disse:

 

"Fostes questionado hoje, mas não se quer fazer o que eu disse. Aquele que vistes esta manhã quis vos fazer acreditar que me tinha feito deter; podeis dizer-lhe que não tem nenhum poder sobre mim e que é tempo para que o rei seja advertido."

 

No mesmo instante, o Sr. André foi fazer seu relato à polícia, ao passo que Martin, sem inquietação deitou-se e dormiu pacificamente.

 

No dia seguinte, 9, tendo Martin descido para pedir as botas do tenente, o desconhecido se apresentou a ele no meio da escada e lhe disse:

 

"Ireis ter a visita de um doutor que vem ver se estais ferido na imaginação e se perdestes a cabeça; mas aqueles que vo-lo enviam são mais loucos do que vós."

 

No mesmo dia, com efeito, o célebre alienista, Sr. Pinei, vem visitá-lo, e fê-lo sofrer um interrogatório apropriado a esse gênero de informação. "Apesar de sua habilidade, diz o relatório, não pôde adquirir nenhuma indicação tanto seja pouco provável de alienação. Suas pesquisas não chegaram senão a uma simples conjetura de possibilidade de alucinação e de mania intermitente."

 

Parece que, para certas pessoas, não é preciso mais do que isto para ser tachada de loucura: basta não pensar como eles; é porque aqueles que crêem em alguma coisa do outro mundo passam por loucos aos olhos daqueles que não crêem em nada.

 

Depois da visita do doutor Pinei, o desconhecido se apresentou a Martin e lhe disse:

 

"É preciso irdes falar ao rei; quando estiverdes em sua presença, eu vos inspirarei o que tereis a dizer-lhe. Sirvo-me de vós para abater o orgulho e a incredulidade. Esforça-se em afastar o assunto, mas se não chegardes em vosso objetivo, ele se descobrirá por uma outra via."

 

Em 10 de março, estando Martin sozinho em seu quarto, o desconhecido lhe apareceu e lhe disse:

 

"Eu tinha vos dito que meu nome permaneceria desconhecido, mas, uma vez que a incredulidade é tão grande, é preciso que vos descubra meu nome. Eu sou o anjo Rafael, anjo muito célebre junto de Deus; tenho o poder de atingir a França com todas as espécies de pragas."

 

A estas palavra, Martin foi tomado de medo e sentiu uma espécie de crispação.

 

Um outro dia, tendo o Sr. André saído com Martin, encontra um oficial de seus amigos com o qual conversa durante uma hora em inglês que, naturalmente, Martin não compreendia. No dia seguinte, o desconhecido, que doravante ele chama o anjo, disse- lhe:

 

"Aqueles que estavam ontem convosco falavam de vós, mas não entendíeis sua linguagem; disseram que viestes para falar ao rei, e um disse que, quando retornasse ao seu país, o outro lhe desse de suas novidades para saber como a coisa teria se passado."

 

O Sr. André, a quem Martin dava conta de todas suas conversas com o desconhecido, ficou muito surpreso de ver que o que tinha dito em inglês, para não ser compreendido por ele, estava revelado.

 

Embora o relatório do doutor Pinei não concluísse pela loucura, mas somente por uma possibilidade de alucinação, com isto Martin não deixou de ser conduzido ao hospício dos loucos de Charenton, onde ficou de 13 de março até 2 de abril. Lá, foi objeto de uma vigilância minuciosa e submetido ao estudo especial dos homens da arte. Fizeram-se, igualmente, investigações em sua região sobre seus antecedentes e os de sua família, sem que, apesar de todas essas investigações, se tenha chegado a constatar a menor aparência ou causa predeterminante de loucura. Para render homenagem à verdade, é preciso dizer que ali foi tratado com muita consideração da parte do Sr. Royer-Collard, diretor chefe da casa, e de outros médicos, e que não se lhe fez sofrer nenhum dos tratamentos em uso nessas espécies de estabelecimentos. Se ali foi colocado, foi bem menos por medida de seqüestro do que por ter mais facilidade de observar o estado real de seu espírito.

