ESTUDO SOBRE A EXISTÊNCIA DE CIDADES ESPIRITUAIS - autor: Elias Inácio de Moraes - Vale a pena estudar!!!

ESTUDO SOBRE A EXISTÊNCIA DE CIDADES ESPIRITUAIS

O presente estudo tem por objetivo ampliar o entendimento em torno das recorrentes polêmicas a respeito da existência ou não de cidades espirituais de que trata André Luiz, além de vários outros Espíritos psicografados pelo médium Francisco Cândido Xavier, em suas obras. Enquanto muitos entendem que Chico Xavier e os Espíritos que escreveram por suas mãos apresentam uma ampliação do entendimento a respeito do mundo espiritual, há quem considere que essas “revelações” contrariam o que consta da codificação Kardequiana e que não encontram amparo no critério da Universalidade dos Ensinos dos Espíritos.

Entre os inúmeros médiuns brasileiros há um quase consenso em relação a essas questões. Cidades, escolas, hospitais, vales sombrios, paraísos celestiais, castelos medievais, comparecem como informações corriqueiras na obra psicográfica de inúmeros médiuns, como Divaldo Pereira Franco, Zíbia Gaspareto, André Luiz Ruiz, entre outros. Mas a semelhança com que a ideia é apresentada pelos diferentes médiuns alimenta o argumento de que podem estar todos sob a influência da ideia inicial trazida por André Luiz/Chico Xavier. A médium Yvone A. Pereira informa que desde o ano de 1926 já mantinha contato com espíritos de suicidas, os quais lhe relataram zonas de sofrimento no mundo espiritual e ambientes espirituais os mais diversos, incluindo “torres de vigia”, “casas delicadas” e até mesmo “departamentos”, como narrado no seu livro Memórias de um Suicida. Mas a introdução do livro está datada de 1954, portanto, dez anos depois da publicação de Nosso Lar, o que nos impede de excluí-la dessa possibilidade.

Os críticos à tese das cidades espirituais alegam que o médium Francisco Cândido Xavier teria absorvido essas referências da obra também psicográfica do Reverendo George Vale Owen, sacerdote anglicano britânico, que publicou quatro livros a respeito da “vida além do véu” no início do século XX. Em seus livros ele apresenta o mundo espiritual como a “terra aperfeiçoada”, onde não faltam colinas, rios, casas que vibram como se tivessem vida, e até mesmo carruagens puxadas por cavalos comandados telepaticamente. Esses orbes, segundo as informações que obteve, “são criações de material celeste” ou ainda, “manifestações e resultado da energia da vida espiritual”[1].

Essa, no entanto, é uma tese complicada, primeiramente porque ficaria difícil explicar onde teria o Reverendo Owen buscado suas referências, já que estaríamos admitindo uma corrente de influência que pode ter começado com Jesus afirmando que “há muitas moradas na casa de meu pai”, incluindo o apóstolo Paulo com sua visão do “terceiro céu”[2] ou o apóstolo João com suas visões apocalípticas, lembrando visões celestiais. É ainda mais complicada quando se verifica que esse mesmo tipo de informação comparece na obra de Andrew Jackson Davis, médium estadunidense pré-Kardequiano, que descreve uma casa luminosa e brilhante para onde sua mãe iria após a sua morte[3]. Também faz referência a algum tipo de organização no mundo espiritual, a que ele se refere como sendo diferentes “esferas”, que seriam ambientes onde os espíritos convivem uns com os outros atraídos pela simpatia.

Outro médium pré-kardequiano que também se refere a formas de organização social no mundo espiritual é Emanuel Swedemborg. Ele se refere a sociedades celestes e ambientes espirituais por ele “vistos” como “átrios” ou “esferas” onde morariam “espíritos angélicos”, lugares “paradisíacos que excedem toda idéia da imaginação”.[4] Esses Espíritos, em uma de suas visões, formaram um “candelabro com lâmpadas e flores” entre várias outras “belas e representativas”.

