(Esta é uma cópia da mensagem postada na seção de blogs em 26/5/11)

 

Henrique Régis perguntou em 25/5/11 a opinião dos participantes sobre o aborto. O que vou expor é minha opinião inspirada pela Antroposofia; não se pode dizer que ela própria tenha essa opinião. Para tratar desse assunto, é necessário abordar inicialmente certos fatos.

Em primeiro lugar, a vida humana não é um acaso, como quer fazer crer a ciência materialista. Quando nasce uma criança, o que está ocorrendo é a encarnação de uma individualidade espiritual humana, comumente chamada na Antroposofia de Eu. Cada ser humano tem seu Eu, que é seu membro essencialmente espiritual; ; na trimembração corpo-alma-espírito, ele corresponde aproximadamente ao último membro. É por termos esse Eu que podemos captar, por meio de nosso pensamento, as verdades espirituais, como por exemplo os conceitos que existem por detrás de qualquer objeto. Quando olho para este aparelho aqui na minha frente, digo que ele é um computador – com isso, estou entrando em contato com a essência não física desse objeto, seu conceito. Toda a matemática é também um exemplo da capacidade de o ser humano entrar em contato com conceitos não físicos. Por exemplo, todas as pessoas com uma certa cultura conhecem uma das definições possíveis de circunferência perfeita: “o lugar geométrico de todos os pontos equidistantes de um ponto dado, o seu centro”. No entanto, jamais alguém viu fisicamente uma circunferência perfeita; por exemplo, a borda de um copo é somente uma aproximação dela, pois se examinarmos essa borda ela não será uma linha ideal sem espessura, e terá infinitas irregularidades. Ao pensar na circunferência perfeita, o Eu entra em contato com o conceito puro correspondente, existente apenas no mundo espiritual. Os animais não têm esse Eu; por isso jamais uma abelha pensou: “vamos experimentar uma colmeia com favos pentagonais?” Elas simplesmente não conseguem atingir o conceito de um heptágono; constróem seus favos hexagonais por puro instinto. Os instintos estão em um membro da constituição não física bem “abaixo” do Eu.

É muito importante entender que com nossos sentimentos não captamos verdades espirituais,. Nossos sentimentos são individuais, subjetivos, e expressam, no fundo, uma atração ou uma repulsa, traduzidos por simpatia ou antipatia com relação a algo, e são devidos à nossa alma, e não ao nosso Eu. Com nossos sentidos físicos, nós percebemos objetivamente o mundo físico ao nosso redor; com o Eu podemos perceber objetivamente o mundo espiritual.

Todos os membros inferiores do ser humano desaparecem após a morte física; depois de algum tempo permanecem, no mundo espiritual, apenas o Eu e poucos restos de nossos membros não físicos que dele se desligam. Em circunstâncias especiais, certas pessoas podem entrar em contato com esses restos, captando detalhes da vida e de características passadas de uma pessoa morta. Não se trata, em absoluto, de uma incorporação do Eu dessa pessoa morta.

Normalmente, depois da morte, em geral após centenas de anos no mundo puramente espiritual, o Eu sente um desejo de voltar à Terra, para continuar seu aperfeiçoamento e reparar males que tenha cometido na última encarnação. O processo de reencarnação é ajudado por entidades espirituais muito elevadas, preparando o carma do futuro encarnado, que fica impregnado em seu inconsciente, levando-o às situações em que pode continuar a se desenvolver. O desenvolvimento humano dá-se essencialmente aqui no mundo físico, onde podemos errar e portanto ter liberdade. A propósito, o carma de uma pessoa faz com que, durante sua vida, ela se dirija inconscientemente a certas situações; o que ela realiza nessas situações, se feito conscientemente, depende dela e, portanto, o carma não contradiz o livre arbítrio.

Portanto, é esse Eu que não desaparece e se encarna em cada nova encarnação. Sem se compreender o que no ser humano se encarna, e como é esse processo, não se pode compreender realmente o que é reencarnação e carma. Rudolf Steiner chama a atenção para o fato de que o a cultura ocidental foca exclusivamente cada personalidade, isto é, cada reencarnação, e não a individualidade que se reencarna. Ele diz mais: se não se leva em conta as vidas anteriores de uma individualidade, é impossível compreender certos fatos da vida de uma pessoa. Para ilustrar isso, e introduzir na humanidade uma nova conceituação de reencarnação e carma, ele deu inúmeros exemplos interessantíssimos de várias reencarnações de certas individualidades.

