Nos idos de 1970, entre uma partida e outra da copa do mundo, discutíamos na mocidade as relações ideológicas entre Marx e Kardec.  Além de consulta a obras e biografias de um e outro, servíamo-nos do recém-lançado em português "O Homem e a Sociedade numa Nova Civilização", do filósofo argentino Humberto Mariotti (relançado na década de 80 com o título original, "Parapsicologia e Materialismo Histórico", porém com algumas "correções" que na verdade são "incorreções").  Mas, não é da copa nem do Mariotti que vou falar; isso são apenas filigranas para propagandear o livro.  É que isso tudo me lembrou que um dos jovens presentes às nossas discussões aventou a hipótese de que o Sr. M..., citado em "Obras Póstumas", fosse o Karl Marx.  Essa citação aparece no capítulo  "Primeira revelação da minha missão", quando Kardec relata duas sessões; a primeira,  na casa do Sr. Roustan, em 30.04.1856, sendo médium a Srta Japhet;  a outra, na casa do Sr. Baudin, em 12 de maio do mesmo ano. Bem, depois de uma breve pesquisa, concluímos que não haviam evidências históricas;  ao contrário, haviam sim muitos indícios da  impossibilidade do encontro; e não se falou mais nisso.

Ultimamente, porém, a web tem sido bombardeada com textos afirmando que "Marx e Kardec eram amigos" e "frequentavam juntos as sessões de mesas girantes".   No youtube há um palestrante afirmando categoricamente tal encontro, e ainda jactando-se de ser o primeiro a encontrar as evidências,  "lá em Paris",  e revelar tal novidade ao povo brasileiro.  Como decepcionante confirmação,  apenas cita o que o Leymarie publicou nas Obras Póstumas em 1890, conhecido de  nossa gente desde que o Guillon Ribeiro o traduziu há muitas décadas; além de dar a informação errada de que "Marx estava exilado na França nessa época".

Vamos aos fatos históricos.  Em 1856 Marx morava em Londres, tinha enormes dificuldades para manter-se, a si  e a à família, o fazia com a ajuda de seu amigo Engels e com bicos a jornais, além de sofrer enormemente com a saúde abalada, o  que dificultaria qualquer viagem, ainda mais para o outro lado do canal.  Ele havia sido expulso de Paris em 1845; foi viver em Bruxelas, na Bélgica, de onde foi expulso em 1848; voltando à Alemanha de onde foi expulso em 1849;  tentou voltar a Paris mas o governo francês o impediu de fixar-se ali; então, no mesmo ano,  1849, com a ajuda de amigos, rumou para o exílio definitivo em Londres.  Era, em 1856, já um lider comunista bastante conhecido, não passaria, portanto, incógnito na Paris que vivia sob a ditadura de Napoleão III,  onde poderia ser até preso.

Por outro lado, vejamos alguns traços do perfil do Sr. M..., traçados por Kardec:. "O Sr. M..., que assistia àquela reunião, era um moço de opiniões radicalíssimas, envolvido nos negócios políticos e obrigado a não se colocar em evidência.  Acreditando que se tratava de uma próxima subversão, aprestou-se a tomar parte nela e a combinar planos de reforma.  Era, aliás, homem brando e inofensivo".  Algumas dessas coisas até poderiam bater com Marx; mas nunca o "homem brando e inofensivo".  Muito menos seria ele alguém que precisasse de conversa com espíritos para "acreditar em alguma subversão e aprestar-se a tomar parte".  A essa altura, ele e Engels já haviam lançado o manifesto comunista e fundado a Liga dos Comunistas (a partir da Liga dos Justos, que renomearam); portanto, eles FAZIAM as subversões, não apenas "tomavam parte nelas".  Para completar, na sessão do dia 12 de maio, o próprio Espírito Verdade teria dito sobre o Sr. M...: "Muito ruído.  Ele bem boas idéias; é homem de ação, mas não é uma cabeça".  Marx, por seu lado, era a PRINCIPAL CABEÇA do socialismo científico que, naquela época e em quase todas as instâncias, substituía o socialismo utópico, dos quais muitos adeptos integravam a equipe de Kardec.  Entre "ser uma cabeça" e "ser um homem de ação", qualquer historiador colocaria Marx na primeira categoria;  ao contrário do Sr. M... das "Obras Póstumas".

Pode até ser que o palestrante do youtube tenha razão.  Eu não creio.   Só vejo nisso uma precipitação do "pesquisador" criando, a partir de uma simples inicial,  uma história.

 

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