Sob certos aspectos essa ideia está presente ao longo de toda a história e em diferentes culturas, seja na visão do “mundo das idéias”, de Platão, seja no céu e no inferno de Dante Alighieri; seja nas visões fantásticas dos profetas israelitas ou na morada dos deuses do panteão greco-romano.

Na codificação do Espiritismo, uma das preocupações de Kardec foi aprofundar o entendimento do que ele chama de “vida futura”, e da situação dos espíritos no estado por ele denominado de “erraticidade”. Apesar desse esforço, entretanto, fica evidente que ele não atribuiu importância a esse aspecto, o da existência ou não de “cidades” espirituais, já que diversos médiuns anteriores a ele haviam apresentado essa hipótese. Em toda a sua obra não consta uma única discussão aprofundada sobre esse tema. De Emanuel Swedemborg ele comenta apenas a superficialidade das ideias, fortemente marcadas pelas crenças religiosas vigentes, e a visão de “anjos”, que o próprio espírito de Swedemborg, em contato mediúnico relatado na Revista Espírita de 1869, confessa tratar-se de equívoco seu durante sua vida na Terra.

Portanto, trata-se de assunto sobre o qual não há um estudo específico na codificação kardequiana, muito embora se encontrem referências esparsas com base nas quais é possível estabelecer algum entendimento.

Em O Livro dos Espíritos Kardec abre a segunda parte com uma questão à qual o Espírito responde que eles, os Espíritos, “povoam o universo fora do mundo material”. Portanto, já existe aqui uma afirmação concreta em torno da existência de alguma forma de sociedade espiritual, já que os espíritos “povoam” o universo. Além do mais, eles deixam claro que isso se dá “fora do mundo material”, ou seja, à parte do mundo material. Essa mesma ideia comparece também na questão 149 quando o Espírito responde a Kardec que, com a morte, o Espírito “volve ao mundo dos Espíritos, donde se apartara momentaneamente”. Na questão 84 Kardec indaga aos espíritos se eles constituem um “mundo à parte, fora daquele que vemos”. A resposta não dá margem a dúvidas: “Sim, o mundo dos Espíritos, ou das inteligências incorpóreas”. Esse mundo, conforme a resposta seguinte, é o principal na ordem das coisas, porque “preexiste e sobrevive a tudo”. O mundo material poderia até mesmo deixar de existir ou nunca ter existido, o que não alteraria a ordem das coisas, tal a independência entre um e outro. Entretanto, “um sobre o outro incessantemente reagem”.

Os Espíritos, conforme as respostas obtidas por Kardec, não ocupam uma região “determinada e circunscrita” no espaço. Ao contrário, “estão por toda parte. Povoam infinitamente os espaços infinitos”. Entretanto esse “estar por toda parte” encontra restrições que os próprios Espíritos apresentam ao afirmar que “nem todos, porém, vão a toda parte, por isso que há regiõesinterditas aos menos adiantados”. O uso da palavra “região” merece destaque em se tratando deste assunto.

Ao estabelecer uma classificação dos Espíritos Kardec esclarece que os espíritos que ele categoriza como “imperfeitos (...) conservam a lembrança e a percepção dos sofrimentos da vida corpórea e essa impressão é muitas vezes mais penosa do que a realidade”[5]. Mais tarde, no livro O Céu e o Inferno, Kardec apresentará o relato de um industrial chamado Letil, que morreu queimado em um acidente em sua fábrica. O espírito relata que, ainda no momento em que se comunicava através do médium, já bem depois da sua morte, sentia-se trêmulo, “como que sentindo o cheiro nauseante de carnes queimadas”. Apresenta ainda o relato de Joseph Maitre, que antes de reencarnar, ainda no estado de “erraticidade”, apresentava-se cego. “Era um espírito, sim, porém, cego”, diz ele.[6]

