ESTUDO DO LIVRO A GÊNESE (ALLAN KARDEC, 1868) - capítulo I - CARÁTER DA REVELAÇÃO ESPÍRITA - Itens 1 a 10


C A P Í T U L O I

Caráter da revelação espírita


1.   Pode o Espiritismo ser considerado uma revelação? Neste caso, qual o seu caráter? Em que se funda a sua autenticidade? A quem e de que maneira foi ela feita? É a doutrina espírita uma revelação, no sentido teológico da palavra, ou por outra, é, no seu todo, o produto do ensino oculto vindo do Alto? É absoluta ou suscetível de modificações? Trazendo aos homens a verdade integral, a revelação não teria por efeito impedi-los de fazer uso das suas faculdades, pois que lhes pouparia o trabalho da investigação? Qual a autoridade do ensino dos Espíritos, se eles não são infalíveis e superiores à Humanidade? Qual a utilidade da moral que pregam, se essa moral não é diversa da do Cristo, já conhecida? Quais as verdades novas que eles nos trazem? Precisará o homem de uma revelação? E não poderá achar em si mesmo e em sua consciência tudo quanto é mister para se conduzir na vida? Tais as questões sobre que Importa nos fixemos.


2.   Definamos primeiro o sentido da palavra revelação. Revelar, do latim revelare, cuja raiz, velum, véu, significa
literalmente sair de sob o véu — e, figuradamente, descobrir, dar a conhecer uma coisa secreta ou desconhecida. Em sua acepção vulgar mais genérica, essa palavra se emprega a respeito de qualquer coisa ignota que é divulgada,
de qualquer idéia nova que nos põe ao corrente do que não sabíamos.
     Deste ponto de vista, todas as ciências que aos fazem conhecer os mistérios da Natureza são revelações e pode
dizer-se que há para a Humanidade uma revelação incessante. A Astronomia revelou o mundo astral, que não conhecíamos; a Geologia revelou a formação da Terra; a Química, a lei das afinidades; a Fisiologia, as funções do organismo, etc.; Copérnico, Galileu, Newton, Laplace, Lavoisier foram reveladores.


3.   A característica essencial de qualquer revelação tem que ser a verdade. Revelar um segredo é tornar conhecido um fato; se é falso, já não é um fato e, por conseqüência, não existe revelação. Toda revelação desmentida por fatos deixa de o ser, se for atribuída a Deus. Não podendo Deus mentir, nem se enganar, ela não pode emanar dele: deve
ser considerada produto de uma concepção humana.


4.   Qual o papel do professor diante dos seus discípulos, senão o de um revelador? O professor lhes ensina o que
eles não sabem, o que não teriam tempo, nem possibilidade de descobrir por si mesmos, porque a Ciência é obra
coletiva dos séculos e de uma multidão de homens que traz em, cada qual , o seu contingente de observações
aproveitáveis àqueles que vêm depois. O ensino é, portanto, na realidade, a revelação de certas verdades científicas
ou morais, físicas ou metafísicas, feitas por homens que as conhecem a outros que as ignoram e que, se assim não
fora, as teriam ignorado sempre.


5.   Mas, o professor não ensina senão o que aprendeu: é um revelador de segunda ordem; o homem de gênio ensina o que descobriu por si mesmo: é o revelador primitivo; traz a luz que pouco a pouco se vulgariza. Que seria da Humanidade sem a revelação dos homens de gênio, que aparecem de tempos a tempos?
     Mas, quem são esses homens de gênio? E, por que são homens de gênio? Donde vieram? Que é feito deles? Notemos que na sua maioria denotam, ao nascer, faculdades transcendentes e alguns conhecimentos inatos, que com pouco trabalho desenvolvem. Pertencem realmente à Humanidade, pois nascem, vivem e morrem como nós. Onde, porém, adquiriram esses conhecimentos que não puderam aprender durante a vida? Dir-se-á, com os materialistas, que o acaso lhes deu a matéria cerebral em maior quantidade e de melhor qualidade? Neste caso, não teriam mais mérito que um legume maior e mais saboroso do que outro.
     Dir-se-á, como certos espiritualistas, que Deus lhes deu uma alma mais favorecida que a do comum dos homens? Suposição igualmente ilógica, pois que tacharia Deus de parcial. A única solução racional do problema está na
preexistência da alma e na pluralidade das vidas. O homem de gênio é um Espírito que tem vivido mais tempo; que, por conseguinte, adquiriu e progrediu mais do que aqueles que estão menos adiantados. Encarnando, traz o
que sabe e, como sabe muito mais do que os outros e não precisa aprender, é chamado homem de gênio. Mas seu saber é fruto de um trabalho anterior e não resultado de um privilégio. Antes de renascer, era ele, pois, Espírito adiantado: reencarna para fazer que os outros aproveitem do que já sabe, ou para adquirir mais do que possui.
     Os homens progridem incontestavelmente por si mesmos e pelos esforços da sua inteligência; mas, entregues às
próprias forças, só muito lentamente progrediriam, se não fossem auxiliados por outros mais adiantados, como o estudante o é pelos professores. Todos os povos tiveram homens de gênio, surgidos em diversas épocas, para dar-lhes impulso e tirá-los da inércia.


