Opinião em Tópicos

Milton Medran Moreira

                Madre Teresa

                 Para a Igreja, canonizar alguém é declarar solenemente que ele está no céu. É inscrever seu nome no “cânon” dos santos. É o que acaba de acontecer com Madre Teresa de Calcutá, a humanitária religiosa nascida na Macedônia e que, na Terra, já tinha recebido todas as homenagens devidas a pessoas reconhecidamente beneméritas como ela, inclusive o Prêmio Nobel da Paz, em 1979.                Então, é de se admitir que o Papa e sua Igreja nada mais fizeram do que chancelar para ganhar validade nas glórias celestiais um conceito antes conquistado pela freirinha no âmbito terreno. Com efeito, sua bondade, seu amor e dedicação ao semelhante fizeram dela um ícone do bem. O bem praticado também lhe garantiria o título de santa.

                Santos x hereges

                Mas, nem sempre foi assim. Outros personagens da História ganharam a auréola de santos não por sua bondade ou seu humanitarismo, mas por sua fé. Santo Agostinho defendia que os hereges tinham de ser torturados até se retratarem. E destruídos se não se retratassem. São João Capistrano, São Domingos e São Pio V só foram agraciados com as honras dos altares porque fizeram a Inquisição, capítulo da História do qual se envergonham a humanidade e a própria Igreja.  Giordano Bruno, um dos maiores livres-pensadores da História teve como inquisidor mor o cardeal Roberto Belarmino. Bruno foi morto em praça pública por suas heresias. Belarmino tornou-se santo por defender a fé cristã e punir quem a ela se opusesse.

                Fé e bondade

                Fé e bondade nem sempre andam juntas. Madre Teresa, que vivenciou o amor incondicional ao semelhante, privilegiando os mais pobres, experimentou dúvidas atrozes que abalavam suas crenças. É o que relatam seus biógrafos, a partir do resgate de cartas escritas pela missionária. Numa delas, Madre Teresa evidencia a imensa angústia pela fé que se esvaía de sua alma: "Onde está minha fé?” perguntava em escrito de seu próprio punho, confessando, a seguir: “Inclusive aqui no mais profundo não há nada, meu Deus, que dolorosa é esta pena desconhecida. Não tenho fé. Se há um Deus, perdoa-me, por favor. Quando tento elevar minhas preces ao Céu, há um vazio tão condenador...".

                Penso que essa angústia é de todos os que transitam da fé religiosa, antes confortadora e inabalável, para o livre-pensamento, que é uma aventura feita de dúvidas.

                O advogado do diabo

                Os processos de canonização na Igreja de antigamente contavam com a figura do Promotor Fidei (Pomotor da Fé). Chamado popularmente de “advogado do diabo”, cabia à autoridade religiosa para isso designada fazer o contraditório às alegadas virtudes e milagres atribuídos ao candidato a santo. João Paulo II, na década de 80, extinguiu essa figura. Desde então, tem sido mais fácil virar santo. Talvez Teresa de Calcutá, com as evidências de sua claudicância na fé, sucumbisse diante da atuação do Advocatus diaboli.

                Mas, isso é bom. Mostra que, hoje, chegam também à Igreja conceitos de que amor incondicional vale mais que fé inquebrantável. E que dúvidas são mais estimulantes do que as certezas, no processo de humanização do espírito.

(Coluna publicada nas edições de outubro/2016 dos jornais OPINIÃO, do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, e ABERTURA, do Instituto Cultural Kardecista de Santos) 

Exibições: 149

Responder esta

Respostas a este tópico

Eis aqui um bom tema. Até mesmo porque nos céus (planos superiores da Vida Una) não existem 'santos', mas Espíritos evoluídos e em evolução.

Em tempo algum houve homem ou mulher no caminho da santidade que não experimentasse as angústias da dúvida, do abandono interno ou a desilusão em relação à própria fé. Mesmo Jesus, embora espírito cósmico, vivenciou esse estado de espírito na cruz, sentindo-se abandonado internamente nos últimos momentos.

Talvez esta tenha sido para Ele a passagem mais lancinante em todo aquele processo iníquo que foi obrigado a suportar. Por que? Aqui está um dos grandes mistérios iniciáticos, pois é quando o ser humano está a sós consigo mesmo, sendo obrigado a sustentar estoicamente o seu ideal, é quando, de fato, ele cresce espiritualmente.

A prova é dificílima, estando na razão direta do mérito almejado em função do carma a ser transmutado.  

Um conselho amigo. Quando alguém na senda que está se esforçando em vencer suas limitações sentir a terrivel aridez do abandono interior, não desespere; volte seu pensamento por alguns instantes para refletir sobre as trevas que cercam aquelas Almas perdidas na imensa escuridão da ignorância  e que não viram ainda luz alguma. E apiade-se delas!

Haverá, talvez, um ponto na oinfinita senda para Deus em que esta prova não será mais necessária.

Em nossa jornada, quantas vezes ainda haveremos de perguntar... Meu Deus, Meu Deus, Porque me abandonaste?

Responder à discussão

RSS

© 2020   Criado por Henrique.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Política de privacidade  |  Termos de serviço

Free counters!