Esses relatos, por si só, já demonstram que Kardec compreendia uma certa “materialidade” mesmo no chamado “mundo dos espíritos”. Embora não tenha teorizado especificamente sobre esse assunto, já havia constatado que os Espíritos se apresentam sempre “vestidos de túnicas, envoltos em largos panos, ou mesmo com os trajes que usavam em vida”.[7] Uma correlação com seu estudo sobre o “laboratório do mundo invisível”, em O Livro dos Médiuns, nos oferece suporte para concluir que ele chegou a considerar a mente e a vontade como atuantes sobre alguma forma de matéria espiritual, conforme apresentada por São Luiz. Essa espécie de matéria espiritual é referida como sendo “alguma coisa”, já que o próprio São Luiz o questiona: “Não sabes que o próprio perispírito é alguma coisa?”[8]

Quanto aos “Espíritos puros”, por não estarem mais “sujeitos à reencarnação em corpos perecíveis, realizam a vida eterna no seio de Deus[9]. Interessante observar que não há uma explicação clara sobre o que seria essa “vida eterna” e muito menos o “seio de Deus”.

Entre os relatos que ele integra no livro O Céu e o Inferno, já no ano de 1865, incluem-se os de Sanson, ex-membro da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que afirma que “o que eu vi (após sua morte) não tem nome na linguagem dos homens”. A essa afirmação Kardec comenta:

“Os contos de fadas estão cheios de coisas absurdas, mas quem sabe se não contém, de alguma sorte e em parte, algo do que se passa no mundo dos Espíritos? A descrição do Sr. Sanson lembra como que um homem adormecido numa choupana, despertando em palácio esplêndido e rodeado de uma corte brilhante.”[10] (itálico nosso)

Inclui ainda o relato do Sr. Cardon, médico enquanto viveu na Terra e que, após a sua desencarnação, “arrebatado por não sei que agente maravilhoso, vi os esplendores de um céu, desses que só em sonho podemos imaginar”.

Ainda com base em Kardec, com a morte, o Espírito pode ver “os que estão na erraticidade, como vê os encarnados”[11]. Essa “erraticidade” é, na realidade, o estado natural do Espírito, como se pode depreender da resposta à questão 225 de O Livro dos Espíritos: “O Espírito se acha no seu estado normal quando liberto da matéria”. Para os espíritos puros este é o seu estado definitivo. Nessa realidade espiritual os Espíritos estudam e procuram elevar-se mediante os “conselhos dos Espíritos mais elevados”. É muito clara a ideia de que os espíritos vivem em comunidade, com alguma forma de organização social.

Não resta dúvida de que Kardec deu mais atenção a uma visão dos diversos planetas como mundos habitados pelos Espíritos dos diversos níveis evolutivos, tendo dado pouca importância à ideia dos “mundos espirituais”. Isso fica evidente quando em O Livro dos Espíritos ele nos apresenta os “mundos transitórios” como “habitação temporária” para os espíritos “errantes”[12]. Isso fica ainda mais evidente quando, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, publicado em 1864, ele associa a afirmação de Jesus, de que “Na casa de meu Pai há muitas moradas”, aos diversos mundos habitados, dando pouca importância aos “diversos estados da alma na erraticidade”[13]. Ainda assim, refere-se a algum tipo de “meio” em que o Espírito se encontra, ao “aspecto das coisas”, as sensações e as percepções que experimenta.

Mas uma avaliação cuidadosa de toda a sua obra evidencia que Kardec admite que “o mundo espiritual ostenta-se por toda parte, em redor de nós como no Espaço, sem limite algum designado”. Admite até mesmo alguma “localidade” no sentido espacial, quando afirma que...

“Em torno dos mundos adiantados abundam Espíritos superiores, como em torno dos atrasados pululam Espíritos inferiores. Cada globo tem, de alguma sorte, sua população própria de Espíritos encarnados e desencarnados, alimentada em sua maioria pela encarnação e desencarnação dos mesmos.”[14]

Desde O Livro dos Espíritos que estes, os Espíritos que apresentam a Kardec a realidade do mundo espiritual, afirmam que existem verdadeiras “sociedades espirituais”. É deles a expressão “sociedades espirituais”. Essas sociedades, em suas palavras, “constituem um mundo do qual o vosso é pálido reflexo[15].