6.  Desde que se admite a solicitude de Deus para com as suas criaturas, por que não se há de admitir que Espíritos
capazes, por sua energia e superioridade de conhecimento, de fazerem que a Humanidade avance, encarnem pela vontade de Deus, com o fim de ativarem o progresso em determinado sentido? Por que não admitir que eles recebam missões, como um embaixador as recebe do seu soberano? Tal o papel dos grandes gênios. Que vêm eles fazer, senão ensinar aos homens verdades que estes ignoram e ainda ignorariam durante largos períodos, a fim de lhes dar um ponto de apoio mediante o qual possam elevar-se mais rapidamente? Esses gênios, que aparecem através dos séculos como estrelas brilhantes, deixando longo traço luminoso sobre a Humanidade, são missionários ou, se o quiserem, messias. O que de novo ensinam aos homens, quer na ordem física, quer na ordem filosófica, são revelações. Se Deus suscita reveladores para as verdades científicas, pode, com mais forte razão, suscitá-los para as verdades morais, que constituem elementos essenciais do progresso. Tais são os filósofos cujas idéias atravessam os séculos.


7.   No sentido especial da fé religiosa, a revelação se diz mais particularmente das coisas espirituais que o homem
não pode descobrir por meio da inteligência, nem com o auxílio dos sentidos e cujo conhecimento lhe dão Deus ou
seus mensageiros, quer por meio da palavra direta, quer pela inspiração. Neste caso, a revelação é sempre feita a
homens predispostos, designados sob o nome de profetas ou messias, isto é, enviados ou missionários, incumbidos
de transmiti-la aos homens. Considerada debaixo deste ponto de vista, a revelação implica a passividade absoluta e
é aceita sem verificação, sem exame, nem discussão.

  
8.   Todas as religiões tiveram seus reveladores e estes, embora longe estivessem de conhecer toda a verdade, tinham uma razão de ser providencial, porque eram apropriados ao tempo e ao meio em que viviam, ao caráter particular dos povos a quem falavam e aos quais eram relativamente superiores.
     Apesar dos erros das suas doutrinas, não deixaram de agitar os espíritos e, por isso mesmo, de semear os germens do progresso, que mais tarde haviam de desenvolver-se, ou se desenvolverão à luz brilhante do Cristianismo.
     É, pois, injusto se lhes lance anátema em nome da ortodoxia, porque dia virá em que todas essas crenças tão
diversas na forma, mas que repousam realmente sobre um mesmo princípio fundamental — Deus e a imortalidade da
alma, se fundirão numa grande e vasta unidade, logo que a razão triunfe dos preconceitos.
     Infelizmente, as religiões hão sido sempre instrumentos de dominação; o papel de profeta há tentado as ambições secundárias e tem-se visto surgir uma multidão de pretensos reveladores ou messias, que, valendo-se do prestígio deste nome, exploram a credulidade em proveito do seu orgulho, da sua ganância, ou da sua indolência, achando mais cômodo viver à custa dos iludidos. A religião cristã não pôde evitar esses parasitas.
     A tal propósito, chamamos particularmente a atenção para o capítulo XXI de O Evangelho segundo o Espiritismo;
“Haverá falsos Cristos e falsos profetas”.


