SEM NOME
(Renato de Azevedo)

Era tão pequeno, que ninguém o via.
Dormia, sereno, enquanto crescia.

Sem falar, pedia porque era semente

ver a luz do dia, como toda a gente.

Não tinha usurpado a sua morada.
Não tinha pecado. Não fizera nada.
Foi sacrificado enquanto dormia.
Esterilizado com toda a mestria.

Antes que a tivesse, taparam-lhe a boca,
tratado, parece, qual bicho na toca.
Não soltou vagido. Não teve amanhã.
Não ouviu: «-Querido...» Não disse: «-Mamã...»

Não sentiu um beijo. Nunca andou ao colo.
Nunca teve o ensejo de pisar o solo,
pezito descalço, andar hesitante,
sorrindo, no encalço do abraço distante.

Nunca foi à escola, de sacola ao ombro,
nem olhou estrelas com olhos de assombro.
Crianças iguais à que ele seria,
não brincou com elas, nem soube que havia.

Não roubou maçãs, não ouviu os grilos,
não apanhou rãs nos charcos tranquilos.
Nunca teve um cão, vadio que fosse,
a lamber-lhe a mão, à espera de um doce.

Não soube que há rios e ventos e espaços.
E invernos e estios. E mares e sargaços,
e flores e poentes, E peixes e feras
as hoje viventes e as de antigas eras.
Não soube do mundo. Não viu a magia.
Num breve segundo, foi neutralizado
com toda a mestria:

Com as alvas batas,
máscaras de entrudo,
técnicas exactas,
mãos de especialistas
negaram-lhe tudo
(o destino inteiro...)
- porque os abortistas
nasceram primeiro.

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