Quem é o Espírito Santo que deveria ser enviado segundo João, 14:26?

Amigos, trago para a reflexão de todos um assunto considerado muitíssimo polêmico no meio religioso cristão, principalmente no Espírita, e que diz respeito ao tema referente à promessa da segunda vinda do Cristo ao mundo, evento este conhecido no meio cristão como sendo o da parousia, que é uma palavra de origem grega que significa “presença”.

A relevância deste assunto, particularmente para nós, os Espíritas, se justifica sim, tendo uma grande importância, apesar dos que pensam que não. Nele está a força da nossa fé religiosa depositada na ideia na qual nós sustentamos que o Espiritismo representa uma doutrina cristã, a 3º revelação de Deus aos homens, justamente aquela que foi prometida por Jesus. Creio que esta questão sobre o aspecto religioso do Espiritismo cristão não deve ser relegada para um segundo plano. Não devemos nos esquecer que o Espiritismo é uma ciência, mas, acima de tudo, uma nova doutrina ou religião que deverá se basear sempre numa fé raciocinada.

Embora existam divergências sobre este assunto, que certamente deverá ser tratado com muito cuidado, creio eu que o fortalecimento desta nossa fé religiosa, principalmente no importante papel a ser exercido pelo Espiritismo no processo de regeneração da humanidade, se dará principalmente a partir do momento em que nós não só passarmos a compreender mais perfeitamente, mas também a aceitar de forma mais lógica, que nele, no Espiritismo, o Cristianismo redivivo, se cumprem todas aquelas antigas profecias judaico-cristãs mencionadas na Bíblia, visto que tudo deveria se cumprir com base num antigo e longuíssimo planejamento divino. Logo, respeitando sempre as valiosas opiniões em contrário, acredito que procurar saber qual seria a verdadeira identidade do Espírito de Verdade e do Espírito Santo que foram mencionados nos evangelhos tem sim uma grande relevância para nós atualmente, apesar de tudo.

Neste artigo não há como se fazer uma abordagem deste importante assunto de uma forma muito aprofundada, mas eu irei tentar me fazer claro, mencionando alguns pontos principais que nortearão o caminho daqueles que desejarem estudá-lo de um modo mais detalhado posteriormente, e que assim poderão tirar as suas próprias conclusões a respeito. Tratarei mais detalhadamente deste polêmico assunto num livro que eu lançarei até o final deste ano, se Deus quiser.

Sobre a ideia a respeito de que o Espírito Santo mencionado nos evangelhos não representa, segundo o dogma católico leciona, a 3ª pessoa trinitária, que o iguala a Deus, mas sim o conjunto dos espíritos humanos, o de todas as almas ou anjos do Senhor, representando, na verdade, o entendimento de ser “um espírito, santo”, ou seja, um espírito dentre muitos outros que alcançaram a virtude da santidade ou um maior nível de elevação espiritual, vale a pena explicar que ela já foi amplamente desenvolvida pelos estudiosos Carlos Pastorino e por João Reis. Contudo, naquela passagem evangélica contida em João, 14:26, Jesus fez a menção ao envio de um determinado Espírito Santo em particular. E quem ele seria? Aqui é que está o todo mistério! E esta profecia é de suma importância para nós, os Espíritas. Quiçá, a mais importante de todas!

Vale a pena recordar a informação de que Jesus, conversando com os seus discípulos sobre a sua morte e retorno futuro (Jo 14:2-3, 18 e 28), bem como sobre a necessidade de se revelar outras coisas que não puderam ser ditas a eles naquela época, visto que não teriam a plena capacidade de compreendê-las (Jo 16:12), lhes fez então a promessa do envio de um outro Consolador, o Espírito de Verdade que o mundo não pode receber naquele momento (Jo 14:16-17). Ora, se seria enviado um outro Consolador, é porque já existia um Consolador entre eles naquela época. Mais à frente, o Mestre Jesus disse a eles que “aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito (grifo meu) (Jo 14:26), certamente se referindo um determinado Espírito, o Santo, justamente aquele que teria por missão não somente ensinar coisas novas, mas também restabelecer todas as outras coisas anteriormente ensinadas por ele ao seu verdadeiro sentido, pois elas haviam sido e seriam novamente deturpadas ao longo do tempo. Diante destas declarações de Jesus, a tradição cristã passou a lecionar que tanto o Consolador, quanto o Espírito de Verdade e o Espírito Santo, seriam então a mesma coisa: a personificação de Jesus, o Cristo, em cumprimento da sua promessa de retorno. E, desta forma, o aguardam ansiosamente retornar sobre as nuvens do céu (Mt 24:30-31).