9.  Haverá revelações diretas de Deus aos homens? É uma questão que não ousaríamos resolver, nem afirmativamente, nem negativamente, de maneira absoluta. O fato não é radicalmente impossível, porém, nada nos dá dele prova certa. O que não padece dúvida é que os Espíritos mais próximos de Deus pela perfeição se imbuem do seu pensamento e podem transmiti-lo. Quanto aos reveladores encarnados, segundo a ordem hierárquica a que pertencem e o grau a que chegaram de saber, esses podem tirar dos seus próprios conhecimentos as instruções que ministram, ou recebê-las de Espíritos mais elevados, mesmo dos mensageiros diretos de Deus, os quais, falando em nome de Deus, têm sido às vezes tomados pelo próprio Deus.
     As comunicações deste gênero nada têm de estranho para quem conhece os fenômenos espíritas e a maneira pela qual se estabelecem as relações entre os encarnados e os desencarnados. As instruções podem ser transmitidas por diversos meios: pela simples inspiração, pela audição da palavra, pela visibilidade dos Espíritos instrutores, nas visões e aparições, quer em sonho, quer em estado de vigília, do que há muitos exemplos na Bíblia, no Evangelho e nos livros sagrados de todos os povos.
     É, pois, rigorosamente exato dizer-se que quase todos os reveladores são médiuns inspirados, audientes ou videntes. Daí, entretanto, não se deve concluir que todos os médiuns sejam reveladores, nem, ainda menos, intermediários diretos da divindade ou dos seus mensageiros.


10.   Só os Espíritos puros recebem a palavra de Deus com a missão de transmiti-la; mas, sabe-se hoje que nem todos os Espíritos são perfeitos e que existem muitos que se apresentem sob falsas aparências, o que levou S. João a dizer: “Não acrediteis em todos os Espíritos; vede antes se os Espíritos são de Deus.”(Epíst. 1ª, 4:4.)
     Pode, pois, haver revelações sérias e verdadeiras como as há apócrifas e mentirosas. O caráter essencial da revelação divina é o da eterna verdade. Toda revelação eivada de erros ou sujeita a modificação não pode emanar de Deus. É assim que a lei do Decálogo tem todos os caracteres de sua origem, enquanto que as outras leis moisaicas, fundamentalmente transitórias, muitas vezes em contradição com a lei do Sinai, são obra pessoal e política do legislador hebreu. Com o abrandarem-se os costumes do povo, essas leis por si mesmas caíram em desuso, ao passo que o Decálogo ficou sempre de pé, como farol da Humanidade. O Cristo fez dele a base do seu edifício, abolindo as outras leis. Se estas fossem obra de Deus, seriam conservadas intactas. O Cristo e Moisés foram os dois grandes reveladores que mudaram a face ao mundo e nisso está a prova da sua missão divina. Uma obra puramente humana careceria de tal poder.

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Tags: A, Gênese

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Comentário de Henrique em 25 setembro 2013 às 13:35

muito bom !

Comentário de claudie lopes em 11 junho 2012 às 22:13

Querida, concordo integralmente com seu comentário. Mas vemos, que num primeiro momento, o Centro Espírita funciona realmente, para a grande maioria, como Pronto socorro, onde se busca o reequilíbrio do "paciente". Contudo, há que se infundir a vontade de renovação e busca de auto crescimento dos "assistentes", para que se desvinculem do hábito de andar com muletas, e passar a caminhar com suas próprias pernas...E esse trabalho requer boa vontade e estudo...o estudo vai mostrando a importância da renovação...O espírita não tem que sofrer. O sofrimento ainda faz parte do nosso estágio de evolução; o Espiritismo nos faz compreender as causas do sofrimento, e fortalece nossa fé para que aprendamos a superar...Excelente comentário!! Grande abraço!!

Comentário de Vi Meirim em 11 junho 2012 às 9:21

"A resignação tem o poder de anular o impacto do sofrimento."

André Luiz

Comentário de Vi Meirim em 11 junho 2012 às 9:13

Claudie, minha prezada!

É exatamente assim que funciona. Novos olhares, novas respostas para uma mesma pergunta e conhecimento se amplia. Já disse uma vez aqui que o próprio Chico Xavier declarou que ele leu o OLE pelo menos 159 vezes, imagina. O estudo constante da Doutrina aliado à prática da Caridade são as ferramentas mais poderosas para a nossa evolução espiritual. O primeiro porque nos dá a chave para a reforma íntima, a reforma moral. O segundo por que só pela prática da Caridade cumprimos a Lei de Amor do Cristo.

Eu me dedico a estudar, fazer o Evangelho no Lar e participar das palestras doutrinárias. A princípio pode parecer fanatismo mas não é. Estas práticas não interferem em outros aspectos da minha vida pessoal, ao contrário, já estão inseridas nela. Estou dizendo isto, Claudie, porque outra coisa que gostaria de abordar é o fato de algumas pessoas acharem que a Doutrina Espírita é salvacionista e a Casa Espírita é um pronto socorro onde você entra passando mal recebe os cuidados e fica bom.

