Nas fileiras da assistência espírita, temos tido a oportunidade de conviver com um casal que nos causa admiração. Ambos são moradores de rua, e arriscaríamos dizer que se encontram por volta dos quarenta anos de idade.

Ela, da raça negra, é muito conhecida de boa parte da cidade, por conta de seu comportamento. Completamente desequilibrada, com provável presença de espíritos desajustados, vivia pelas ruas andando seminua e portando-se como uma criança, inclusive com chupeta na boca.

Eventualmente aparecia em nosso Centro Espírita, sempre pedindo algo ou algum trocado. Entrava em todas as dependências que lhe fosse possível, intempestivamente, chegando mesmo a tentar pegar o que achava pela frente, interrompendo palestras e estudos, e da mesma forma que entrava saía. Nunca dava ouvido a quem quer que seja.

Ele, da raça branca, com barba e cabelo fartos e desalinhados, eventualmente aparecia, mas quando o fazia sempre se comportava com aparente normalidade, embora com aparência de algum desajuste psíquico-social.

Notava-se nele sempre uma preocupação em relação a ela, tentando protegê-la e ampará-la, o que nos chamava a atenção.

Uma noite, ao sairmos do Centro após as atividades doutrinárias para retornarmos ao lar, encontramos, não muito distante, uma movimentação provocada por um atropelamento. Paramos, na tentativa de sermos úteis, e verificamos que a vítima era a nossa conhecida. Com inúmeras escoriações e fraturas, principalmente nos membros inferiores, foi socorrida e começou então uma longa peregrinação por hospitais, incluindo o Hospital Adolfo Bezerra de Menezes.

Sempre recebíamos notícias dela quando o encontrávamos nos semáforos próximos ao Centro, ou quando o recebíamos para se alimentar com a sopa do Centro.

Um dia nos surpreenderam ao chegarem juntos ao Centro para a sopa. Ela andando com andador, e ele todo cuidados para ajudá-la, tratando-a com um carinho e respeito enternecedor.

Desde então, com frequência retornam, e nos chamou a atenção o “novo” comportamento dela. Calma, educada, com olhar manso, e uma certa simpatia jovial, sempre recebendo muito bem a atenção que ele lhe dedica. Parece que o acidente a acordou para uma nova realidade.

Chama a atenção, não só a mudança comportamental dela em função das dores provocadas pelo corpo machucado, mas principalmente na forma com que se tratam.

Por se tratar de moradores de rua, não há valores materiais em jogo, assim como não há predicados físicos padronizados pela cultura social em que vivemos. Ao contrário, falta-lhes até a higiene pessoal e roupa limpa, e mesmo com a falta de tudo, aceitam-se e se completam mutuamente, dedicando-se um às necessidades do outro, pouco importando o que está à volta.

Poderíamos até imaginar neles uma condição de “almas gêmeas”.

Por fim, é inevitável a comparação. Será que em nós, que temos alguma cultura, conhecimento do Evangelho e da Doutrina Espírita, que temos muito mais do que o necessário, em todos os aspectos, já se reconhece o amor que constatamos naquele casal? Já somos também reconhecidos pela nossa dedicação aos que conosco convivem, ou, ao contrário, ainda estamos exigindo condições ideais, materiais e humanas, para amar e servir?

Pensemos nisso.

Antonio Carlos Navarro

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