Contudo, sem nos aprofundarmos muito neste ponto, mas falando sobre o que seria este outro Consolador, Kardec deixou bastante claro o seu entendimento ao dizer que “o (outro) Consolador é, pois, segundo o pensamento de Jesus, a personificação de uma (nova) doutrina soberanamente consoladora, cujo inspirador há de ser o Espírito de Verdade (grifo meu) (A Gênese, Cap. XVII, item 39). Logo, como o Consolador daquela época era o Judaísmo, a 1ª revelação de Deus aos homens, e que estava sendo renovado ou restabelecido à verdade primeiramente através da doutrina de João, o Batista, o precursor de Jesus (Jo 3:28), e posteriormente pela sua boa nova, o Cristianismo, que é o Judaísmo redivivo (Mt 5:17) e a 2ª revelação de Deus para a humanidade, então Jesus, naquele discurso, fez aos seus discípulos a promessa do envio futuro de uma outra revelação, a da 3ª, e que deveria vir aos homens mediante a inspiração do Espírito de Verdade. Desta forma, Kardec, de forma contrária ao dogma trinitário, separou o entendimento a respeito do que seria aquele outro Consolador, da ideia sobre quem seria aquele Espírito de Verdade.

Se aquele outro ou novo Consolador representa uma nova doutrina de origem divina, então qual seria ela? Para nós, os Espíritas, esta questão é clara e pacificada, principalmente com base no entendimento fornecido por Kardec, quando ele disse que o “Espiritismo vem, na época predita, cumprir a promessa do Cristo: preside ao seu advento o Espírito de Verdade (grifo meu) (Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. VI, item 4). Desta forma, aquela 3ª revelação veio ao mundo justamente no momento predito por aquelas antigas profecias judaico-cristãs descritas na Bíblia, e que indicavam o profético “Dia do Senhor” como sendo o momento do início do 3º milênio da era cristã, numa época a partir da segunda metade do século XIX, cumprindo assim aquela antiga promessa do envio do outro Consolador. E onde estão estas profecias que tratam daquele momento do seu envio? Elas são obtidas principalmente mediante a intepretação obtida das cronologias existentes nas antigas profecias de Daniel.

Identificamos o que seria aquele outro Consolador, mas quem seria aquele Espírito de Verdade? Aqui, novamente, há uma grande divergência de opiniões no meio Espírita. Uns entendem e lecionam que ele seria a representação daquela falange de espíritos comunicantes da revelação Espírita, os anjos do Senhor. Outros, que ele seria o espírito do antigo profeta Elias, aquele que também deveria vir. Enquanto outros alegam que ele seria o próprio espírito de Jesus, o Cristo. Novamente trazemos o entendimento de Kardec a respeito desta polêmica questão ora apresentada, quando ele, baseado não só nas informações prestadas pelo próprio Espírito de Verdade, mas também nas dos demais espíritos comunicantes, afirmou que “ele (o Espiritismo) é, pois, obra do Cristo, que preside, conforme igualmente o anunciou, à regeneração (ou à transformação) que se opera e prepara o reino de Deus na Terra (grifo meu), e que, “como é o Espírito de Verdade que preside ao grande movimento da regeneração, a promessa da sua vinda se acha por essa forma cumprida, porque, de fato, é ele o verdadeiro Consolador (grifo meu), ou seja, o verdadeiro inspirador espiritual daquela nova revelação, o Espiritismo, em cumprimento às antigas escrituras (Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. I, item 7, conjugado com A Gênese, Cap. I, item 42). Mesmo assim, ainda há os estudiosos que defendem o entendimento de que Kardec se confundiu ao compreender e lecionar que o Espírito de Verdade representa o próprio espírito do Cristo em cumprimento da sua promessa de retorno, não em carne e osso, mas em espírito (A Gênese, Cap. III, item 54, conjugado com Cap. XVII, item 45).

Mas o que tem a ver o retorno do antigo profeta Elias com toda esta questão ora apresentada? Qual o seu papel neste processo de transformação anteriormente explicado? Por que alguns estudiosos, por exemplo, entenderam que o Espírito de Verdade mencionado por Jesus poderia ter sido este específico profeta que também deveria vir? É porque existe uma antiga e importantíssima profecia existente no livro do profeta Malaquias que diz que o Senhor enviaria ao mundo o seu Anjo ou mensageiro, a fim de preparar o seu caminho (Ml 3:1). Contudo, aquele profeta deu outras extraordinárias informações, dizendo não só quem seria aquele determinado Santo, mas também qual deveria ser a natureza da sua futura missão, e, principalmente, quando ele viria ao mundo. Ele disse: “eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor; e ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais; para que eu não venha, e fira a terra com maldição (grifo meu) (Ml 4:5-6).

