Espinoza

 

Descartes morreu como católico romano, recebendo em seus últimos momentos, os sacramentos da igreja.  Embora em seu tempo de vida fosse perseguido como ateísta, sua memória é agora referida fora da Cristandade.  Não foi o que ocorreu com o discípulo de Descartes, Benedict Espinoza.  Depois de dois séculos de censuras, os teólogos apenas agora fazem justiça a sua memória.

Herder e Scheleiermacher têm observado e chamado Espinoza como um cristão também, mas seus clamores têm sido desde há muito rejeitados, não apenas pelas igrejas, mas pelos inimigos abertos do cristianismo.  O que quer que seja dito das suas doutrinas, todos concordam que representam-no como um cristão no coração e na vida; um exemplo de constância paciente; um homem cheio de fé na bem-aventurança divina, preferindo trazer os frutos mesmos do Espírito, do que comer as pequenas maçãs da raiva e da malícia, disputa e discórdia, professadas pelos cristãos do seu tempo e que os caracterizava.  Ele, uma vez, escreveu: “Eu repito como São João que a justiça e a caridade são os maiores sinais, os únicos sinais, da verdadeira fé católica; justiça, caridade são os verdadeiros frutos do Divino Espírito Santo.  Onde quer que estejam, há Cristo e, onde eles não estão, também Cristo não pode estar.”   Não haveria grande erro de acordo com Espinoza em nomeá-lo como cristão.  Nada a não ser a ignorância poderia o ter classificado como enciclopedista francês; e não é mais do que uma ignorância culpável que o classifica como sectário dos materialistas.

Do sistema de Espinoza, Bayle diz que “poucos têm estudado isso, e aqueles que estudaram também poucos entenderam e muitos são desencorajados pelas dificuldades e impenetráveis abstrações que demandam.”  Voltaire diz “que a razão pela qual tão poucos entendem Espinoza é porque Espinoza não entende ele próprio.”  É agora presumido que Espinoza pode ser entendido e apesar da grande autoridade de Voltaire, é mais provável que ele entenda a si mesmo.  Espinoza foi um professor declarado do cartesianismo.  Seus primeiros escritos foram expostos pela filosofia de Descartes.  Nesses ele adicionou apêndices, explicando em que ele diferia daquele filósofo.  Espinoza era consistente e entrou resolutamente em conclusão antes do que Descartes, que permaneceu assustado.  Suas doutrinas eram puramente  cartesianas.  Alguns que gostariam de salvar o mestre e sacrificar o discípulo vão negar isto.  Tem sido mantido o pensamento de que ele tirou de Descartes apenas a forma e que seus princípios foram derivados de outras pesquisas.  A Cabala tem sido nomeada como uma pesquisa provável, e a influência de Averroes em Maimorrides e dos judeus da Idade Média também tem sido colocadas como fontes pesquisadas da qual ele tomou emprestado como outras (artigo de Emille Saisset no “Revue des deuxMondes” de 1882).  Que Espinoza tenha aprendido como todos os filósofos do Rabbis antes que ele fosse excomungado da sinagoga dos judeus, é provável; mas não há necessidade de buscar a origem do espinozismo em qualquer outro sistema que não seja aquele no qual ele teve seu natural crescimento – a filosofia de Descartes.  As doutrinas de Espinoza são próprias do solo do Idealismo.  Dr. Martineau,  num recente trabalho sobre Espinoza, tem argumentado que Espinoza não era um teísta.  Ele toma a definição de Kant de Deus como um ser com “ação livre e de entendimento” – em outras palavras, “um Deus vivo” – e infere que Espinoza negava a liberdade de Deus e seu entendimento, ele realmente negava sua existência.  Mas o mesmo argumento poderia ter sido colocado por ateístas de muitas grandes teologias, que tem dito de Deus como sendo o inefável; e embora sem atributos, como o homem considera os atributos, Espinoza não teria admitido a inferência, porque o que ele negava de Deus, depois da maneira dos homens, ele descrevia para ele em um nível mais alto.  As frases de Espinoza são descritas como sendo propriamente emprestadas do vocabulário do teísmo, mas balanceadas fora dele por proposições planificadas, que excluem toda a autoconsciência e personalidade, e constituem um sistema de puro naturalismo.  Se Espinoza fez isto conscientemente, ele não merece o grande elogio que o tem sido dado da sinceridade e do amor à verdade.  Se ele fez isto inconscientemente, nós estamos aptos a dar o crédito a ele por dizer o que queria, embora por mais imperfeitas ou contraditórias que suas palavras possam parecer.

