MAIS DOIS CASOS PROVANDO QUE CULTURA DE ESTUPRO EXISTE

Pessoas queridas, há dois casos importantíssimos que não tive tempo para relatar no blog. Vou expor os casos aqui e conto com a colaboração dxs comentaristas inteligentes (trolls estão dispensados, obrigada).
Um caso é o do terrível estupro coletivo -- mais um -- de uma vendedora de 34 anos que foi vítima durante quatro anos de sucessivos estupros coletivos cometidos por traficantes da comunidade onde vivia, Miriambi, no bairro Lagoinha, São Gonçalo, RJ. Tudo começou quando um ex-namorado espalhou entre a comunidade um vídeo íntimo dos dois, filmado sem o consentimento dela. Isso fez com que, segundo a presidente da Comissão de Segurança da Assembleia Legislativa do RJ, "o tráfico se sentisse autorizado a fazer com que essa vítima fosse vítima de estupro de forma consecutiva. Consecutiva e coletiva”. Apavorada, sem ter para onde ir, com medo do que ameaçavam fazer com as duas filhas dela, a vendedora se calou. 
O último estupro coletivo foi na madrugada de 17 de outubro. Ela estava num bar com um amigo quando foi arrastadapara o banheiro do bar e depois para uma rua escura. PMs faziam uma ronda de combate ao tráfico e surpreenderam o grupo de cerca de dez homens, que conseguiram fugir para um matagal. Dois adolescentes foram presos em flagrante. 
Talvez a parte mais chocante deste caso é que, quando os policiais levaram esses dois algozes (há outros oito) e a vítima à delegacia, decidiram levar todos juntos, na mesma viatura! Espremida no banco traseiro, ao lado de dois dos estupradores, a vítima teve que ouvir de um deles: "Fica tranquilinha. Vai dar tudo certo", enquanto ele alisava a perna dela. 
Na delegacia, mais uma violência: o policial responsável pelo registro a tratou sem a menor sensibilidade e redigiu um depoimento que mais parece um filme pornô. Entre expressões como "boquete triplo" e "no pelo" (sem camisinha), ainda estava lá a frase "a declarante só gritou porque empurraram um galho de árvore em sua bunda". Procurado pelo jornal Extra, o policial declarou que "não houve constrangimento nenhum" (pra ele de fato parece não ter havido, né?). 
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Levou dias para que a vítima e sua família finalmente fossem removidas da comunidade (onde corriam sérios riscos) e levadas para outro lugar. A vítima foi incluída no Programa de Proteção a Testemunhas do Governo do Estado. O caso é assustador e revoltante sob todos os ângulos possíveis. 
Parafraseando um ótimo post do Blogueiras Feministas, eu pergunto: se os estupros são coletivos, como é que a sociedade não se sente nem um tiquinho responsável? Foram dez homens -- que se sentiram à vontade para estuprar quem começou sendo uma vítima da pornografia da vingança. Muita gente viu os estupros, muita gente se envolveu, ninguém falou nada. E óbvio que a galera do "cultura de estupro é mimimi de feminista" vai tratar o caso como algo isolado, que acontece só em favelas. 
Daniel Tarcisio da Silva Cardoso,
acusado de três estupros,
futuro médico
Este outro caso prova que não é assim, que estupros acontecem em todas as classes sociais. Este caso é sobre o estudante de Medicina da USP acusado de três estupros. Seu nome é Daniel Tarciso da Silva Cardoso, tem 35 anos, e vai conseguir o diploma e se formar médico. Sim, eu disse três estupros
Além disso, essa flor de pessoa também carrega nas costas um assassinato. Em 2004, quando era soldado da PM (ele pediu exoneração em 2008), matou um homem com oito tiros durante uma discussão no carnaval. Daniel estava em horário de folga. A briga começou porque a vítima "se insinuou" para Daniel. O então PM foi condenado a um ano (alegou legítima defesa -- oito tiros, legítima defesa!), e depois, no recurso, conseguiu extinguir a pena.
Alunas da USP protestaram no ano
passado, quando foi anunciada a
suspensão (não expulsão) de Daniel
Enquanto aluno da USP, Daniel foi acusado de dopar e estuprar três alunas, duas estudantes de Medicina, como ele, e uma de Enfermagem (um desses casos virou processo e tramita em segredo de justiça). A universidade, em vez de expulsá-lo, tentou abafar os casos (só aceitou abrir sindicância depois que uma CPI da Assembleia Legislativa de SP discutiu violência nas universidades paulistas, em 2014), e apenas suspendeu o estudantepor seis meses por -- pasmem -- "infrações disciplinares". Diante da pressão, a USP aumentou a suspensão para  um ano e meio.
Há ainda outros três relatos de alunas que, com medo, preferiram não formalizar a denúncia. Esses relatos chegaram à Rede Não Cala, um coletivo formado por professoras para cobrar ações de enfrentamento aos casos de abuso sexual e de gênero na USP).
Outro escândalo relacionado é que a médica Maria Ivete Castro Boulos foi afastada sem explicação há duas semanas da coordenação do órgão responsável por acolher vítimas de violência sexual e formular políticas relacionadas aos direitos humanos na USP. No lugar da médica foi colocado um cirurgião que faz "piadas" desse tipo nas redes sociais (ao lado).
Não sei se vocês lembram de um caso ocorrido em 2009 na Uniban, uma universidade particular de São Bernardo do Campo. 
Geisy, então aluna de Turismo, foi à faculdade usando um vestido curto. Isso gerou uma inexplicável histeria pública de alunos nos corredores gritando "Puta! Puta!" Tiveram que chamar a política para conter a turba enraivecida. No final, a Uniban decidiu expulsar Geisy, pois "a atitude provocativa da aluna resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar". Depois teve que voltar atrás.
Mas só pra recapitular, mesmo comparando uma uniesquina a uma das melhores universidades da América Latina: Geisy foi expulsa por usar um vestido curto. Daniel vai se graduar, mesmo sendo acusado de estuprar no mínimo três alunas, e vai atuar como médico. Leva consigo um histórico de impunidade. 
Tô esperando aparecer gente pra me dizer que cultura de estupro não existe.
Escreva Lola Escreva

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