Uma das preparações para a encarnação é a escolha dos pais. Obviamente, se se admite como hipótese de trabalho que a vida humana tem um sentido, tanto o nascimento quanto a morte não podem ser acasos, como postula a ciência materialista. O casal escolhido pelo Eu que está em processo de encarnação deve ser aquele que, pela sua constituição física e anímica, bem como pelo seu ambiente de vida, melhor permite que aquele Eu se desenvolva. Muitas vezes, essa preparação remonta aos avós, bisavós etc. Pode-se imaginar a complexidade que é envolvida nesse processo; por isso entidades espirituais muito elevadas precisam ajudá-lo.

Agora podemos adentrar a questão do aborto. Um aborto provocado significa a interrupção do processo de encarnação de um Eu. Como estava há muito tempo sendo preparado para essa encarnação, o aborto é um acontecimento trágico para o Eu que queria se encarnar e, dependendo de sua missão, talvez para a comunidade que deixará de recebê-lo, ou até mesmo para o mundo. Temos que ter confiança no mundo espiritual, e nos dizer: uma gestação é algo muito importante para a individualidade que está se encarnando; quem somos nós para sabermos melhor do que os mundos espirituais se ela deve ser impedida de vir à Terra nas condições que escolheu?

Assim, a menos de casos extremos como perigo físico, uma visão antroposófica do ser humano deve levar à conclusão de que não se deve praticar o aborto. Ele significa a interrupção de um processo muito longo e complexo, que não poderá se repetir com a mesma precisão se o Eu for obrigado a procurar outros pais e outra condições de vida. Até mesmo o momento do nascimento pode ser importante; desse ponto de vista, programar um parto com cesárea é absolutamente inadequado. Aliás, muitos dos desajustes pessoais crescentes devem-se a uma dificuldade de uma encarnação adequada, isto é, o Eu não encontra as condições ideais para seu desenvolvimento; pode, por exemplo, não ajustar-se ao corpo físico que herdou e que não era o previsto inicialmente, pois foi necessário procurar outros pais e outro tempo. E por falar em desajustes, parece que mães que abortam, às vezes sofrem um abalo psicológico muito grande; parece-me que seu subconsciente “sabe” que elas cometeram um ato indevido.

De meu ponto de vista, a questão do aborto é extremamente delicada, pois envolve a mãe ou os pais e aspectos legais. Eu teria a tendência a dizer que apenas a mãe ou os pais deveriam decidir se provocam ou não um aborto; essa seria uma decisão que eles deveriam tomar em liberdade. Essa decisão dependerá de seus conhecimentos e sentimentos. No entanto, do ponto de vista legal, obviamente todos somos contra matar pessoas, e deve haver leis contra isso, mas será que se deve considerar o feto como um ser humano? Existem várias concepções a respeito. Segundo Rudolf Steiner, o Eu liga-se ao feto ao redor do 17o dia após a fecundação e, portanto, é a partir dessa data que se tem realmente um ser humano em processo de desenvolvimento. A ciência materialista considera uma pessoa morta se não tem atividade cerebral neuronal, portanto define o começo da vida humana quando o feto mostra essa atividade, o que se dá aparentemente ao redor de 6 semanas de gestação, sendo que aos 5 meses ela é desorganizada, e só aos 6 meses mostra alguma organização, segundo o “Handbook of Clinical Child Neuropsychology”. A Igreja Católica considera que o feto é um ser humano desde a fecundação, o judaísmo talmúdico apenas no momento do nascimento, e certas interpretações rabínicas após o 13o dia de gestação (ver http://8e.devbio.com/article.php?id=162). Vemos por aí que existem várias concepções na questão de se considerar o feto um ser humano. Portanto, é impossível determinar uma data a partir da qual eliminar o feto seria um crime, pois ela depende da visão de mundo de cada um.