Esses Espíritos formam “grupos ou famílias, unidos pelos laços da simpatia e pelos fins a que visam”.

“Os bons vão a toda parte e assim deve ser, para que possam influir sobre os maus. As regiões, porém, que os bons habitam estão interditadas aos Espíritos imperfeitos, a fim de que não as perturbem com suas paixões inferiores[16].” (Grifo nosso)

Da resposta se depreende claramente que os Espíritos falam de “regiões”, aquelas que Kardec considera como não sendo limitadas e nem circunscritas no espaço, e que essas regiões servem de “habitações” – note-se que os espíritos usam o verbo habitar – para os Espíritos das diferentes ordens. Pelo menos um desses Espíritos refere-se a essas regiões utilizando-se também do termo “esferas”, sem dúvida uma metáfora, assim como George Vale Owen e Andrew Jackson Davis. O próprio Espírito distingue as “esferas” onde se situam os Espíritos inferiores daquelas onde se situam os Espíritos superiores[17].

Em nota à questão 1012 de O Livro dos Espíritos Allan Kadec fará uma contestação da visão materializada que algumas pessoas fazem dessas informações trazidas pelos espíritos.

 “A localização absoluta das regiões das penas e das recompensas só na imaginação do homem existe. Provém da sua tendência a materializar e circunscrever as coisas, cuja essência infinita não lhe é possível compreender”.

Mas é também ele que, de tempos em tempos, reconhece a existência de um “mundo”, ou de “mundos” em que “as paixões não existem materialmente, mas existem no pensamento dos Espíritos atrasados. (...) o avarento vê ouro que lhe não é dado possuir; o devasso, orgias em que não pode tomar parte”. Observe-se que os “mundos” a que ele se refere nada têm de material, e não têm a menor relação com os “diversos mundos habitados” de que trata em outras partes. Reconhece que o homem perverso, após a morte, “sente em si todo o mal que praticou, ou de que foi voluntariamente causa”. Os Espíritos imperfeitos “acham-se num meio que só imperfeitamente lhes permite sondar o futuro”. Não há como deixar de levar em conta o significado da expressão “meio” aplicada nesse contexto.

“Ao justo, nenhum temor inspira a morte, porque, com a fé, tem ele a certeza do futuro. A esperança fá-lo contar com uma vida melhor; e a caridade, a cuja lei obedece, lhe dá a segurança de que, no mundo para onde terá de ir, nenhum ser encontrará cujo olhar lhe seja de temer”.[18] (Grifo nosso)

Portanto, embora Kardec não tenha dado uma atenção específica ao tema, há de maneira esparsa, em toda a sua obra, referências claras à existência de sociedades espirituais, organizações sociais diversas no “mundo dos Espíritos”, conforme as condições dos Espíritos que as compõem. É mesmo possível estabelecer que essas referências vão apresentando um perfil cada vez mais claro ao longo do tempo, assumindo uma clareza inquestionável em 1865, quando destaca em itálico dentro do seu próprio texto que

O mundo espiritual tem esplendores por toda parte, harmonias e sensações que os Espíritos inferiores, submetidos à influência da matéria, não entreveem sequer, e que somente são acessíveis aos Espíritos purificados.[19]

Se o primeiro critério estabelecido por Kardec é o da razão, é a razão mesma que não permite compreender a existência de seres inteligentes que interagem entre si, se entreajudam, estudam, se agrupam, formam “famílias pelos laços espirituais” as quais se “perpetuam no mundo dos espíritos”[20], sem que estabeleçam alguma forma de organização social, algum modo de articulação entre os seus membros, algum tipo de convívio social com características de uma comunidade.