 

Durante a sua permanência em Charenton, teve bastante e freqüentes visitas de seu desconhecido, que não apresentava nenhuma particularidade notável, senão naquela em que lhe disse:

 

"Haverá discussões: uns dirão que é uma imaginação, os outros que é um anjo de luz, e outros que é um anjo de trevas; eu vos permito tocar-me."

 

Então, conta Martin, ele tomou minha mão direita que apertou; depois abriu a sua sobrecasaca pela frente, e, quando estava aberta, ele me pareceu mais brilhante que os raios do sol, e não pude encará-lo; fui obrigado a meter minha mão diante de meus olhos. Quando fechou a sua sobrecasaca, não vi mais nada de brilhante; pareceu-me como antes. Esta abertura e fechamento se operaram sem nenhum movimento de sua parte.

 

Uma outra vez, como escrevia a seu irmão, viu ao lado dele seu desconhecido que lhe ditou uma parte de sua carta, lembrando as predições que tinha já feito sobre as infelicidades das quais a França estava ameaçada. Eis, pois, Martin ao mesmo tempo médium vidente e escrevente.

 

Por mais cuidado que se tomasse para não propagar muito este assunto, ele não deixou de fazer uma certa sensação nas altas regiões oficiais; no entanto, é provável que ele não tivesse chegado a um fim de não receber, se o arcebispo de Reims, grande capelão da França, depois arcebispo de Paris e cardeal de Périgord, não tivesse por ele se interessado. Ele falou a Louis XVIII, e lhe propôs receber Martin. O rei lhe declarou que dele ainda não tinha ouvido falar, tanto é verdade que os soberanos, freqüentemente, são os últimos a saber o que se passa ao redor deles e o que lhes interessa mais. Em conseqüência, ordenou que Martin lhe fosse apresentado.

 

Em 2 de abril, Martin foi conduzido de Charenton ao edifício do ministro da polícia geral. Enquanto esperava o momento de ser recebido, seu desconhecido lhe apareceu e lhe disse:

 

"Ides falar ao rei, e estareis só com ele; não tenhais nenhum temor de aparece diante do rei: para o que devereis lhe dizer, as palavras vos virão à boca."

 

Foi a última vez que o viu. O ministro lhe deu uma acolhida muito benevolente e lhe disse que iria fazê-lo conduzir às Tuileries.

 

Geralmente se crê que Martin veio por si mesmo a Paris, se apresentou no castelo insistindo para falar ao rei; que sendo repelido, voltou à carga com tanta persistência que Louis XVIII, tendo sido informado, ordenou para fazê-lo entrar. As coisas, como se vê, se passaram de outro modo. Não foi senão em 1828, quatro anos depois da morte do rei, que se fizeram conhecer as particularidades secretas que lhe revelou, e que fizeram sobre ele uma profunda impressão, porque tal era o objetivo essencial dessa visita, não sendo os outros motivos alegados, como o dissemos, senão um meio para chegar a ele. Se o desconhecido lhe deixa ignorar essas coisas até o último momento por temer que uma indiscrição, arrancada pelo artifício dos interrogadores, fizesse fracassar o projeto, o que teria lugar inevitavelmente. Depois de sua visita ao rei, Martin foi dar seus adeuses ao diretor de Charenton e partiu imediatamente para a sua região, onde retomou o curso habitual de seus trabalhos, sem jamais se fazer um mérito do que lhe tinha ocorrido.

 

O objetivo que nos propusemos neste relato era de mostrar os pontos pelos quais se liga o Espiritismo; as particularidades reveladas a Louis XVIII, sendo estranhas ao nosso assunto, nos abstemos de reportá-las. Diremos somente que elas tinham indício das coisas de família mais íntimas; emocionaram o rei ao ponto de fazê-lo chorar muito, e este declarou mais tarde que o que lhe tinha sido revelado não era conhecido senão de Deus e dele. Elas tiveram por conseqüência fazer renunciar à sagração, cujos preparativos estavam já ordenados (1).

