Richard Simonetti

                                               richardsimonetti@uol.com.br

 

Mirradinho e feio, com oito anos aparentava seis… Socialmente, um desastre! Artur era um pro­blema na escola especializada em crianças especiais. Inquieto, agressivo… Tormento dos menores, perma­nente preocupação para professores e recreacionis­tas. Embutido em si mesmo, não se comunicava… Só agredia, habilidoso na arte de desferir pontapés.

Ana Rosa, inteligente orientadora pedagógi­ca da instituição, conversou com ele.

          — Oi! Tudo bem?…

O menino fitou-a, impassível. A jovem tocou-o de leve, ensaiando carinho. Ele se colocou na de­fensiva, armando o pé para o golpe certeiro.

— Não gosto de você! — falou, ameaçador, como fazia sempre que alguém tentava contato.

 Pois eu gosto muito de você! — respondeu, sorridente.

            Surpreso, Artur afastou-se a correr.

         Ana Rosa estudou seu prontuário. Visitou sua residência. Consultou a vizinhança. Era filho de mãe solteira, que o abandonara recém-nascido. Quem cuidava dele era uma velha tia, alcoólatra, que, quando embriagada, divertia-se surrando-o. O garo­to nunca conhecera ternura, solicitude, atenção…

Ana Rosa emocionou-se. Dispôs-se a aju­dá-lo. O primeiro passo era ganhar-lhe a confiança. Sobrepondo-se à sua insociabilidade, repetia sem­pre:

 Eu gosto de você!

Tornou-se refrão. Onde se encontravam, a saudação infalível:

         — Oi, Artur!… Não se esqueça: Eu gosto de você!…

O gelo começou a dissolver-se. Para surpre­sa geral, o menino permitiu uma aproximação. Brin­cavam juntos. Aos poucos, ela ganhou acesso ao seu mundo interior repleto de temores e angústias, sombras que afastava, uma a uma, com a luz infa­lível:

         — Eu gosto de você!

Artur começou a se modificar. Tornou-se comunicativo, aprendeu a sorrir… Ensarilhou as ar­mas escondidas nos pés. Já era capaz de conviver com outras crianças, sem atritos.

E veio a surpresa: revelou dotes pro­missores de inteligência e sensibilidade. Longe da excepcionalidade, era apenas um menino amedron­tado que se escondia num mundo de fantasia res­guardado pela agressividade.

Meses mais tarde, habilitou-se a ingressar numa escola para crianças de nível mental mais desenvolvido.

Abraçando-o, Ana Rosa despediu-se, dizen­do-lhe ternamente:

  • Eu o verei sempre, Artur. E não se esque­ça: Eu gosto de você!

Emocionado, aquele Espírito que despertara para a vida graças a alguém capaz de amar incon­dicionalmente, respondeu, voz entrecortada de lá­grimas:

  • Eu também gosto muito, muito mesmo, de você!

                                               

                                                ***

Há algo de fundamental, sem o que, literal­mente, nossa alma definha, qual planta sem alimen­to. Chama-se Amor!

Particularmente na infância, quando o Espíri­to atravessa um período difícil de adaptação à nova existência, marcado por dúvidas e temores, o amor é fundamental.

Por isso, diante dos problemas que afetam a alma infantil, nenhum tratado de psicologia, por mais minucioso e erudito, terá a eficiência de qua­tro palavrinhas mágicas musicadas com ternura:

— Eu gosto de você!

 

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