Enquanto as paisagens mental e moral do homem não mudem o clima de aspirações responsáveis pelos problemas que geram, o intercâmbio obsessivo permanecerá. Dependências afetivas, necessidades emocionais e campos de vibração odientas são sustentados nos jogos dos interesses entre os desencarnados e os homens. Porque estes não se elevem espiritualmente, aqueles encontrarão ganchos, nos quais se prendem, passando de hóspedes a gerentes da casa mental que lhes cede lugar. O crescimento moral do ser é impositivo inadiável do seu processo evolutivo, que está a exigir decisão vigorosa, para ser levada adiante sem mais tardança. Os atavismos que lhe predominam, em arrastamentos comprometedores, devem ceder lugar às aspirações enobrecidas, que o atrairão para objetivos libertadores.
Ouspensky, o pensador russo, que se fez excelente discípulo de Gurdjieff, dividiu os homens em dois grupos: fisiológicos e psicológicos, para bem os situar na área das suas necessidades e aspirações. Os primeiros, seriam aqueles cujo comportamento se submete ao repouso, ao estômago e ao sexo, enquanto os outros são os que vivem conforme o sentimento e a mente. Preferiríamos considerar que há os que ainda transitam sob o comando da sua natureza animal, primitiva, aqueles que vivem sob a predominância da natureza espiritual e os que se encontram na fase intermediária, em caminho do estágio mais grosseiro para o mais sutil.
Os primeiros são homens-instinto, mais dirigidos pelas sensações, enquanto os últimos são homens-razão, comandados pela emoção. Aqueles vivem para comer, gozar, dormir, sem tempo mental para sentir os ideais de beleza e de progresso. Os outros, não obstante se utilizem das sensações que decorrem das imposições fisiológicas, cultivam os sentimentos, e as emoções sobrepõem-se aos caprichos dos prazeres fugidios e imediatos. O homem no qual predomina a natureza animal, reage sempre e com violência; detém o que tem e não reparte, em razão do egoísmo que o vitima. Aquele em que a natureza espiritual se destaca, age, porque pensa com calma, nas circunstâncias mais graves, preservando o equilíbrio; possui sem reter, multiplicando a benefício do próximo, promovendo a comunidade onde se encontra e desenvolvendo os sentimentos do altruísmo, que o felicita.
O amor, no período das dependências fisiológicas, é possessivo, arrebatado, físico, enquanto que, no dos anelos espirituais, se compraz, libertando; torna-se, então, amplo, sem condicionamentos, anelando o melhor para o outro, mesmo que isto lhe seja sacrificial. Um parece tomar a vida e retê-la nas suas paixões, enquanto o outro dá a vida e libera para crescer e multiplicar-se em outras vidas.
Os que se encontram em trânsito entre as experiências primevas e as conquistas da razão, apesar dos vínculos fortes com a retaguarda evolutiva, acalentam ideais de enobrecimento, sofrem tédio em relação aos gozos, padecem certas insatisfações e frustrações, porque já não lhes bastam as sensações fotes, exauridoras, tendo necessidade de mais altos valores íntimos, que independam do imediato, do jogo cansativo dos desejos físicos. Ambições mais nobres se lhes desenham nas áreas mentais e os desejos sofrem alteração de estrutura. Pressentem a glória do amor e a dádiva da paz, engajando-se nos movimentos idealistas, apesar das incertezas e dubiedades que os assaltam vez por outra.
Como é natural, há uma prevalência de homens-instinto nos quadros sociais da terra, em relação a um número menor de homens-razão, que se empenham por criar condições de progresso e realização em favor dos que estão atrás.
Movimentando-se entre os dois contingesntes, estão aqueles que despertam para as realidades espirituais, galgando os degraus da ascensão a duras penas.
Estagiando uma larga faixa dos Espíritos na primeira fase, suas paixões são agressivas; seus desejos, dominadores; suas aspirações, primitivas, sem as resistências morais que dão valor ético ao ser, partindo para sucessivos revides e cobranças, quando contrariados nos seus gostos ou feridos nos seus falsos brios, ou desagradados nos seus apetites… Porque em idêntica posição vibratória, disputam entre si os espólios infelizes dos interesses de que se nutrem, vivendo em intercâmbio obsessivo, quando o amor é apenas força de desejo, ou no ódio, quando cegos pela revolta e envenenados pela vingança.
Um pouco acima, os intermediários são também fáceis presas das alienações espirituais, por falta de consolidação dos ideais libertários, o que os faz recuar, tombando nos círculos das disputas rudes e alucinadas.
À medida que o homem suplanta a dependência dos vícios e se eleva, emocionalmente, acima do estômago e do sexo, terá conseguido o valioso recurso terapêutico preventivo em relação a essa parasitose infeliz, que o mantém em círculos viciosos, nas faixas mais primárias das reencarnações reeducativas.
O Espírito não foi criado por Deus para sofrer. O sofrimento é sua opção pessoal, em face da vigência do amor que felicita, em todo lugar, aguardando por ele. Todavia, como decorrência da sensualidade a que se escraviza, retarda a felicidade que lhe será destinada. Damos aqui, à palavra sensualidade, uma abrangência maior: paixão pelo comer, vestir, gozar, viver nos limites dos interesses pessoais, mantendo os sentimentos adstritos aos impositivos orgânicos, dos quais não prescinde, sem espaço mental ou emocional para a renúncia, a abnegação, a fraternidade… Enquanto vigerem aqueles arcabouços primários na personalidade, o intercâmbio com outros semelhantes é inevitável.
O mesmo ocorre, sem dúvida, entre os indivíduos que vivem as emoções da sua natureza espiritual, cuja sintonia é natural com as Fontes da Vida, de onde procede a inspiração do bem, do bom e do belo, atraindo-os para as conquistas gloriosas do amor.
Assim, é sempre conveniente recordar que a obsessão é uma ponte de duas vias: o Espírito que a transita e segue na direção do homem, somente logra passagem porque este lhe vem em busca, em face das mesmas necessidades, compromissos e grau de evolução. A ocorrência, portanto, da enfermidade obsessiva somente se dá porque ambos os litigantes são afins, sendo a aparente vítima real, carente de socorro e misericórdia. De socorro, para que adquira a paz; de misericórdia para que se desembarace do sofrimento que se alonga desde a hora em que foi ludibriado, traído e abandonado, e que, mantendo-se na injusta exigência de reparação, passa para a posição mais desditosa, que é a de algoz.
Diante, pois, de perseguidos e perseguidores, nunca se deve esquecer que o mais desventurado é aquele que se desforça, porquanto agride as Leis da Vida e gera animosidade para si mesmo. Todavia, assim procede por loucura, que decorre da infelicidade que o domina.
A terapêutica desobsessiva é, desse modo, muito complexa, envolvendo, todos aqueles que se lhe dedicam, em grave e elevado cometimento credor de carinho e respeito.

Livro: Loucura e Obsessão

Manoel Philomeno de Miranda/Divaldo Franco

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