 

Não reportaremos dessa entrevista senão algumas passagens do relatório escrito em 1828, sob o ditado do próprio Martin, e onde se pinta o caráter e a simplicidade do homem. 

“Chegamos às Tuileries, pelas três horas, e sem que ninguém tivesse dito nada. Chegamos até o primeiro criado de Louis XVIII, a quem se entregou a carta, e que, depois de tê-la lido, me disse: Segui-me. Nós nos detemos por alguns momentos, porque o Sr. Decazes estava com o rei. Quando o ministro saiu e eu entrei, e antes que dissesse uma palavra, o rei disse ao criado de quarto para se retirar e fechar as portas.

 

“O rei estava sentado diante de sua mesa de frente para a porta; havia, canetas, papéis e livros. Saudei o rei dizendo:

 

- Senhor, eu vos saúdo.

 

“O rei me disse:

 

- Bom dia, Martin.

 

“E, então, disse a mim mesmo: Ele sabia, pois, bem meu nome.

 

- Sabeis, Senhor, seguramente, porque venho.

 

- Sim, sei que tendes alguma coisa a me dizer, e me foi dito que era alguma coisa que não podíeis dizer senão a mim; sentai-vos.

 

“Então sentei-me numa poltrona que estava colocada à frente do rei, de maneira que não tinha senão a mesa entre nós. Então eu lhe perguntei como se sentia. O rei me disse:

 

- Sinto-me um pouco melhor do que nesses dias passados; e vós, como vos sentis?

 

- Eu estou bem. Qual é o assunto de vossa viagem?

 

“E eu lhe disse:

 

- Podeis chamar, se quiserdes, vosso irmão e seus filhos.

 

“O rei me interrompeu dizendo:

 

Isto é inútil, eu lhes direi o que me disserdes.

 

“Depois disto, contei ao rei todas as aparições que tive e que estão na relação.

 

- Eu sei tudo isto, o arcebispo de Reims disse-me tudo. Parece-me que tendes alguma coisa a me dizer em particular e em segredo.

 

“E então senti vir à minha boca as palavras que o anjo me havia prometido, e eu disse ao rei:

 

- O segredo que vou dizer-vos é que... 

(Seguem os detalhes que, assim como as instruções dadas na seqüência da conversação sobre certas medidas a tomar e à maneira de governar, não podiam senão ser inspiradas no próprio instante, porque estão fora de toda importância com o grau de cultura de Martin.) 

"Foi a este relato que o rei, tocado de espanto e profunda emoção, disse:

 

"Ó meu Deus! ó meu Deus! isto é bem verdade; não há senão Deus, vós e eu, que sabemos disto; prometei-me de guardar sobre todas as comunicações o maior segredo...

 

"E eu lho prometi. Depois disto disse-lhe:

 

- Tende cuidado em vos fazer sagrar, porque se o tentardes, sereis ferido de morte na cerimônia da sagração.

 

“No momento, e até o fim da conversação, o rei chorou sempre.

 

“Quando eu acabei, disse-me que o anjo que me tinha aparecido era aquele que conduziu Tobias, o jovem, à Ragès e que o fez casar; depois perguntou-me qual de minhas mãos o anjo tinha apertado. Respondi:

 

- Esta, mostrando a direita.

 

“O rei ma tomou dizendo-me:

 

- Que eu toque a mão que o anjo apertou. Orai sempre por mim.

 

- Bem seguro, Senhor, que eu, minha família, assim como o Sr. cura de Galardon, temos sempre orado para que o assunto triunfe.

