Opinião em Tópicos

 

Milton Medran Moreira

 

 

O espiritismo e as teses acadêmicas

 Talvez já se possam contar às centenas os trabalhos acadêmicos sobre espiritismo, no campo da ciência da religião, da psicologia ou das ciências sociais, realizados por mestres, doutores e pós-doutores, em nossas universidades. A maioria desses trabalhos analisa o espiritismo como crença e disserta sobre suas consequências ético-morais ou sua rica contribuição na área da ação social, no Brasil. Ótimo!

Os espíritas sonham com um pouco mais do que isso. Julgam que, diante das concepções esposadas pela teoria kardeciana acerca do espírito, de sua preexistência e sobrevivência à vida física, e de sua essencialidade com relação à natureza do ser humano, eis que sede e agente da “vida inteligente”, o espiritismo mereceria um maior reconhecimento, por exemplo, como escola filosófica.

 

Inatismo x Empirismo

Um indício de que isso possa estar começando a acontecer foi a inclusão de um texto extraído de O Livro dos Espíritos no vestibular 2016 da UNESP, uma das mais importantes universidades do país. A questão, na prova de conhecimentos gerais, quis testar os candidatos sobre um velho tema filosófico onde se contrapõem inatismo x empirismo. O inatismo, ou teoria das ideias inatas, sustentada por Platão, defende que o ser humano já nasce com determinados conhecimentos. O empirismo, de Aristóteles e de pensadores modernos como Francis Bacon e David Hume, sustenta que o homem, ao nascer, é uma “tábula rasa”, destituída totalmente de saberes e que estes lhes serão trazidos exclusivamente pelo desenvolvimento dos órgãos, a partir da experiência.

Para ilustrar o tema proposto, a prova transcreveu a questão 370 do L.E, como defensora do inatismo. Por outro lado, um texto de Nelson Jobim, publicado na revista Superinteressante, fazia referência a estudos que atribuem ao desenvolvimento do lobo temporal esquerdo a aptidão de certas pessoas para a música. Diferentemente, pois, de aptidão prévia do espírito, o conhecimento teórico da música estaria ligada a causas orgânicas, a serem desenvolvidas pela experiência.

 

Repercussão entre intelectuais espíritas

A transcrição de uma questão inteira de O Livro dos Espíritos em prova de vestibular suscitou interessantes comentários de um grupo de pensadores espíritas brasileiros ligados à CEPA – Confederação Espírita Pan-Americana -, que costumam trocar ideias via Internet, pelo aplicativo What’sApp. A juíza de Direito Jacira Jacinto da Silva (São Paulo/SP) e o advogado Homero Ward da Rosa (Pelotas/RS) saudaram o fato de, fugindo ao habitual, o espiritismo haver sido tratado ali não como uma crença, mas como categoria filosófica. O ex-ministro da Saúde, médico Ademar Arthur Chioro dos Reis (Santos/SP), enfatizou que a questão atesta a forte inserção do espiritismo no contexto cultural brasileiro, especialmente da classe média, à qual pertencem professores universitários. E o professor Herivelto Carvalho (Ibatiba/ES) viu avanço no fato de o inatismo, normalmente tratado como mera questão teológica pelos acadêmicos, ter sido ali apresentado como um princípio filosófico.

 

O espírito e suas conotações filosóficas

Allan Kardec, que nunca fez das propostas espíritas temas de proselitismo religioso, escreveu que se o espiritismo representava um conjunto de verdades ele iria se impor por si próprio, “pela força das coisas”. A circunstância, contudo, de haver sido divulgado e tomado como uma nova religião redundou em escasso interesse de seu estudo de parte de intelectuais afeitos à reflexão filosófica. Mas, o espiritismo, sem ser uma religião, toca diretamente em questões que dizem respeito ao espírito, sua natureza e sua abrangência. Resgata questões de genuíno caráter filosófico, como esta das ideias inatas, presente no pensamento de grandes filósofos idealistas da antiguidade à modernidade. Diga-se, aliás, de passagem que, de há muito, o “espírito”, ou “consciência”, como preferem chamá-lo, contemporaneamente, estudiosos da física quântica, deixou de ser a abstrata e misteriosa “alma” das religiões para se firmar como concreto objeto de estudo das ciências humanas.

(Coluna publicada nos jornais CCEPA OPINIÃO, do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre e ABERTURA, do Instituto Cultural Kardecista de Santos, edições de janeiro/fevereiro-2016.)

 

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