(Este artigo estava na seção de Agricultura Biodinâmica no site da Sociedade Antroposófica no Brasil. Infelizmente fui excluído da função de webamsater  daquele site e da participação da transição dele para um novo formato em um novo provedor. Assim, o artigo em questão desapareceu do novo site, de modo que transcrevo-o aqui; ele continha certos vínculos para o antigo site, que também não funcionam mais, de modo que os excluí. V.W.Setzer, em 3/12/13.)

Agricultura e sustentabilidade

Valdemar W. Setzer

www.ime.usp.br/~vwsetzer

23/10/11


Henrique Régis, o coordenador do blog Espirit Book, pediu-me para escrever sobre agricultura e sustentabilidade. Existe uma agricultura antroposófica, isto é, uma das aplicações da Antroposofia,
chamada de Agricultura Biodinâmica (ABD), introduzida por Rudolf Steiner em 1924 [1]. Desde aquela época, inúmeras fazendas que usam o método de cultivo biodinâmico (BD) têm sido formadas no mundo todo, havendo várias no Brasil. Um caso digno de nota é o arroz Volkmann, de Sentinela do Sul, RS (www.volkmann.com.br) que, aliás, traz o selo Demeter que indica, no mundo todo, um produto genuinamente BD. Muito se tem falado da excelência dos vinhos BDs (apesar de a Antroposofia ser contra o uso de bebidas alcoólicas, por prejudicarem hoje em dia o desenvolvimento espiritual pessoal). Provavelmente muitos dos leitores já viram nos invólucros de produtos agrícolas a marca IBD, do Instituto Biodinâmico, que certifica produtos orgânicos e BDs; ele tem as características de integridade de todas as iniciativas antroposóficas.

Em 1971, nos EEUU, assisti uma palestra do presidente da associação americana de agricultores orgânicos, e lhe perguntei o que achava da ABD. Ele disse "É o máximo em agricultura orgânica."
Por que será? A distinção está nos fundamentos espiritualistas antroposóficos da ABD, a maneira como a terra, as plantações e os animais são tratados e o fato de que cada fazenda tem, como tudo na Antroposofia, o ser humano como centro. Se for feita uma visita a uma fazenda BD, como por exemplo a Estância Demétria em Botucatu, SP, a pioneira no Brasil, e se falar com os agricultores,
logo notar-se-á algo muito especial: o amor e respeito que todos os que trabalham numa fazenda BD têm pela terra, pelas plantas e animais, e o fato de sempre se constituírem em uma comunidade
harmônica de trabalho, que oferece dignidade e cultura para todos.Em particular, obviamente não são usados adubos, pesticidas e herbicidas químicos, e muito menos transgênicos. O ideal é que as sementes sejam produzidas na própria fazenda,para evitar origens desconhecidas. Mas, diferente dos cultivos orgânicos, nos BD usam-se métodos específicos para literalmente curar a terra, e há uma integração entre pecuária e agricultura, para que todo o adubo seja, na medida do possível,
originário da própria fazenda. Além disso, é seguido um calendário agrícola que leva em conta as influências cósmicas que ocorrem durante cada ano. O cuidado e o carinho com a terra são tão grandes que, na Demétria, organizaram-se bairros residenciais em volta dela para proteger seus campos e riachos da contaminação pelos inseticidas e adubos dos vizinhos.