Naquela época, Jesus, falando sobre João, o Batista, havia explicado aos seus discípulos que ele foi quem cumpriu parcialmente aquela antiga profecia de Malaquias, sendo o seu precursor naquele seu 1º advento, dizendo: “é este (o João, o Batista) o Elias que havia de vir” (Mt 11:14). Os seus discípulos não compreenderam, à princípio, que João, o Batista, era a reencarnação do antigo profeta Elias, mas apenas depois (Mt 17:13), quando então, em outra ocasião, o Mestre lhes explicou que “em verdade Elias virá primeiro, e restaurará todas as coisas (grifo meu) (Mt 17:11), dando a eles o correto entendimento daquela antiga profecia de Malaquias que tratava, na verdade, sobre o cumprimento de duas missões distintas atribuídas a Elias, o seu Anjo ou mensageiro, ao longo do tempo: a 1ª, que havia sido exercida, naquela época em Israel, por João, o Batista; e a 2ª; que deverá ser exercida no futuro através do seu novo retorno, e que deverá se dar ANTES que se iniciasse o profético “Dia do Senhor”, que representa, na verdade, o último milênio antes do final dos tempos.

Do mesmo modo que os antigos líderes religiosos dos judeus, bem como os discípulos de João, o Batista, compreendiam e esperavam, naquela época, a vinda do Messias e de Elias (Jo 1:19-25 e Mt 11:3), baseando-se nas antigas cronologias do profeta Daniel, atualmente muitos religiosos também aguardam o segundo advento do Cristo para este momento referente ao início do 3º milênio da era cristã. Porém, a grande maioria sequer se lembra ou suspeita que o Elias, o Santo, também terá que vir juntamente com o Cristo, o Espírito de Verdade. Porém, conforme vimos, o Espírito de Verdade já veio na segunda metade do século XIX, presidindo aquele processo de transformação através da vinda do Espiritismo ao mundo. Kardec também compreendeu desta mesma forma toda esta argumentação ora apresentada, ao dizer que “Elias já voltara na pessoa de João Batista. Seu novo advento é anunciado de modo explícito. Ora, como ele não pode voltar, senão tomando um novo corpo, aí temos a consagração formal do princípio da pluralidade das existências (grifo meu) (A Gênese, Cap. XVII, itens 33 e 34). E que, “sob o nome de Consolador e de Espírito de Verdade, Jesus anunciou a vinda daquele que havia de ensinar todas as coisas e de lembrar o que ele dissera. Logo, não estava completo o seu ensino. E, ao demais, prevê não só que ficaria esquecido, como também que seria desvirtuado o que por ele fora dito, visto que o Espírito de Verdade viria tudo lembrar e, de combinação com Elias, restabelecer todas as coisas, isto é, pô-las de acordo com o verdadeiro pensamento de seus ensinos (grifo meu) (A Gênese, Cap. XVII, item 37).

Com base nas informações anteriores, vimos que Kardec não só sancionou aquele antigo entendimento a respeito da necessidade do cumprimento da 2ª parte da missão destinada a Elias, o Anjo do Senhor, a fim de que ele restabelecesse todas as coisas, sendo ele aquele específico Espírito Santo que seria enviado, conforme mencionado por Jesus (Jo 14:26), mas também deixou clara a informação de que ele deveria retornar reencarnando, com uma nova personalidade diferente da de Elias ou de João, o Batista, ao invés de exercer aquela sua 2ª missão em espírito, assim como deveria acontecer com Jesus, o Cristo, o Espírito de Verdade que inspirou aquela 3ª revelação juntamente com os demais anjos consoladores. Então, diante de todas estas informações, e sabendo que existem muitas outras argumentações contrárias a este respeito, eu lhes pergunto: se Jesus, o Cristo, já cumpriu o seu 2º advento na segunda metade do século XIX, retornando em espírito como o Espírito de Verdade, exercendo a sua missão, inspirando a vinda do outro Consolador, o Espiritismo, e presidindo o processo de transformação, então onde está a efetiva participação de Elias (ou de João, o Batista) na Codificação Kardequiana? Não caberia àquele espírito vir antes e restabelecer todas as coisas? Só restabelece quem participa! De fato, não há mensagens espirituais atribuídas nem a Elias, sequer a João, o Batista, contidas na Codificação, embora sabendo previamente que o Sr. Roustaing, contemporâneo de Kardec, tenha atribuído para a sua obra mediúnica intitulada Os Quatro Evangelhos, A Revelação da Revelação, publicada após a obra de Kardec, a coordenação e inspiração ao espírito de Elias e dos demais apóstolos de Jesus. Como eu disse, não irei adentrar aqui em maiores detalhes a respeito desta outra obra ou argumentação, mas gostaria de deixar ao leitor a informação de que ela contradiz questões apresentadas por Kardec na Codificação, e que o Codificador deixou claro que aquelas argumentações apresentadas pelo Sr. Roustaing não passaram pelo crivo da lógica, do bom senso e nem da universalidade das informações prestadas pelos espíritos.