Ademais, a teoria apresentada no estudo sobre o “laboratório do mundo invisível” oferece base segura para afirmar que nesse “mundo espiritual” de que falam os Espíritos é não apenas possível, mas inevitável, que os Espíritos “criem” os elementos que lhes sejam identificadores, conforme a sua conveniência. Oferece base inclusive para afirmar que os espíritos menos esclarecidos realizam suas criações mentais de modo absolutamente involuntário, apenas pela ação do seu pensamento[21]. Não há razões para crer que essa “criação” se limite a vestuários e objetos de apresentação pessoal, como já havia adiantado o próprio Kardec. Com certeza, deve incluir obras de beleza e arte, nos seus mais variados aspectos, embora com outro tipo de “matéria”, que os Espíritos apresentam a Kardec como existindo “em estados que ignorais. Pode ser, por exemplo, tão etérea e sutil que nenhuma impressão vos cause aos sentidos. Contudo, é sempre matéria. Para vós, porém, não o seria”.[22]

Quanto ao critério da universalidade do ensino, como essa ideia se acha presente nas informações obtidas por médiuns até mesmo anteriores a Kardec, de diferentes países, sem nenhuma ligação entre si, e até mesmo nas tradições religiosas de diversos povos, não há como negar que ela atende também a esse critério. Até mesmo a arte cinematográfica atual já admite essa ideia, às vezes tão bem ou até melhor retratada que em muitos livros de autoria espírita. É o caso dos filmes Amor Além da Vida e Os Outros. Vê-se, pois, que o consenso a esse respeito já começa a extrapolar o meio espírita e a atingir a sociedade como um todo.

Mesmo no meio científico, nas pesquisas médicas envolvendo Experiências de Quase Morte, alguns relatos de pacientes levam também ao entendimento de que eles contemplaram “ambientes espirituais”, jardins, santuários, que combinam em tudo com essa visão que confirma a existência de ambientes sociais com alguma forma de estrutura no mundo espiritual.

Se forem consideradas as informações obtidas por Andrew Jackson Davis, George Vale Owen, Emanuel Swedemborg e vários outros médiuns, de diferentes países, em épocas diferentes, não há como negar que essas diferentes visões apresentam muitos elementos semelhantes. Nessa semelhança é que se encontra a universalidade.

A questão que se apresenta então é a de compreender em que consiste esse “mundo dos Espíritos” de que os próprios espíritos que participaram da codificação tratam, e se ele é exatamente como descrito por André Luiz/Chico Xavier.

Aqui, sim, pode-se apontar um aspecto importante, que é o de considerar se os fatos se dão exatamente como narrados por um determinado espírito através de um determinado médium. Desde O Livro dos Médiuns já sabemos que os ditados que um médium obtém, “embora procedendo de Espíritos diferentes, trazem, quanto à forma e ao colorido, o cunho que lhe é pessoal”.[23] Jacobson Trovão, estudando o processo da psicofonia, chama a atenção para o fato de que a comunicação mediúnica resulta sempre de uma junção da ideia do espírito comunicante com as idéias do médium que lhe empresta o sentido[24]. As informações disponíveis e a experimentação mediúnica demonstram também que a informação obtida por esse método está limitada à realidade objetiva vivida pelas pessoas que participam da criação do sentido, no caso o médium e os próprios atores sociais do seu contexto.

O próprio Allan Kardec adverte que mesmo os espíritos que se comunicam, fazem-no conforme as suas próprias condições de espíritos desencarnados; que eles, não sendo senão “as almas dos homens, despojados do invólucro corpóreo”[25], podem “permanecer longo tempo imbuídos das ideias que tinham na Terra”[26]. Quando se comunicam, portanto, fazem-no conforme as convenções a que estavam subordinados durante a sua vida terrena. Assim, Humberto de Campos e Camilo Castelo Branco comunicam-se como escritores, André Luiz como médico, Emmanuel como teólogo e padre, conforme sua própria explicação.