O Brasil é o maior consumidor de pesticidas do mundo. Estamos envenenando nossas terras e sendo literalmente envenenados por eles, pelos herbicidas e adubos químicos – basta ver, por exemplo, frutas sendo vendidas sem terem sido lavadas para se ver nelas a quantidade de resíduos (ilegais) dos inseticidas. No Sacolão de Santo Amaro, em São Paulo, onde compro o que não conseguimos de produtos orgânicos e BDs, costumo apontar para mangas, horrorosamente brancas de inseticidas, e dizer para algum colega freguês: "Olhe só, esqueceram de pôr manga no inseticida!". Fiquei estarrecido ao visitar em 2002 a região serrana no Rio Grande do Sul e ver vinhedos totalmente brancos de inseticidas, com os galões desses últimos espalhados pelo chão. Sempre que compro frutas examino cada uma para ver se ela apresenta esses resíduos, e gosto de comprar no sacolão pois lá não estão as maiores e mais bonitas – sempre desconfio de verduras e frutas grandes e lindas. Compare-se uma maçã ou laranja orgânica com uma normal para se ver a diferença de aspecto. É uma lástima que as pessoas prefiram o que é bonito e não o que é saudável – e com muito mais gosto! É muito ilustrativo comparar a cor de uma cenoura de cultivo BD com outra de cultivo tradicional – nós perdemos a noção do que deveria ser a cor "cenoura"! Em particular, fico sempre contente quando encontro um verme dentro de uma fruta, sinal de que não houve muito tratamento. Lembrem-se que estamos no Brasil, onde praticamente não há fiscalização e, se a há, os fiscais são muitas vezes corrompidos pelo capital. Por exemplo, vejam-se as queimadas, essa maneira criminosa de limpar a terra,pois vai destruindo seus nutrientes e tornando-a cada vez mais ácida. As localizações das queimadas são perfeitamente detectadas pelo sistema por satélite desenvolvido pelo INPE em São José dos Campos, SP; simplesmente não se faz praticamente nada para evitá-las e para multar e prender quem as produziu. Aliás, fui informado por um dos pesquisadores do INPE sobre um dos truques usados pelos agricultores: colocam fogo em suas matas e logo vão correndo fazer um Boletim de Ocorrência. na delegacia de polícia mais próxima dizendo que alguém tinha posto fogo em suas terras... Isso é o Brasil! Ignorância e egoísmo matam.

Sustentabilidade quer dizer não estragar o meio ambiente do qual dependemos, pelo contrário, deveríamos melhorá-lo, pois ele já foi em grande parte contaminado ou destruído. A industrialização da agricultura, e a invasão nela do capitalismo selvagem, egoísta e totalmente materialista, significa retirar dos produtos sua qualidade e só se pensar em quantidade – por exemplo, usando-se como critério de eficiência a produção por hectare plantado, ignorando-se totalmente a qualidade do produto, bem como o custo para produzi-lo. Os terríveis transgênicos são uma consequência dessa mentalidade – estamos mudando a natureza introduzindo seres que jamais existiram nela, como se tivéssemos sabedoria suficiente para suplantar a da própria natureza que, para qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade, mostra uma sabedoria infinita, muito maior daquilo que nosso parco conhecimento pode apreender. Dessa maneira, estamos prejudicando a nossa própria sobrevivência, isto é, estamos nos tornando insustentáveis. Mas isso também ocorre com o próprio solo, que vai perdendo sua vida, representada tão bem por suas bactérias e insetos; por outro lado, os mananciais vão sendo envenenados, o que está tornando insalubre a água em muitas regiões do globo. Nossa cultura de base, a agricultura, está tornando nosso planeta insustentável! A Terra não é um objeto, muito menos artificial – é um organismo vivo, e assim deveria ser tratada, e para isso deveríamos desenvolver para com ela um profundo respeito e veneração.

Rudolf Steiner disse uma vez que o tipo de agricultura que se praticava em sua época estava retirando toda a espiritualidade dos alimentos, o que prejudicava enormemente o desenvolvimento espiritual de cada pessoa. E isso foi no começo do século passado, imagine-se hoje como está
essa situação!

Aos que dizem: "Mas os produtos orgânicos e BDs são muito mais caros!" gostaria de perguntar: "Quanto vale sua saúde, física, anímica e espiritual?" A última economia que se deveria fazer é em saúde, alimentação e educação.

Para maiores informações, artigos, entrevistas e vídeos sobre ABD, veja-se http://www.sab.org.br/portal/agricultura-biodinamica.

[1] Steiner, R. Fundamentos da Agricultura Biodinâmica. GA (obra completa) No. 327. Trad. G. Bannwart. São Paulo: Editora Antroposófica, 3ª ed. 2010.

 

Tags: Angtroposofia, agrticultura, biodinâmica, biodinâmicos, orgânicos, produtos, sustentabilidade

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Respostas a este tópico

ótimo tema para troca de ideias e debate !

Acho que o problema maior e a ajuda que se da ao agricultor, trabalho com café, estando ele na pior situaçao de preço dos ultimos tempos com custo de 340 a saca de 60 kg, e so pagam 240 reais, como trabalhar bem a terra se independe ser organico ou nao o preço é o mesmo? nao temos subsidios que ajudem a manter o agricultor na fazenda, se enterram em dividas nos bancos com a aposta que dias melhores virão, enchergo essa situaçao com dividas karmicas da propria cafeicultura, e da propria agricultura do país que nao tem apoio. 

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