Kardec não disse, de forma direta e explícita em sua obra, quem teria sido o Elias que deveria que vir antes. Mas, compreendendo que aquele tal Espírito Santo mencionado em João, 14:26, se refere ao espírito do antigo profeta Elias, e que ele cumpriu a 1ª parte da sua missão como João, o Batista, naquela época em Israel, juntamente com Jesus. E que, por outro lado, ele deveria retornar antes, reencarnado, a fim de cumprir a 2ª parte daquela missão a partir do início do 3º milênio da era cristã, agindo em combinação com o Espírito de Verdade, o Cristo, trazendo o outro Consolador ao mundo, o Espiritismo, eu acredito que foi justamente Kardec quem cumpriu aquela sublime missão, embora também sabendo que existem outros estudiosos que afirmem que não, baseados principalmente naquelas informações contidas tanto na obra mediúnica de Roustaing, quanto na de Vera Kryzhanovskaia, fornecida pelo espírito de J. W. Rochester, que disse que Kardec teria reencarnado como um centurião romano na época de Jesus, e, deste modo, jamais poderia ter sido a reencarnação de João, o Batista. São opiniões diferentes que devem ser respeitas. Contudo, não devemos nos esquecer que foi pedido pelo Espírito de Verdade, naquela época, a discrição de Kardec sobre o assunto, pois a sua sublime missão, por demais penosa, poderia ser prejudicada caso ele alardeasse que era a reencarnação do profeta Elias em cumprimento da profecia de Malaquias, mas que, se ele a cumprisse, como acabou fazendo, no futuro os homens saberão reconhecê-lo, cedo ou tarde, visto que pelos frutos é que se verifica a qualidade da árvore (grifo nosso) (Obras Póstumas, Segunda Parte, “A Minha Primeira Iniciação no Espiritismo”, “Minha Missão”).

O Sr. Cairbar Schutel, já no início do século passado, professou o mesmo entendimento a respeito deste polêmico assunto, dizendo que os três: Elias, João Batista e Kardec, eram um mesmo espírito, embora não tenha explicado como havia chegado a tal conclusão. Atualmente existem alguns estudiosos que também professam o mesmo entendimento, dentre eles o Sr. Sérgio Aleixo.

Wallace S. Oliveira é pesquisador, palestrante e escritor espírita em Belo Horizonte e Contagem (MG).

 

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No original grego de João, foi empregado o vocábulo "parákletos",  significando a idéia de conselheiro, defensor, encorajador e também consolador. A igreja antiga dos primeiros séculos do cristianismo concluiu ser mais apropriado, por essas qualidades,  traduzi-lo para 'Espírito Santo', a fim de dar um significado mais objetivo à essa enigmática pessoa da Santíssima Trindade.

Do ponto de vista metafísico, seria mais adequado pensar no real conceito de 'paracleto', significando o despertamento sob o influxo da evolução do Mestre interno ou Eu Superior do indivíduo, em vez da idéia embasada etimologicamente pelo pronome 'quem'.

Outrossim, sempre que uma parte da humanidade coloca-se em condição de avançar espiritualmente de forma mais rápida, cria-se o fator determinante ao aparecimento de um Avatar (uma encarnação divina), com a propriedade reconhecida de um venerável paracleto ou instrutor.

O Espírito Santo é o conjunto de Seres Ascencionados de nossa humanidade e de outras Evoluções que, no plano Átmico, distribuídos em diversas Ordens, formam a plêiade de entidades angélicas e arcangélicas em sintonia com a Mente Cósmica do Logos Solar.

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