ENTRE O CÉU E O INFERNO : entrevista com uma RAINHA após o desencarne !

(TEXTO EXTRAÍDO DO LIVRO "O CÉU E O INFERNO" (1865) DE ALLAN KARDEC - CAP. VII)

                                                                      A RAINHA DE OUDE 
                                                               (Falecida em França, em 1858)

P. Quais as vossas sensações ao deixardes o mundo terrestre?
R. Ainda perturbada, torna-se-me impossível explicá-las.
P. Sois feliz?
R. Tenho saudades da vida... não sei... experimento acerba dor da qual a vida me libertaria... quisera que o corpo se levantasse do túmulo...
P. Lamentais o ter sido sepultada entre cristãos, que não no vosso país?
R. Sim, a terra indiana menos me pesaria sobre o corpo.
P. Que pensais das honras fúnebres tributadas aos vossos despojos?
R. Não foram grande coisa, pois eu era rainha e nem todos se curvaram diante de mim... Deixai-me... forçam-me a falar, quando não quero que saibais o que ora sou... Asseguro-vos, eu era rainha...
P. Respeitamos a vossa hierarquia e só insistimos para que nos respondais no propósito de nos instruirmos. Acreditais que vosso filho recupere de futuro os Estados de seu pai?
R. Meu sangue reinará, por certo, visto como é digno disso.
P. Ligais a essa reintegração de vosso filho a mesma importância que lhe dáveis quando encarnada?
R. Meu sangue não pode misturar-se com o do povo.
P. Não se pôde fazer constar na respectiva certidão de óbito o lugar do vosso nascimento; podereis no-lo dizer, agora?
R. Sou oriunda do mais nobre dos sangues da Índia. Penso que nasci em Delhi.
P. Vós, que vivestes nos esplendores do luxo, cercada de honras, que pensais hoje de tudo isso?
R. Que tenho direito.
P. A vossa hierarquia terrestre concorreu para que tivésseis outra mais elevada nesse mundo em que ora
estais?
R. Continuo a ser rainha... que se enviem escravas para me servirem!... Mas... não sei... parece-me que
pouco se preocupam com a minha pessoa aqui... e contudo eu... sou sempre a mesma.
P. Professáveis a religião muçulmana ou a hindu?
R. Muçulmana; eu, porém, era bastante poderosa para que me ocupasse de Deus.
P. No ponto de vista da felicidade humana, quais as diferenças que assinalais entre a vossa religião e o Cristianismo?
R. A religião cristã é absurda; diz que todos são irmãos.
P. Qual a vossa opinião a respeito de Maomé?
R. Não era filho de rei.
P. Acreditais que ele houvesse tido uma missão divina?
R. Isso que me importa?!
P. Qual a vossa opinião quanto ao Cristo?
R. O filho do carpinteiro não é digno de preocupar meus pensamentos.
P. Que pensais desse uso pelo qual as mulheres muçulmanas se furtam aos olhos masculinos?
R. Penso que as mulheres nasceram para dominar: — eu era mulher.
P. Tendes inveja da liberdade de que gozam as européias?
R. Que poderia importar-me tal liberdade? Servem-nas, acaso, ajoelhados?
P. Tendes reminiscências de encarnações anteriores a esta que vindes de deixar?
R. Deveria ter sido sempre rainha.
P. Por que acudistes tão prontamente ao nosso apelo?
R. Não queria fazê-lo, mas forçaram-me. Acaso julgarás que eu me dignaria responder-te? Que és tu a meu lado?
P. E quem vos forçou a vir?
R. Eu mesma não sei... posto que não deva existir ninguém mais poderoso do que eu.
P. Sob que forma vos apresentais aqui?
R. Sempre rainha... e pensas que eu tenha deixado de o ser? És pouco respeitoso... fica sabendo que não é desse modo que se fala a rainhas.
P. Se nos fosse dado enxergar-vos, ver-vos-íamos com os vossos ornatos e pedrarias?
R. Certamente...
P. E como se explica o fato de, despojado de tudo isso, conservar o vosso Espírito tais aparatos, sobretudo os ornamentos?
R. É que eles me não deixaram. Sou tão bela quanto era, e não compreendo o juízo que de mim fazeis! É verdade que nunca me vistes.
P. Qual a impressão que vos causa em vos achardes entre nós?
R. Se eu pudesse evitá-la... Tratam-me com tão pouca cortesia...


Instruções do guia do médium

S. Luís — Deixai-a, a pobre perturbada. Tende compaixão da sua cegueira e oxalá vos sirva de exemplo. Não sabeis quanto padece o seu orgulho.