O primeiro e o mais evidente das suas ideias é que há um infinitamente perfeito Ser, cuja existência é necessária.  Descartes definiu esse Ser como uma substância infinita, mas ele colocou sobre ele o universo infinito, pelo qual foi criada a substância infinito.  Espinoza não pôde achar lugar para um infinito, então ele negou a criação do personagem da substância.  Ela é dependente.  Ela não existe em si mesma e nem por si mesma.  Ela requere na sua concepção, a concepção de alguma outra existência como sua causa.  Isto é, no entanto, não uma substância, mas apenas um processo desta substância que é infinita.  Deus, sendo absolutamente infinito, não pode existir com nenhuma substância acima dele, porque todo atributo que expressa a essência dessa substância deve pertencer a ele.  Aqui Espinoza pela primeira vez se separa de Descartes.  O que um chama de substâncias criadas, o outro chama de tipos.  “Substância”, diz Espinoza, “é o que existe em si mesmo”.  Um processo é o que existe em alguma outra coisa pela qual essa coisa é concebida.”  Pareceria que o primeiro objeto dessas duas definições foi marcada definitivamente a existir em si como substância, o dependente como algo tão diferente que deve ser chamado de o oposto da substância porque ele partilha da substância do Um.  E então é uma realidade ao mesmo tempo que é apenas um processo pelo qual a realidade do Um é concebida.  Pela teoria cartesiana do conhecimento nós temos Deus,  mente ou alma e matéria.  Através do meio da mente nós chegamos na certeza da existência de Deus e da matéria.  Deus é diferente da essência da mente?  A mente é diferente da essência da matéria?  Ou é, em certa medida, como Deus comunica sua essência a todos os seres e o que eles são, justamente com proporção com o que eles partilham da sua essência?  Essa última é a doutrina cartesiana que Espinoza expõe profundamente.  “Esses axiomas”, ele diz, “podem ser retirados de Descartes.”  Há diferentes níveis de realidade ou entidade, porque a substância tem mais realidade do que o processo, substância infinita do que substância finita.

Desse modo, há mais realidade objetiva na ideia da substância do que na do processo, e na ideia de substância infinita do que na de substância finita.  “Deus é infinitamente perfeito Ser, seu Ser é distribuído a todas as ordens da criação finita nos diversos degraus de acordo com a medida de perfeição, que pertence a cada um.”  Os anjos e os tais seres invisíveis como nós os conhecemos apenas por revelação não vêm naquela região das inquirições dos filósofos, e estes não se dão conta deles.  Há muitos níveis de crença nos seres criados de maior perfeição do que o homem e que existem em outros mundos; mas o homem é o mais perfeito ser desse mundo.  Ele é apenas parte da natureza infinita, que é nada mais do que um indivíduo consistindo de muitos corpos, que embora variem infinitamente entre si, deixaram a individualidade natural sem nenhuma mudança.  E como o ser é constituído por grande perfeição, aquela perfeição da qual sem, não há nenhum ser, então o que o popular vulgar diz que o demônio como inteiramente oposto a Deus não é verdadeiro; porque para o ser ser destituído de perfeição, ele deve ser igualmente destituído de existência.  O filósofo tem apenas que lidar com pensamento e a externalidade do pensamento.  Agora quanto ao pensamento, nós devemos distingui-lo em pensamento de seres finitos e externos objetos finitos; nossas primeiras e mais claras concepções ambas de pensamento e de externalidade de pensamento são infinitas.  Nós primeiro pensamos o infinito e depois o finito.  Mas esse perfeito Ser , cuja nossa mente revelada a nós diretamente é uma essência infinita e em sua externalidade infinitamente estendida.  Aqui na concepção mesma dele, os únicos atributos que a mente humana pode ter conhecimento, são extensões infinitas e pensamentos infinitos. Nós não temos chegado à ideia de Deus através da natureza  externa, mas através da mente.  O pensamento é primeiro externamente seguidor disto e depende disto.  Mas se nós chamamos esse mundo, que é exibido aos sentidos, de natureza criada, o que deveríamos falar do pensamento interno, de que imagens e manifestações são?  Se um é “natureza produzida”, será impróprio chamar o outro de “natureza produtora”?  Elas são tão diferentes que uma pode ser chamada “produtora” e a outra “ produzida”, já que elas são tão  próximas – o que é, a identidade delas num aspecto profundo – que a palavra natureza possa ser aplicada a ambas.  Natureza, no entanto, é colocada no segundo num sentido supremo e não como ordinariamente compreendemos, não os meros trabalhos trazem manifestação. (...)

Livre tradução do livro Pantheism and Christianity de John Hunt . 1884 . Capítulo XII . Moderno Idealismo . Espinoza

 

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