 

“Saudei o rei dizendo-lhe:

 

- Eu vos desejo uma boa saúde. Foi-me dito que uma vez minha incumbência feita junto ao rei, eu vos peça permissão de retornar à minha família, como me foi anunciado também que não me recusareis, e que não me aconteceria nenhuma pena nem, nenhum mal.

 

- Nada mais vos acontecerá; dei ordens para vos retornar. O ministro vai vos dar a comer e a dormir, e os papéis para retornardes amanhã.

 

- Mas ficaria contente se retornasse a Charenton para lhes dizer adeus e para pegar uma camisa que deixei.

 

- Isso não vos será dificuldade estar em Charenton? Estivestes bem ali?

 

- Sem nenhuma dificuldade; e muito seguro porque se ali não tivesse estado bem, não pediria para lá retornar.

 

- Pois bem! Uma vez que desejais ali retornar, o ministro vos fará conduzir de minha parte.

 

“Retornei junto ao meu condutor que me esperava, e estivemos juntos no edifício do ministro.

 

Feito em Gallardon, em 9 de março de 1828.

 

Assinada: THOMAS MARTIN.” 

A conversa de Martin com o rei durou pelo menos 55 minutos. Se depois de sua visita ao rei, Martin não reviu seu desconhecido, as manifestações não deixaram de continuar sob uma outra forma; de médium vidente, tornou-se médium audiente. Eis alguns fragmentos das cartas que ele escreveu ao antigo cura de Gallardon:

 

28 de janeiro de 1821. 

"Senhor cura, eu vos escrevo para vos dar conhecimento de uma coisa que me aconteceu. Terça-feira última, 23 de janeiro, estando no arado, ouvi uma voz que me falava, sem ter visto ninguém, e me foi dito: "Filho de Japhet! para e presta atenção nas palavras que te são dirigidas." No mesmo instante, meus cavalos pararam sem que eu nada tenha dito, porque estava muito surpreso. Eis o que se me disse: "Nesta grande região, uma grande árvore está plantada, e sobre o mesmo cepo, foi plantada uma outra que é inferior à primeira; a segunda árvore tem dois ramos, dos quais um deles fracassou, e logo depois ela secou por um vento furioso, e esse vento não parou de soprar. No lugar desse ramo, saiu um outro ramo, jovem, tenro, que o substituiu; mas esse vento, que está sempre agitado, se levantará um dia com tais abalos que... e depois desta catástrofe terrível, os povos estarão na última desolação. Ora, meu filho, para que esses dias sejam abreviados; invoca o céu que o vento fatal saindo do nordeste seja barrado por barreiras poderosas e que seus progressos nada tenham de deploráveis. Estas coisas são obscuras para ti, mas outros a compreenderão facilmente."

 

"Eis, senhor, o que me ocorreu terça-feira por uma hora depois do meio-dia; não compreendo nada disto; vós me manifestareis se disto compreenderdes alguma coisa. Não falei a ninguém de tudo isto, não somente à minha mulher, porque o mundo é mau. Estava resolvido a guardar tudo isto em silêncio; mas me decidi a vos escrever hoje, porque esta noite não pude dormir, e tenho sempre essas palavras na memória, e vos peço delas guardar segredo, porque o mundo delas zombaria. Senhor, fui tratado de filho de Japhet; não conheço ninguém de nossa família que leva este nome; pode-se bem estar enganado; talvez me tomou por um outro."

8 de fevereiro de 1821. 

"Eu vos tinha proibido de falar daquilo que vos manifestei; eu errei, porque isso não pode ficar escondido. Necessariamente, é preciso que isto passe diante dos grandes e dos primeiros do Estado, para que se veja o perigo dos quais são ameaçados, porque o vento do qual vos falei um pouco antes vai fazer terríveis desastres, porque este vento gira sempre em torno da árvore; se nela não se presta atenção, dentro em pouco será tombada. No mesmo momento a outra árvore com o que sai dele experimentará a mesma sorte. Ontem a mesma palavra veio me falar, e eu nada vi."

