Abaixo a Culpa!

Cristina Sarraf, Jornal do Cem

Estudando o tema Livre Arbítrio, em O livro dos Espíritos de Allan Kardec, acabamos por perceber que a culpa é algo que já pode ser deixado de lado, ou ir sendo deixado de lado, porque nosso entendimento amadureceu o suficiente para verificar que não é um ensino espírita; e também, o quanto cultivar ou guardar a culpa, cria problemas internos e impede a alegria de viver, que é responsável por um crescimento interior mais rápido, saudável e eficiente.

O raciocínio é apresentado da seguinte forma:

Todos possuímos arbítrio, o Livre Arbítrio, o qual vai sendo usado mais profundamente, conforme amadurecemos. Ou seja, desenvolve-se conforme a evolução espiritual;

Inicialmente, nas fases primeiras de nossa existência como Espíritos, somos guiados por Espíritos mais desenvolvidos. Na medida em que vamos evoluindo, automaticamente vamos exercendo as decisões, opções, escolhas, e nos assenhoreando de nós mesmos;

A partir daí, vai havendo uma espécie de alternância de direcionamento na nossa existência, porque passamos a ter que decidir ante as influências variadas que recebemos, perante as quais somos livres para ceder ou resistir, mas que puxarão opções favoráveis ou desfavoráveis para nós mesmos. Assim, nos inclinamos ora para o que chamamos “bem”, ora para o que chamamos “mal”.

As escolhas, as opções, equivocadas ou más, que possamos fazer, sempre dependem de nossa vontade e do grau de discernimento que temos, no momento. O discernimento nasce do uso do livre arbítrio. Acertando ou errando, vamos descobrindo como a vida funciona e discernindo o que é melhor para nós.

Torna-se então, claro, o absurdo que é culpar-se pelo que escolheu ontem, na medida em que ontem não existiam as condições que hoje temos. Óbvio que reconhecer um erro nos deprime, envergonha e pede concerto, mas, o que sabemos e podemos hoje, não sabíamos nem podíamos ontem. Estamos evoluindo…
Apesar da lucidez da análise feita, alguém poderá perguntar: é… mas, e aquilo que fazemos hoje, já sabendo que não é bom. A resposta é a seguinte: seja o que for que escolhamos hoje, mesmo repetir erros ou não perceber as consequências do que já conhecemos, ainda assim, estamos apenas mostrando que conhecer não é saber e que saber não é fazer. Ou seja, a escolha demonstra o nível de maturidade real que temos, apesar das informações recebidas ou do desejo de acertar.

Sim, buscar melhorias é preciso. Estudar, estabelecer boas ligações espirituais, pensar um pouco antes de tomar certas decisões, trocar idéias com pessoas mais equilibradas, são procedimentos inteligentes e oportunos. Mas sempre sua escolha, decisão, opção, reflete seu estado íntimo e sua capacidade, no momento em questão. Ontem e amanhã são diferentes do hoje.

A culpa revela um mau entendimento sobre como você funciona e um alto grau de vaidade, pois a pessoa não se dá a naturalidade de errar, de equivocar-se, na soberba pretensão de ser infalível.

A culpa também tem o mau hábito de tomar para si toda a responsabilidade pelas reações das pessoas frente aos nossos atos, como se fosse possível dominar e controlar os outros, para que sejam como gostaríamos. Por isso, passamos a não ser nós mesmos, para evitar atitudes alheias que não queremos enfrentar e para não nos sentirmos culpados. Como se a mentira e a hipocrisia trouxessem resultados bons.

É um equívoco imaginar que a culpa nasce da virtude, pois a virtude é parceira da naturalidade do agir e entende perfeitamente as variantes de nossa forma de ser, em cada etapa da vida, ciente de que ninguém dá o que não tem.

Analisar esse assunto na teoria e na prática, com cuidado e com espírito investigativo, trará muita lucidez sobre como viver melhor e sem tantas “encucações”.

Aceitar-se, sem ilusões e esconderijos, é o caminho para a felicidade. Porque só após esse inteligente auto-reconhecimento, sem condenações, baseado na compreensão de que hoje estamos como podemos, mas amanhã estaremos mais maduros, é que nos desgruda de hábitos mentais indesejáveis, de idéias limitantes e do medo de errar que nascem da culpa.

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Respostas a este tópico

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Tema polêmico na forma como foi exposto, pois, sem sentimento de culpa, não há arrependimento. E sem arrependimento não é possível o perdão de si mesmo para se recomeçar. O homem precisa analisar seus atos para compreender a lei moral e o universo em que vive, mas não o conseguirá se se torna insensível, isto é, refratário à voz da consciência. 

A voz dos Mestres fala à Consciência, mas fica muda se não existe sensibilidade moral. Como se pode pregar a um surdo, se ele não é capaz de ouvir?  Neste caso, tem de receber a reação da Lei para se tornar permeável.

Admitir culpa por um mau ato é demonstrar sensibilidade.Mas, isto não existe nos indivíduos moralmente moucos, muito  individualistas e cruéis. O reconhecimento de culpa serve para reencaminhar o que erra antes que o próprio carma o atire à escuridão da alma (às vezes por séculos), quando haverá "pranto e ranger de dentes". 

Sentimento de culpa serve para o despertamento da consciência, assim como uma topada para avisar que o chão é pedregoso e que é melhor prestar atenção no caminho. Aceitar-se não quer dizer compactuar com os erros de caráter, mas, exatamente, conscientizar-nos do competente trabalho a ser feito para adquirir evolução. É necessário compreender bem essa tese da moderna psicologia para não se equivocar. 

Em verdade, cultivar demoradamente um sentimento de culpa evidencia soberba. É não admitir a possibilidade de errar. Porém, embora isso possa doer, reconhecer o erro, sensibilizar-se moralmente, passar a operar de maneira inversa, é demonstrar humildade. No meu entendimento, porém, isto não será possível sem uma noção preliminar de culpa.  

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