Um modo mais prudente de se abordar esse tipo de assunto seria tratar a informação espírita do mesmo modo que a ciência trata a conclusão científica: como um conhecimento provisório, a ser confirmado ou refutado pelas novas informações que forem surgindo. Isso significa abrir mão do conceito de verdade absoluta e abraçar uma visão mais moderna de verdade, como um “diamante de mil faces”, do qual a cada dia se descortina um novo detalhe, um novo ângulo de observação. Significa reconhecer que nenhuma dessas inúmeras faces é suficiente, por si só, para dar a ideia do conjunto, ele mesmo, o conjunto, se ampliando em significado conforme aumenta a quantidade dos observadores.

Finalmente, é preciso convir que essas informações novas que chegam vêm ao encontro do entendimento de Kardec quando afirmava que...

“...a missão do Espiritismo consiste precisamente em nos esclarecer acerca desse futuro, em fazer com que, até certo ponto, o toquemos com o dedo e o penetremos com o olhar, não mais pelo raciocínio somente, porém, pelos fatos. Graças às comunicações espíritas, não se trata mais de uma simples presunção, de uma probabilidade sobre a qual cada um conjeture à vontade, que os poetas embelezem com suas ficções, ou cumulem de enganadoras imagens alegóricas. É a realidade que nos aparece, pois que são os próprios seres de além-túmulo que nos vêm descrever a situação em que se acham, relatar o que fazem, facultando-nos assistir, por assim dizer, a todas as peripécias da nova vida que lá vivem e mostrando-nos, por esse meio, a sorte inevitável que nos está reservada, de acordo com os nossos méritos e deméritos”.[27] (Grifo nosso)

É de se deduzir ainda que a complexidade e a diversidade no mundo dos Espíritos deve ser ainda maior que a que se verifica no mundo dos encarnados, mais limitado que aquele. Se aqui podemos observar uma infinidade de diferentes formas de costumes, de organização social, culturas as mais diversas, com certeza isso não representa mais que uma pálida demonstração da complexidade e da diversidade que devem caracterizar o mundo espiritual. Se aqui nós criamos, através da nossa capacidade de produzir cultura, inúmeras diferenciações em termos de modos de relacionamento, formas de apresentação recíproca, no mundo espiritual isso deve ser ainda mais rico e pujante, já que toda a criação tem com base a mente e sua capacidade de operar plasticamente sobre a matéria “etérea e sutil” de que se compõe o universo, nesses diversos estados da matéria que estamos “longe de imaginar”.

Essa conclusão se acha em perfeita consonância com as observações registradas por Kardec, a mais clara de todas elas contida na Revista Espírita do mês de setembro de 1859. Ali ele transcreve uma comunicação obtida por dois médiuns dos Estados Unidos e publicada por um juiz de direito, na qual o Espírito de Voltaire relata seu estado de perturbação, quando julgava ser material o mundo espiritual em que se encontrava, tal a “materialidade” de tudo o que via. “Em seguida – relata Voltaire e transcreve Kardec – foi-me permitido lançar os olhos sobre as maravilhosas construções que serviam de habitação aos Espíritos e, com efeito, pareceram-me surpreendentes”.

A considerar as conclusões a que tem chegado a Física a respeito das propriedades da matéria, onde o átomo perdeu o seu status de partícula, cedendo lugar a uma nova visão baseada nos quanta, ou pacotes de energia, talvez até mesmo a nossa visão de “mundo material” tenha que ser revista. A valerem as conclusões do físico indiano Amit Goswami a respeito da relação entre matéria, energia e consciência, talvez tenhamos que nos perguntar se mesmo o nosso “mundo material” não seria também uma espécie de criação mental inconsciente, se não estamos, de fato, inseridos em um universo de configurações, onde até mesmo o que chamamos de matéria pode não ser tão “material” como imaginamos. Talvez devamos nos perguntar se todas as nossas criações, casas, carros, celulares e naves espaciais, não poderiam ser alguma forma de criação mental, realizadas através de mãos ou máquinas que mais não são que conglomerados energéticos sob nosso comando enquanto espíritos – ou consciências, nos termos adotados pelo físico indiano[28]. Nessa linha de raciocínio, talvez venhamos a concluir que, embora ainda necessário aos nossos sentidos, mesmo o mundo material que conhecemos pode não ser mais que uma imensa construção mental coletiva, ou seja, uma enorme “ilusão”.

