DO LIVRO CAMINHOS DA LIBERDADE

JACI  REGIS

        O jovem olhou-se e disse:

         - "Estive refletindo .... em muitos casos o que vale é o consolo....".

        Referia-se a uma tragédia vivida por pessoa amiga, que tivera um filho de cinco anos assassinado por um menino de onze, por causa de uma bicicleta.

        E continuou:

        - "Nessa hora, qualquer explicação sobre a Justiça Divina, o que seja, não adianta nada. Somente o consolo de uma esperança de que a criança esteja num mundo melhor, parece ser a âncora em que a pessoa se apoia".

        Esse é um drama que todos vivem. Em determinados momentos, em crises e tragédias, falecem, para a maioria, conceitos teóricos, explicações plausíveis. Uma dor indizível, cruel, estraçalha o coração. O luto se espraia soberano na alma e tudo se torna negro, frio, triste. A revolta e a impotência unem-se diante do irremediável. Quase sempre a morte, mas, às vezes, separações amorosas, traumas e agressões que marcam, também são feridas de difícil cicatrização.

        Então. a pessoa deseja, quer algo confortante. Alguém, ou meios capazes de trazer suporte para sua dor. Esperança, fé ou o que seja que, de uma maneira ou de outra, suavize a via crucis. Algo que substitua a ignorância sobre razões ou sobre os caprichos de Deus ou do destino. Na maioria das vezes, porém, somente o tempo, renovando o caminho, é o remédio eficaz, porque nele a criatura vai aos poucos desfazendo o manto do luto e repenetrando no dia-a-dia.

        É verdade que nem todos conseguem isso, ou às vezes, o fazem parcial e demoradamente. Então, há quem julgue e discute sobre a inocuidade de teorias filosofias e estudos, para exaltar o que chamam de consolação. Esta, muitas vezes, mais não é que tênue e nebuloso sentimento de auto-piedade e alienação que cai como um véu sobre a realidade, ajudando as almas a encontrar um meio-equilíbrio, entre a revolta, a impotência e a ausência de um sentido de realização pessoal.

        Nós falávamos sobre a morte; morte de entes queridos, quando passei a relatar os acontecimentos que cercaram a desencarnação de meu pai e de minha mãe. Estava dormindo, talvez pela meia-noite e meia, quando minha irmã bateu forte na janela de meu quarto, aflita: "Jaci,Jaci....papai morreu...."

        A surpresa e o inopino agitou-se e um choque percorreu meu corpo despertado de chofre ....Ao chegar, o corpo dele ainda estava quente. Orei. Vesti-o e demandei para as providências e avisar os demais familiares.

        Somente depois do meio dia é que pude ir para casa, tomar banho e comer. Então, borbulhões de lágrimas aliviaram minh'alma ....Depois, o enterro do corpo.

         Minha mãe partiu após rápido período de doença e coma diabético. Vi quando seu último suspiro foi dado e o balão de oxigênio começou a borbulhar, por inútil. Era noite. Ficamos ali, eu e meus irmãos, primeiro orando e depois saindo para as providências a varar a madrugada fria, no silêncio do necrotério. 

         Ainda hoje, quando escrevo, um fio de dor e saudade varre-me a alma e molha meus olhos....

         Ao narrar tudo isso, na conversação amiga, ocorreu-me, de súbito, que nunca pensara, sentira ou compreendera meu pai e minha mãe como pessoas mortas. Jamais os vi em pensamento, como tendo desaparecido. Sempre os tenho como vivos em algum lugar, além do sensório.

         Isso é consolação, creio eu. Fruto de entendimento, de filosofia, de reflexão sobre uma realidade espiritual, sobre uma teoria de vida que inclua o ontem, o hoje, o amanhã. Um sentido sistêmico, holístico.

         Ah! dirá alguém, mas nem todos terão essa "compreensão", pretendendo que obter tal consolação, é obra de pessoas especiais ou agraciadas. E dirão mais que o comum são as pessoas sentirem dor e saudade.

         E eu, o que senti? Pensarão, por ventura, que quem compreende não sente? Perpetrarão o erro supondo que apenas quem grita e chora alto é que sente e quem obtém conhecimento é frio e insensível?

         Aliás, que bom que alguém se console apenas porque espera e confia em algo que não entende, mas supõe ser vontade de Deus, das forças do destino.... Mas isto não quer dizer que a consolação é fruto dessa adesão inconsequente e superficial.

         Reivindico, por isso, o direito de sentir, de ser sensível, sem abandonar o entendimento, a compreensão, a reflexão, e sem precisar de manifestações externas e formas emocionais e exprimir sentimentos.

         Minhas lágrimas e meus sentimentos, minhas saudades e minhas esperanças são também saudades, esperanças, sentimentos e lágrimas ainda que sejam vistas e até mesmo negadas.

Exibições: 45

Comentar

Você precisa ser um membro de Espirit book para adicionar comentários!

Entrar em Espirit book

© 2020   Criado por Henrique.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Política de privacidade  |  Termos de serviço

Free counters!