21 de fevereiro de 1821. 

"Senhor, tive um grande terror esta manhã. Eram nove horas; ouvi um grande ruído junto de mim, e nada vi, mas ouvi falar, depois que o ruído apaziguou, e me foi dito: "Por que tivestes medo? não temais; não venho para vos fazer nenhum mal. Estais surpreso de ouvir falar e de não ver nada, não vos admireis: é preciso que as coisas sejam descobertas; sirvo-me de vós para vos enviar como sou enviado. Os filósofos, os incrédulos, os ímpios, não crêem que se vêem suas atividades, mas é preciso que sejam confundidos... Ficai tranqüilo, continuai a ser o que tendes sido; vossos dias são contados, e não vos escapará um único deles. Eu vos proíbo de vos prosternar diante de mim, porque não sou senão um servidor como vós."

"Senhor, eis o que me foi dito; não sei qual é a pessoa que me fala; ela tem a voz bastante forte e muito clara. Tive o pensamento de falar, mas não ousei, por causa de que não vejo ninguém."

Resta a saber qual é a individualidade do Espírito que se manifesta; seria realmente o anjo Rafael? É mesmo permitido disto duvidar, e haveria muitas coisas a dizer contra esta opinião; mas, na nossa opinião, aí está uma questão inteiramente secundária; o fato capital é o da manifestação, da qual não se saberia duvidar, e da qual todos os incidentes tiveram sua razão de ser para o resultado proposto, e têm hoje seu lado instrutivo.

 

Um fato que, sem dúvida, não teria escapado a ninguém, é a palavra de Martin a respeito de uma soma que lhe foi oferecida: "Como a coisa não vem de mim, disse ele, não devo nada receber por isto.” Eis, pois, um simples camponês, médium inconsciente, que, há cinqüenta anos, época na qual se estava longe de pensar no Espiritismo, tem, por si mesmo, a intuição dos deveres que impõe a mediunidade, da santidade deste mandato; seu bom senso, sua lealdade natural, lhe fazem compreender que, o que vem de uma fonte celeste e não dele, não deve ser pago.

 

Admirar-se-á, talvez, das dificuldades que Martin encontrou para cumprir a incumbência da qual estava encarregado. Por que, dir-se-á, os Espíritos não o fizeram ir diretamente ao rei? Essas dificuldades, essa lentidão, como vimos, tiveram a sua utilidade. Era preciso que ele passasse por Charenton, onde sua razão foi submetida às investigações mais rigorosas da ciência oficial e pouco crédula, afim de que fosse constatado que ele não era nem louco, nem exaltado. Os Espíritos, como se viu, triunfaram dos obstáculos colocados pelos homens, mas como os homens têm o seu livre arbítrio, não podiam impedi-los de colocar os entraves.

 

Observemos a esse respeito, que Martin não fez por si mesmo, por assim dizer, nenhum esforço para chegarão rei, as circunstâncias ali o conduziram quase que apesar dele, e sem que tenha tido necessidade de insistir muito: ora, essas circunstâncias, evidentemente, foram conduzidas pelos Espíritos, agindo sobre o pensamento dos encarnados, porque a missão de Martin era séria e deveria se cumprir.

 