Provavelmente, se uma mãe é antropósofa, não provocará um aborto por questões financeiras ou sentimentais, pois levará em conta a tragédia que isso significa para o Eu que quer se encarnar. Ela também considerará que quaisquer dificuldades que espera encontrar com seu filho ou filha faz parte do desenvolvimento desse Eu que está se encarnando ou, então, faz parte de seu próprio desenvolvimento. Às vezes um Eu se encarna sacrificando-se apenas para proporcionar à família que vai adentrar certas experiências que ela necessita. Assim pode-se compreender, por exemplo, certos casos de síndrome de Down: o amor que irradia uma dessas crianças e a dedicação altruísta que ela exige produz profundas modificações nos membros de uma família. Um aborto de uma dessas crianças privará essas pessoas de uma vivência provavelmente necessária para o seu desenvolvimento. Um outro caso relativamente comum é uma criança, indesejada durante a gestação, passar a ser muito amada e se reconhecer como foi importante sua vinda, tanto para ela como para a família.

Finalmente, gostaria que cada leitor meditasse um pouco sobre o seguinte: como teria sido se ele tivesse sido abortado?

Tags: aborto, antroposofia, reencarnação

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Respostas a este tópico

ótima resposta, Valdemar ! Grande abraço, Henrique

 17 dias após a fecundação significaria aproximadamente 3 dias de atraso menstrual. O embrião já teria um coração batendo em seu peito no décimo oitavo dia.  Mas se não podemos afirmar com absoluta certeza quando começa a vida, não deveríamos colocar que a vida não deveria ser interrompida em nenhum estágio, sob o risco de 50% de estarmos tirando a vida de um ser humano indefeso.
Colocar arbitrariamente um momento onde a vida humana começaria seria coisificar o ser que existiria antes do momento arbitrado. A qual espécie pertenceria o ser que a mulher carrega em seu ventre? O zigoto humano, a mórula humana, a blástula humana não são seres vivos que pertencem a raça humana? Se não são seres vivos a vida pode surgir de algo morto?
Matar uma criança destruiria o adolescente, o adulto (com sua prole e realizações) e o idoso que esta criança se tornaria.
Do mesmo modo, matar o zigoto destruiria o embrião, o feto e a criança que este zigoto se tornaria.
Se há alguma dúvida cabe a quem afirma que a vida começa em um momento distinto da fecundação provar sua tese sem a menor sombra de dúvida, ou estaria arbitrando sem provas científicas um momento onde matar um ser humano indefeso e inocente não seria um crime contra a humanidade. Se o embrião (ou o zigoto!) poderão ser condenados à morte pelo crime de não ser considerado humano devemos lembrar a máxima do direito penal: " EM DÚVIDA DEVEMOS JULGAR EM FAVOR DO RÉU!"
Quanto à tendência a dizer que "apenas a mãe ou os pais deveriam decidir se provocam ou não um aborto; essa seria uma decisão que eles deveriam tomar em liberdade." me faz pensar que está embutida neste pensamento que o embrião humano não é considerado um ser humano.
Vamos colocar a frase sob outro ângulo: vamos trocar a palavra "aborto" por "matar o filho recém-nascido" e vejamos se há lógica em aceitar que os pais deveriam decidir se matam ou não seu filho recém-nascido em liberdade:

(...) "apenas a mãe ou os pais deveriam decidir se provocam ou não A MORTE DE SEU FILHO RECÉM-NASCIDO; essa seria uma decisão que eles deveriam tomar em liberdade."
Faz sentido? Ou na frase anterior não está implícito que o ser humano em estágio de vida intra-uterina é menos humano e portanto sua vida está disponível à vontade dos pais? Matar um ser humano dentro de ventre materno é menos assassinato do que matá-lo após o seu nascimento?
Quando começa a vida humana? Vamos esquecer a filosofia e a religião, pois elas são subjetivas e vamos nos ater à ciência: 
Segundo Keith L. Moore, Embriologia Clínica, 9ª Edição. (Página 13-capítulo 2):
"O desenvolvimento humano inicia-se na fecundação, quando um espermatozoide se une ao ovócito, para formar uma única célula, o zigoto. Esta célula totipotente e altamente especializada marca o início de cada um de nós como indivíduo único."