 

Sobre o autor: Elias Inácio de Moraes é colaborador voluntário em programas sociais na Fraternidade Espírita e na Associação Espírita AJA com Jesus, em Goiânia/GO. É Mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás e atua em um movimento social que tem por objetivo a aprovação de uma Lei de Iniciativa Popular que coíba a propaganda de bebidas alcoólicas, minimizando as mortes decorrentes do uso dessa droga.



[1] Owen, George V. A Vida Além do Véu, livro 2 - Os Altos Planos do Céu, informação datada de 15/11/1913.

[2] Bíblia de Jerusalém, 2ª Carta aos Coríntios, 12:4.

[3] Davis, Andrew J. The Great Harmonia, Ed. Própria, 1850-1861. Também citado por John DeSalvo em seu livro sobre o médium, por ele referido como “The First American Prophet and Clairvoyant”.

[4] Swedemborg, Emanuel. Os Arcanos Celestes. Ed. Soc. Religiosa Nova Jerusalém, Rio de Janeiro/RJ, p.540.

[5] Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Ed. FEB, Rio de Janeiro/RJ. Questão 101.

[6] Kardec, Allan. O Céu e o Inferno. Ambas as citações constam da Segunda Parte, cap. 8.

[7] Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns. Ed. FEB item, Rio de Janeiro/RJ item. 126

[8] Idem, item 128.

[9] Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 113.

[10] Kardec, Allan. O Céu e o Inferno. Citação contida no item II do capítulo II da 2ª. parte.

[11] Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Ed. FEB questão nº 160.

[12] Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Ed. FEB questão nº 234.

[13] Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Ed. FEB, cap.3 item 2.

[14] Kardec, Allan. O Céu e o Inferno, Ed. FEB, cap. 2 da parte I.

[15] Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Ed. FEB, Rio de Janeiro/RJ, questão nº 278.

[16] Idem, questão 279.

[17] Idem, questão 303.

[18] Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Ed. FEB, Rio de Janeiro/RJ, questão 941.

[19] Kardec, Allan. O Céu e o Inferno, Ed. FEB, Rio de Janeiro/RJ, no item 6 do cap. III da primeira parte.

[20] Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Ed. FEB, Rio de Janeiro/RJ, itens 8 e 9 do cap. XIV.

[21] Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns, Ed. FEB, Rio de Janeiro/RJ, vide todo o cap. VIII.

[22] Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Ed. FEB, Rio de Janeiro/RJ, questão nº 22.

[23] Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns, Ed. FEB, Rio de Janeiro/RJ, item 225.

[24] Trovão, Jacobson S. A Psicofonia na Obra de André Luiz, Ed. Feego – Goiânia/GO, 1ª. Ed. 2011. Comparar com O Livro dos Médiuns, itens 180 em diante, a respeito dos médiuns psicógrafos.

[25] Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns, Ed. FEB, Rio de Janeiro/RJ, item 2.

[26] Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Ed. FEB, Rio de Janeiro/RJ, questão 318.

[27] Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Ed. FEB, Rio de Janeiro/RJ, comentário à questão 148.

[28] Goswami, Amit. O Universo autoconsciente: Como a consciência cria o mundo material. Ed. Aleph, São Paulo/SP, 2007.

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Comentário de Nilza Garcia em 3 fevereiro 2014 às 17:23

Sim.... e muito nos ajuda a confirmar ( se é que precisamos) essa maravilha do mundo espiritual!

Comentário de antonio joaquim gonçalves veloso em 3 fevereiro 2014 às 17:20

O Dr. Paulo Rzezinsky, diretor presidente da Editora Atheneu espirita, escrevu um pequeno livro sobre o assunto

Comentário de WalfridoJoaquim Monteiro Franco em 3 fevereiro 2014 às 15:16

Excelente conteúdo  !!!

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