Apesar de ela sempre reclamar do corte de cabelo dele, e de também criticar o seu guarda-roupa ("onde é que você desen-cavou essa calça amarela?"), ele segue ado­rando esta ranzinza porque ninguém sabe, como ela, fazê-lo se sentir tão imprescin­dível na vida de alguém.

Apesar de ele nunca querer sair com os amigos dela e implicar com o jeito que ela dirige, ela não o abandona nem sob decreto, porque ninguém, como ele, sabe fazê-la se sentir tão desejada.

Não lembro quem disse que a gente gosta de uma pessoa não por causa de, mas apesar de. Gostar do que é gostável é fácil: gentileza, bom humor, inteligência, simpatia, tudo isso a gente tem em estoque na hora em que conhece uma pessoa e resolve conquistá-la. Os defeitos ficam guardadinhos nos primeiros dias e só então, com a convivência, vão saindo do esconderijo e revelando-se no dia a dia. Você então descobre que ele não é apenas gentil e doce, mas também um tremendo casca-grossa quando trata os próprios funcionários. E ela não é apenas segura e determinada, mas uma chorona que passa 20 dias por mês com TPM. E que ele ronca, e que ela diz palavrão demais, e que ele ê supers­ticioso por bobagens, e que ela enjoa na estrada, e que ele não gosta de criança, e que ela não gosta de cachorro, e agora? Agora convoquem o amor para resolver essa encrenca.

O par ideal não existe. Essa tal de alma gêmea é uma invenção que colou não sei como, porque é só pensar um pouco para ver que não faz sentido: seria uma sorte ex­cepcional sua alma gêmea morar na mesma cidade, freqüentar o mesmo clube e o mesmo bairro que você. Sua alma gêmea pode muito bem viver em Kuala Lumpur ou em Helsinque, como é que você foi cair nos braços do primeiro candidato ao posto sem dar um giro pelo mundo antes?

O que existe é uma necessidade de ex­travasar nossos sentimentos mais nobres, uma vontade maluca de pertencer emocio-nalmente a alguém. Existe um sexto sentido que nos conduz em direção a uma deter­minada pessoa, existe uma vontade de estar junto, de traze-la para o nosso mundo e também de entrar no mundo dela, existe uma aversão à solidão que nos impulsiona para o desconhecido — ou para a des­conhecida. E esses seres estranhos são gen­tis, bem-humorados, inteligentes, simpáti­cos, e o que mais? Ele deixa a casa es­culhambada, ela é péssima cozinheira. Ele é pão-duro, ela gasta insanamente. Ele se irrita quando seu time perde, ela desmorona quan­do é criticada. Ele tem medo de altura, ela tem medo de tempestade. Ele chega atra­sado, ela nunca está pronta. Ele é muito distraído, ela é muito ciumenta. Ele não gosta de sair, ela não gosta de ler. Ele dorme tarde, ela tem insônia. Ele é gremista doente, ela nem sabe o que é um escanteio.

Mas se adoram, apesar de.

Email: martha.medeiros@oglobo.cor

 

 

(Este texto foi tirado da revista O Globo, que acompanhou o jornal deste último domingo.)

E você, o que acha? Acredita em alma gêmea? Sua opinião é bem-vinda!

 

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Comentário de Marta Valéria em 14 junho 2011 às 15:13

Olá amigos eu vou na onda do Inácio....

 

Penso em "almas afins", que podem ser marido e mulher, mãe e filho, filho com pai, filho com filho, amigo com amigo...enfim. Correspondências....sintonias.

 

 

Penso também, que para se entender essa questão de "alma gêmea", para nós estudantes do mundo extra-físico, é ter que abrir mão de um "romantismo surreal' que se cria e torno disso. Existem interpretações, quanto a isso, até perigosas. Aí vive-se a eterna procura da alma gêmea....a vida passa...e nada acontece.

 

 

Muitos beijos.

Comentário de Inacio Queiroz em 14 junho 2011 às 14:24

Oi Di,

Não acredito em alma gêmea, vc sabe.

Mesmo porque, como estamos sempre mudando devido nossas experiências, podemos ATÉ ser gêmeos durante algum tempo (o impossível), mas um irá mudar de um jeito e outro de outro devido a experiências diferentes. Logo, deixarão de ser gêmeos.

Segundo Kardec, somos todos gêmeos porque nascemos todos puros e ignorantes, advindos de um ponto comum. Depois, as experiências criam as diferenças.

 

O que podemos, na verdade,  é encontrar alguém imensamente alinhado com nosso EU atual.

 

Ouvi de alguém que a questão, como diz o texto acima, são os 'apesar de'.

Se o 'apesar de' for insuportável, o gostar não resiste e ocorre a desunião.

Então, temos de verificar se estes 'apesar de' são suportáveis ou não e por quanto tempo somos capazes de suportá-los.

Se pela vida toda? Encontrou um par. Se não, o caminho será outro ...

Beijão...

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