[Evocando esta grandeza decaída ao túmulo, não esperávamos respostas de grande alcance, dado o gênero da educação feminina nesse país; julgávamos, porém, encontrar nesse Espírito, não diremos filosofia, mas pelo menos uma noção mais aproximada da realidade, e idéias mais sensatas relativamente a vaidades e grandezas terrenas. Longe disso, vimos que o Espírito conservava todos os preconceitos terrestres na plenitude da sua força; que o orgulho nada perdeu das suas ilusões; que lutava contra a própria fraqueza e, finalmente, que muito devia sofrer pela sua impotência.]

[Comentário do blogueiro: Infelizmente o Orgulho e a Vaidade são os dois sentimentos que ainda norteiam grande parte da humanidade, trazendo grande ilusão e sofrimento para aqueles que aportam do outro lado da vida, sem qualquer preparo de ordem espiritual. Assim, devemos combater de todas as formas estes sentimentos negativos, enquanto encarnados, para não sermos surpreendidos após o desenlace carnal.]

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Comentário de Tiago Ciccone em 29 julho 2011 às 20:25
Obrigado pela bela mensagem. Um propósito de Kardec em intruir, que ecoa séculos após. A reforma íntima é um campo importantíssimo, no aqui e agora. E também belos comentários, os senti todos pertinentes. É hora de nos despojarmos das nossas ilusões de poder e continuarmos o alimentar da alma. Grande fim de semana a todos.
Comentário de Cyntia eliane Wawrick Fonseca em 29 julho 2011 às 18:59
Será que estamos tão longe da nossa irmã rainha??? Espero que consigamos ser apenas um pouco mais amadurecidos, dado aos conhecimentos adquiridos nesta doutrina maravilhosa. Daí a importância de sermos constantemente vigilantes, pois o orgulho ainda habita fortemente em nós, sem que tenhamos consciência.
Comentário de Cleide Sanches Pinto em 29 julho 2011 às 18:27

Pois é, como ainda somos pequenos!!! Necessitamos, a todo momento, de textos como esse para a reflexão de nossa conduta. Obrigado pela ajuda.

 

Comentário de Inacio Queiroz em 29 julho 2011 às 17:49

Interessante é pensar que foi alguém que vestiu o papel de realeza por décadas.

Agora, vai precisar de muito tempo para retirar.

A gente também corre esse risco: o pai ou mãe que não admite que os filhos cresceram e tomam rumos próprios; o chefe de empresa que carrega a chefia pra casa, pro lazer, pra toda parte; o dirigente que já não escuta os outros e acha que tem sempre razão e tudo sabe; o estudioso que acha não ter nada a aprender com as crianças e com os analfabetos; todos nós que não suportamos que alguém 'enfie a colher na nossa cozinha'.

Como se as pessoas não pudessem sempre nos surpreender, ensinando como ser outro alguém.

 

Excelente texto.

Amo Kardec.

Comentário de ॐ ツLlena -Terapia da Alma ॐ ツ em 29 julho 2011 às 14:10
Pois é... tem espiritos que nem mesmo vendo e vivenciando, que somos todos iguais perante Deus, não importando o tesouro terreno, ou o sangue azul, NÃO PERDEM A SOBERBA....
O ser humano precisa se depurar e muito ainda,diga-se isso nos dias e hj e de ontem, pois devem ter muitos que nem sequer voltaram para a sua depuração. Continuam achando que são os mesmos e ocupando o status de quando partiram daqui...
Enfim... a terra é mesmo um planeta de expiação!
Cabe a cada um aprender e ter discernimento e escolher melhorar ou não!
bjs....
Comentário de Fátima Catarina Arruda em 28 julho 2011 às 23:04

Vendo essa nossa irma, nessa situação, e nao consegue ainda enxergar a atual realidade que se encontra, e

quantos de nós ainda não conseguimos também tomar  essa conciencia, de que essa vida é apenas uma

passagem, uma benção para nos elevarmos, mas infelizmente quase sempre não conseguimos alcançar

nossos objetivos acordados antes de nossa encarnação...

bjs...

Comentário de Marta Valéria em 28 julho 2011 às 22:53

 

Olá querido Denizar, muito bom estudo.

 

Analisando a nossa querida "irmã rainha", quantos de nós em diversos momentos, ainda ostentamos esse manto de superioridade, não é mesmo?

Até mesmo nas lides religiosas queremos o reconhecimento do outro diante das "nossas obras" e vemos o tropeço e as dificuldades alheias com profunda arrogância. Temos tantos "saberes"que esquecemos da misericórdia.

Vigiar é preciso!

 

Obrigado querido amigo pela ótima reflexão.

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