Destruir um ser que vive chama-se matar.
O embrião é um ser vivo. O embrião humano é um ser humano.
Se o embrião humano é um ser vivo e é um ser humano, que nome deveríamos dar ao ato de matá-lo?

Gostei, Valdemar, de quase tudo o que você comentou, porém achei incoerentes os ante-penúltimo e penúltimo parágrafos.

 17 dias após a fecundação significaria aproximadamente 3 dias de atraso menstrual. O embrião já teria um coração batendo em seu peito no décimo oitavo dia.  Mas se não podemos afirmar com absoluta certeza quando começa a vida, não deveríamos colocar que a vida não deveria ser interrompida em nenhum estágio, sob o risco de 50% de estarmos tirando a vida de um ser humano indefeso?
Colocar arbitrariamente um momento onde a vida humana começaria seria coisificar o ser que existiria antes do momento arbitrado. A qual espécie pertenceria o ser que a mulher carrega em seu ventre? O zigoto humano, a mórula humana, a blástula humana não são seres vivos que pertencem a raça humana? Se não são seres vivos a vida pode surgir de algo morto?
Matar uma criança destruiria o adolescente, o adulto (com sua prole e realizações) e o idoso que esta criança se tornaria.
Do mesmo modo, matar o zigoto destruiria o embrião, o feto e a criança que este zigoto se tornaria.
Se há alguma dúvida cabe a quem afirma que a vida começa em um momento distinto da fecundação provar sua tese sem a menor sombra de dúvida, ou estaria arbitrando sem provas científicas um momento onde matar um ser humano indefeso e inocente não seria um crime contra a humanidade. Se o embrião (ou o zigoto!) poderá ser condenado à morte pelo crime de não ser considerado humano devemos lembrar a máxima do direito penal: " EM DÚVIDA DEVEMOS JULGAR EM FAVOR DO RÉU!"
Quanto à tendência a dizer que "apenas a mãe ou os pais deveriam decidir se provocam ou não um aborto; essa seria uma decisão que eles deveriam tomar em liberdade." me faz pensar que está embutida neste pensamento que o embrião humano não é considerado um ser humano.
Vamos colocar a frase sob outro ângulo: vamos trocar a palavra "aborto" por "matar o filho recém-nascido" e vejamos se há lógica em aceitar que os pais deveriam decidir se matam ou não seu filho recém-nascido em liberdade:

(...) "apenas a mãe ou os pais deveriam decidir se provocam ou não A MORTE DE SEU FILHO RECÉM-NASCIDO; essa seria uma decisão que eles deveriam tomar em liberdade."
Faz sentido? Ou na frase anterior não está implícito que o ser humano em estágio de vida intra-uterina é menos humano e portanto sua vida está disponível à vontade dos pais? Matar um ser humano dentro de ventre materno é menos assassinato do que matá-lo após o seu nascimento?
Quando começa a vida humana? Vamos esquecer a filosofia e a religião, pois elas são subjetivas e vamos nos ater à ciência: 
Segundo Keith L. Moore, Embriologia Clínica, 9ª Edição. (Página 13-capítulo 2):
"O desenvolvimento humano inicia-se na fecundação, quando um espermatozoide se une ao ovócito, para formar uma única célula, o zigoto. Esta célula totipotente e altamente especializada marca o início de cada um de nós como indivíduo único."

Destruir um ser que vive chama-se matar.
O embrião é um ser vivo. O embrião humano é um ser humano.
Se o embrião humano é um ser vivo e é um ser humano, que nome deveríamos dar ao ato de matá-lo?

Gostei, Valdemar, de quase tudo o que você comentou, porém achei incoerentes os ante-penúltimo e penúltimo parágrafos.

A frase "é impossível determinar uma data a partir da qual eliminar o feto seria um crime, pois ela depende da visão de mundo de cada um." é extremamente perigosa, pois envolve novamente a arbitrariedade. E se alguém arbitrar que um recém-nascido ainda não é um ser humano? E se alguém arbitrar que um judeu ou um negro não são seres humanos? (como já aconteceu há muito pouco tempo...) E se alguém arbitrar por qualquer razão que você leitor não é humano, poderia ele tirar sua vida dependendo da visão do mundo daquele para o qual sua vida não é conveniente?

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