A Doutrina Espírita, você sabe, é uma Doutrina de mudanças de hábitos, atitudes e pensamentos. E é neste processo de mudança interior é que literalmente vamos sim, mudando o que está em torno de nós, a partir das escolhas que fazemos.

É comum encontrarmos pessoas que julgam que o espírita tem que sofrer ou, pior, quando se torna espírita passa a sofrer. O fato é que o sofrimento, se tiver que vir virá. A Doutrina é o suporte, a âncora que temos para passar o que temos que passar sem drama e com maior resignação, quando o sofrimento se torna menor ou mais suportável. Quando estudamos as obras Kardequianas e todas as outras , como as de André Luiz, por exemplo, vamos tomando consciência disto porque os ensinamento são claros e definitivos. O OLE, apesar de ter sido escrito há 150 anos é uma obra atualíssima.

Abraços!

Comentário de claudie lopes em 10 junho 2012 às 11:32

Concordo plenamente com vc!! Na maior parte, vemos pessoas que lera algumas partes das obras principais da Codificação, e nunca participaram de um estudo mais aprofundado...E existem conceitos, básicos, que só com muito estudo podemos começar a compreender...Por isso, a convite de alguns amigos, me propus a trazer um estudo mais detalhado sobre o LM. E acho louvável, que vc esteja se propondo ao estudo das outras obras...

Pessoalmente, tenho percebido o muito que desconhecemos e não compreendemos, por só termos "ouvido falar"...Eu mesma tenho aprendido e venho tido gratas surpresas...Quantos acréscimos, citações e olhares diferentes, sobre uma mesma questão, com os quais alargamos nossos horizontes...

Parabéns pelo seu esforço tb! Aprendemos, uns com os outros, nesse trabalho de estudo e divulgação da Doutrina...

Abração!!

Comentário de Vi Meirim em 10 junho 2012 às 10:11

Com certeza, Claudie!

NÃO se trata aqui de ser espírita fundamentalista quando só nos permitirmos ler as obras com o o selo da FEB.

Há muitas leituras espiritualistas que, embora não estejam no contexto de Kardec,  podem conter conhecimentos que ajudem a expandir nosso horizonte,

O principal é justamente o que você referiu: ter a base sólida para saber fazer a distinção.

Na minha opinião, uma pequena confusão para o entendimento da Doutrina Espírita é justamente  o não conhecimento dos conceitos das obras básicas que, às vezes,  levam as pessoas a considerar espírita o que não é verdadeiramente.

Abraços!

Vi Meirm

Comentário de claudie lopes em 10 junho 2012 às 9:55

" todo  espírita  é um espitritualista porém, nem todo espiritualista é um espírita." Perfeito! Porém, ainda que o conteúdo se mostre apenas como espiritualista, (ou seja, não se paute nas obras Kardequianas), pode trazer trazer conceitos e orientações excelentes...ou não; Já tive oportunidade de ler excelntes obras espiritualistas que me trouxeram conhecimentos importantes e coerentes...

Creio que o principal é termos uma base sólida de conhecimentos, para que possamos distinguir os bons frutos dos maus...

Abração!!

Comentário de Vi Meirim em 10 junho 2012 às 9:49

Excelente observação, Claudie!

Recentemente li um texto que tratava justamente desta questão: a disseminação  mercadológica de obras espíritas, como você disse, não fundamentadas nas diretrizes firmadas por Kardec.

Acho que o conceito que primeiro temos ter bem claro é que todo  espírita  é um espitritualista porém, nem todo espiritualista é um espírita. São coisas diferentes.

Obrigada plea contribuição

Abraços fraternos

Vi Meirim

Comentário de claudie lopes em 10 junho 2012 às 9:28

Em relação a questão 10 - Verdadeiro. "Pelo fruto conhecereis a árvore." Muito importante essa advertência, ainda mais nos tempos atuais, onde a divulgação de obras espiritualistas é tão grande...O que por um lado é uma bênção, por outro nos adverte para o perigo das mensagens que queiram deturpar as verdades do Evangelho, e das diretrizes firmadas pelas obras básicas de Kardec...Fomos advertidos contra os falsos profetas, e muitas vezes estes se escondem sob a capa de expositores e escritores sérios das verdades espirituais, mas vêm com "novos conceitos e métodos mais modernos" de interpretação do Evangelho...Há que se estar atento e estar firme em um estudo contínuo, das obras da Codificação, e outras já consagradas, que nos guiem e orientem no caminho certo...

Um grande abraço!!

Comentário de Vi Meirim em 9 junho 2012 às 16:44

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