Ocorre o mesmo em todos os casos análogos. Além da questão de prudência, é evidente que, sem as dificuldades que ele tem de chegar a eles, os soberanos seriam assaltados por pretensos reveladores. Nestes últimos tempos, quantas pessoas se acreditaram chamadas para semelhantes missões, que não eram outras senão o resultado da obsessão ou seu orgulho era posto em jogo com seu desconhecimento, e não poderia chegar senão a mistificações! A todos aqueles que acreditaram dever nos consultar em semelhante caso, sempre dissemos, em lhes mostrando os sinais evidentes pelos quais os Espíritos mentirosos se traem: "Guardai-vos de alguma diligência que tornaria infalivelmente para a vossa confusão. Estejais certos de que se vossa missão é real, sereis colocados de modo a cumpri-la; se devereis vos encontrar, num momento dado, num lugar dado, ali sereis conduzido, com o vosso desconhecimento, pela circunstância que terão o ar de ser um efeito do acaso. Estejais seguros, além disto, que quando uma coisa está nos desígnios de Deus, é preciso que ela seja, e que não se subordine a sua realização à boa ou à má vontade dos homens. Desconfiai das missões assinaladas e enaltecidas adiantadamente, porque não são senão atrações para o orgulho; as missões se revelam pelos fatos. Desconfiai também das predições em dias e horas fixas, porque elas não são jamais o fato de Espíritos sérios." Fomos bastante felizes por nisso deter mais de um a quem os acontecimentos puderam provar a prudência destes conselhos.

 

Há, como se vê, mais de uma semelhança entre estes fatos e os de Jeanne D'Arc, não que haja alguma comparação a estabelecer quanto à importância dos resultados realizados, mas quanto à causa do fenômeno, que é exatamente a mesma, e, até um certo ponto, quanto ao objetivo. Como Jaenne D'Arc, Martin foi advertido por um ser do mundo espiritual para ir falar ao rei, a fim de salvar a França de um perigo, e, como ela também não foi sem dificuldade que chegou até ele. No entanto, há entre as duas manifestações esta diferença de que Jeanne D'Arc simplesmente ouvia a voz que a aconselhava, ao passo que Martin via constantemente o indivíduo que lhe falava, não em sonho ou num sono extático, mas sob as aparências de um ser vivo, como o seria um agênere.

 

Mas, de um outro ponto de vista, os fatos ocorridos a Martin, embora menos estrondosos, não deixam de ter uma grande importância, como prova da existência do mundo espiritual e de suas relações com o mundo corpóreo, e porque, sendo contemporâneo e de uma notoriedade incontestável, não podem ser colocados na classe de histórias lendárias. Pela sua ressonância, serviram de degrau ao Espiritismo que deveria, a alguns anos dali, confirmar-lhe a possibilidade por uma explicação racional, e pela lei em virtude da qual se produzem, os faz passar do domínio do maravilhoso ao dos fenômenos naturais; graças ao Espiritismo, não há uma única das fases que apresentaram as revelações de Martin, das quais não se possa dar conta perfeitamente.

 

Martin era um médium inconsciente, dotado de uma aptidão da qual os Espíritos se serviram, como de um instrumento, para chegar a um resultado determinado, e este resultado estava longe de estar inteiramente na revelação feita a Louis XVIII. O Espírito que se manifestou a Martin o caracteriza perfeitamente dizendo: "Eu me servi de vós para abater o orgulho e a incredulidade." Esta missão é a todos os médiuns destinados a provar, por fatos de todos os gêneros, a existência do mundo espiritual, e de uma força superior à Humanidade, porque tal é o objetivo providencial das manifestações. Acrescentaremos que o próprio rei foi um instrumento nessa circunstância; era preciso uma posição tão elevada quanto a sua, a própria dificuldade de chegar a ele, para que o assunto tivesse ressonância, e a autoridade de uma coisa oficial. As investigações minuciosas às quais Martin foi submetido, não podiam senão acrescentar à autoridade dos fatos, porque não se teria tomado todas essas precauções por um simples particular; a coisa teria passado quase desapercebida, ao passo que dela se lembra ainda hoje, e que ela fornece uma prova autêntica em apoio dos fenômenos espíritas.

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Comentário de Benoni Martins em 1 fevereiro 2013 às 16:00

Meus irmãos, estejamos seguros que quando uma coisa está nos desígnios de Deus, é preciso que ela seja concretizada a boa ou a má vontade dos homens.Desconfiai das missões assinaladas e enaltecidas adiantadamente, porque não são senão atrações para o orgulho; as missões se revelam pelos fatos.

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